Carta XXXIII
FERNANDA. Fui forte; assisti sem lagrimas ao casamento da minha Cecilia, realizado hontem, ás 10 horas da manhã, na residência do Remanso. Pôde ser que eu ache um dia palavras para te expressar o que senti nessa hora; hoje isso me é impossível! Tivemos poucos amigos a nosso lado. Entre estes Eduardo Jorge, recebido pelas meninas como um irmão. Não parece um rapaz da cidade, este rapaz! é madrugador e observa as mínimas coisas com interesse muito sincero. E' então bem verdade que a lavoura pôde ter seduções mesmo para os espíritos superiores? A primeira pessoa que me fez acreditar nisso foste tu; a ultima o Eduardo Jorge. Vou-te falar da segunda, que é o meu genro. Este rapaz, que é de uma simplicidade de trato verdadeiramente encantadora, não parece abalado por ambições desmedidas, mas absolutamente convencido de que a sua vida e a da família que fundou, vão l 3 o ser baseadas na felicidade dos que trabalham com boa vontade e com justiça. Basta dizer isto : grande parte da sua fazenda, que é muito maior do que eu julgava, dividiu-a ele em núcleos que cedeu aos colonos mais competentes, para que eles os cultivem a seu modo e como quizerem. Estando ele convencido do preceito de que a pequena lavoura é o nervo das sociedades democráticas, começou deliberadamente por dividir a sua, auxiliando ao mesmo tempo com essa divisão alguns homens esforçados e honestos c que, de empregados, se viram sócios do patrão de um dia para o outro! Esta coragem denota seguramente uma alma rara e foi de todos os traços de caracter que pude apreender, deste homem a quem dei minha filha, o que maior admiração me causou. E não se pense com isso que cie é perdulário ou sonhador. Não; é calculista, mas calculista sem egoísmo; não quer a sua felicidade num deserto, mas no meio da felicidade dos outros. Basta entrar na sua casa para se perceber que ele ama a sua profissão de agricultor. O seu lar não tem o aspeto frio, de coisa provisória, que se seja obrigado a suportar por necessidade e sujeição. Ali tudo tem a feição definitiva que dá conforto á vida. Vê-se que os livros da sua biblioteca são manuseados. Abri por acaso alguns deles. Tinham notas. A mesa l 3 l los seus papeis é uma mesa de trabalho, ampla, forte, bem alumiada por uma lâmpada suspensa, com quebra-luz. Na sala de Cecilia poz ele alguns quadros originais de merecimento; um piano muito bom e uma mobília risonha e clara, que alegra a vista. Ele percebe que levou para essa casa, na mulher, uma colaboradora operosa para a felicidade do seu futuro. Não é uma menina piegas nem exigente; é uma mulher penetrada do desejo de ser bôa e de fazer o bem. A sua doçura, a sua inteligência, o seu espirito educativo melhorarão a sorte da gente rude que rodeia a sua propriedade, e dentro de poucos anos a influencia das qualidades morais e intelectuaes de Cecilia terão feito milagres nesse torrão ainda tão inculto em que ela foi viver. E é para isso que nós precisamos educar as filhas. Nestes dois anos de trabalho, de experiência, de necessidade, as minhas adquiriram uma perspicácia espantosa. Estou convencida de que não é na pasmaceira dos colégios que se formam almas. Os ideais precisam de terreno amplo e livre em que se debatam e possam criar raízes. Este do campo é maravilhoso para isso. A minha grande magua é não as sentir germinar em grande parte das nossas fazendeiras, já que talvez fosse demasiada ambição desejal-os em todas... E acredito que estaria l 3 a nisso a salvação da vida, ainda estúpida e melancólica, do nosso interior. Toda a mulher fôrma um ambiente em redor de si, mais facilmente do que o homem. Se ela tem gosto, se tem educação e se tem energia, esse ambiente será sugestivo dessas qualidades e produzirá grandes benefícios em todos que dela se aproximarem. Irradia-me na conciencia a certeza de que transmiti a minhas filhas essa compreensão dos seus destinos. Adeus. Um grande abraço da tua... MARIA.