Carta XXXIV Correio da Roça · Capítulo 33 de 54
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Carta XXXIV

MINHA BOA D. FERNANDA. Foi uma pena o Eduardo ter vindo por tão poucos dias! Imagine : chega á noite, na véspera do casamento de Cecilia; no dia seguinte, com a solenidade, a comoção, as visitas, a ida á casa dos noivos, que foram levados em cortejo, mal teve a gente tempo para lhe apreciar a companhia ; hoje : zás! diz que volta para o Rio amanhã! Para castigo não o deixamos parar! A's 5 horas da manhã já ele voltava do seu banho no rio. Disse-me o Salustiano que ele nada como um peixe! Como deve ser bom saber-se nadar como um peixe! Quando veio para a mesa do almoço, ás 10 horas, tinha percorrido a cavalo os cafezais do sul, passeado a pé pelo pomar e ajudado Joanninha e o velho preto Thomaz a regar o jardim! Estou pasmada. Nós todas estamos pasmadas! Ele faz essas coisas com tanta naturalidade, manifesl 3 4 CORnKIO DA ROÇA tando por tudo tamanho interesse, que chegamos a ter a ilusão de que foi criado a nosso lado desde pequeno, como um irmão. Vou agora leval-o a visitar o pombal e o galinheiro e sempre quero ver o que me diz do meu Chantecler e da minha Zázá, uma galinha topetuda e bonita como não creio que haja outra no mundo. Naceu agora na chocadeira uma ninhada enorme de pintos e espero bem depressa entabolar negocio de ovos e aves com as agencias de vapores ou com os boteis. Quero mostrar a esta gente que sirvo para alguma coisa... O Eduardo prometeu craveiros de qualidades novas á Joanninha e ainda por cima alguns livros de jardinagem. Estou morta por saber o que ele me vai prometer a mim! Quem anda um tanto triste é a Cordelia; tem pena que o Eduardo não assista a uma aula ao menos da sua escola ao ar livre. Ela tem feito milagres no ensino da leitura, da escrita, da historia natural e da musica. Os dicipulos cantaram hontem um coro celebrando as bodas de Cecilia, e com tanto sentimento e afinação, que todas as pessoas que os ouviam ficaram comovidas e pediram bis. Acredite que ao próprio Eduardo Jorge encheram-se-lhe os olhos de água e ouvio dizer : — « Em qualquer canto da terra a vida pôde ser bela, desde que se lhe dê idealidade e poesia... » A pratica tem-nos demonstrado l35 isso mesmo. Emquanto considerávamos o Remanso como um desterro, tudo aqui nos parecia indigno de nós. Desde a primeira hora em que nos decidimos a trabalhar para a sua prosperidade e para o seu aperfeiçoamento, os dias passam vertiginosamente e esta terra parecenos um paraíso. Abraça-a ternamente a sua amiga CLARA.

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