Carta LI
MINHA BOA D. FERNANDA. Com estes rabiscos remeto-lhe um conto que li ha dias em uma revista e cujo assunto achei interessante. Ha nessa historia uma certa analogia com a nossa; e o conselho desse famoso e atilado medico de Paris fez-me pensar na sua ciência, minha bôa amiga, quando nos incutiu em nosso animo o gosto e o amor pelos trabalhos da agricultura, tão estupidamente desdenhados até hoje pelas mulheres do nosso paiz e tão cheios, entretanto, de interesse e de vida! Ah, como o Brasil precisa de nós, minha senhora, e como nós ignoramos isso! Toda sua, CECÍLIA. Segue o conto : RECEITA ORIGINAL Dizem que um medico holandez foi chamado um dia, em Paris, para vêr uma senhora da ti l 8 a alta sociedade, que se definhava sem que se soubesse porque. O medico era uma notabilidade, acatada por todo o inundo científico como verdadeiramente superior. O que ele dissesse era o que se deveria fazer, sem discussão nem relutância. Ora pois, subiu o grave doutor a escadaria atapetada do palácio dos Campos Eliseos onde habitava a enferma, e foi encontral-a, recostada em almofadões de cambraia c de seda, num dos recantos mais abafados do seu boudoir Ouvidas as queixas, começou o exame : pancadinhas no peito c nas costas; tomada de pulso ; reviramentos de palpebras ; auscultação de pulmões; tudo que em tais casos c mister fazer-se. Realmente, a pobre senhora era vitima de um esgotamento nervoso. O medico acomodou-a, sentou-se dcante dela depois de contemplal-a, como se estivesse a estudar-lhe a fisionomia, inquiriu quais os seus hábitos. Ela teve de confessar que não os tinha. — Como assim ? — Na sociedade em que vivo, doutor, não é possível ter hábitos... — Mas todo o mundo os tem. l 8 3 — Todo o mundo, menos eu. — Vejamos; procurarei auxilial-a : — a que horas se levanta? — Conforme. Ás vezes ao meio-dia; outras ás dez, ou mesmo ás nove horas. Também ás vezes á uma ou ás duas da tarde... — Oh, mas isso é péssimo, grunhiu o medico ; e fixando bem na doente os seus deslavados olhos azuis : — e a que horas se deita? — Ás vezes á meia-noite, outras á uma, ou ás duas, ou ás três, tanto como ás quatro ou ás cinco... Tudo conforme. — Está claro; umas coisas dependem das outras. A vida é uma cadeia que não deve ser formada de elos desencontrados... Agora diga-me. Quais as suas ocupações prediletas ? — Ocupações? ! — Sim; não ha quem não tenha as suas ocupações. — Se o snr. entende por isso freqüentar salões, passeios, bailes, patinações, teatros e restaurantes de luxo, dir-lhe-ei ainda que não sei do que mais gosto, porque não tenho tempo de refletir sobre cada coisa particularmente, nem de lhe tomar o gosto... — Tem sempre a sua casa nesta penumbra ? — Sempre. — Nunca passeia a cavalo ? l84 — Algumas vezes; não porque isso me dê prazer, mas porque é de bom tom, e cavalgo admiravelmente. — Não lhe dá prazer, porque'.' — Porque volto sempre para casa morta com dores nos rins... e mesmo porque para passear a cavalo é necessário levantar-se a gente á» nove horas, quando muito... — Poderá contar-me um dos seus dias, qualquer deles, que lhe esteja na memória ? — Pois não. Tomemos para exemplo antes de hontem : levantei-me á uma hora, porque me tinha deitado ás seis, após um baile c uma corrida de automóvel ao campo, para ver nacer o sol... Depois de ter tomado o meu chocolate, vesti-me para uma visita de caridade a um bairro pobre. Eu não podia faltar, porque tinha combinado com a marqueza de Tours e M"" Schloss acompanhal-as nessa excursão... Voltei a casa ás três horas, para almoçar e mudar de toilette para a recepção do ministro da Rússia, onde estive até ás cinco ; dei depois a minha volta pelo Bois, e voltei ás seis para casa. Repousei no meu banho de imersão, quarenta graus de calor, o que é para mim o melhor calmante, fiz a minha massagem, toilette para a noite, jantei, e fui depois á opera. Depois da opera fizemos uma hora de giro em automóvel, indo parar no restaurante, onde ceei l85 com uns amigos c onde ficámos palestrando até ás três horas. Foi um dia pacato. — Muito pacato! — Certamente. Não fiz nenhuma extravagância : nem natação na piscina; nem patinação no Palais de glace; nem marcas de cotillon; nem... —- Basta, minha senhora, basta! Diga-me, que vinho bebe? — Champagne. — Alimenta-se bem? — Não... não me fale em comida, doutor ! — E se eu lhe falar de flores ? — Ah, isso é outra coisa. — Gosta de rosas? — Muito! — Eu prefiro as tulipas. — Não fosse o sr. holandez ! — Porque será que as tulipas não dão bem em França ? — Isso é que eu não sei! — Nunca teve curiosidade de o indagar? — Confesso-lhe que nunca! — E' extraordinário, pois essa idéa persegueme constantemente... E com isto o dr. levantou-se e foi buscar a sua cartola e as luvas depositadas a um canto sobre um tamborete, emquanto a enferma arregalava para ele olhos de espanto. l8C Passados alguns segundos de silencio e de meditação, o medico voltou-se muito sério para a doente. — Tenha coragem, minha Senhora : o seu caso é grave. — Que me diz? ! oh, meu Deus... — Digo-lhe a verdade. Eu não engano os meus clientes. — Meu Deus, meu Deus! repetia ela numa voz cada vez mais trêmula. — Como se deixou chegar até este ponto?! — Não sei... não tinha tempo para pensar em mim... Morrer! morrer na llor da vida? não é possível! não me deixe morrer! Que me receita? E' preciso que receite c que me salve! — Receito-lhe uma coisa muito simples, mas de que dependerá a salvação do seu corpo,