Carta XXVIII
QUERIDA MARIA. Não me deves favor nenhum. Divirto-me soberanamente com as reflexões que me impõem os teus negócios. A's vezes parece-me, pelo interesse que tenho pelos progressos do Remanso, que essa propriedade é minha e que me cabeaá todo o orgulho da sua prosperidade! Acho muita graça que me chames utopista c me encomendes a organização do teu livro de finanças! Gostei da tua carta e mais gostaria se me não dissesses nela que te dou conselhos. Alto lá, isso nunca! Chamo a tua atenção para vários assuntos agrícolas que me parecem destinados a felicitar a tua vida, e nada mais. Sabes que sempre gostei de lêr e que tenho uma biblioteca razoável, mas que não sou dogmática. Entre as flores do meu tapete e as do meu jardim prefiro as ultimas, embora as primeiras não sejam de todo más; e é essa preferencia que me leva talvez a imaginação para fora de I I 9 portas, até ás campinas da tua propriedade, de que muito me lembrei numa sessão cinematográfica, feita para demonstrar a superioridade do trabalho da lavoura á maquina sobre o trabalho manual. Verifiquei por meus olhos essa diferença. E' espantosa. Um fazendeiro me disse que tais processos são impraticáveis em terrenos pedregosos, como o teu; mas o meu otimismo, como dizes, vai até ao ponto de o julgar exeqüível mesmo ahi! A lavoura transforma-se. As idéas não param. E' preciso acompanhar o tempo, e não ficar anquilosada num meio que se agita... Não era preciso que me dissesses. Eu já conhecia a aversão do fazendeiro em geral pela escrita; mas descansa, que terás em breye um livro apropriado ao fim que desejas e em que não terás senão de pingar os pontos nos ii. Até quando?!... Até sempre. FERNANDA.