Carta III Correio da Roça · Capítulo 3 de 54
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Carta III

FERNANDA. Quando hontem o Salustiano...não sei se te lembras do Salustiano, um mulato de pescoço comprido, que varias vezes mandei, ai no Rio, á tua casa, com recados meus, e que exerce aqui agora as funções de correio, indo três vezes por semana ao povoado procurar a minha correspondência e comprar-nos pão, carne e mais uma ou outra coisa a que a civilização da capital nos habituou; pois quando esse rapaz assomou hontem á porta de casa, ainda salpicado da lama das estradas e com o saquinho da correspondência a estalar de cheio, as minhas íilhas correram para elle clamando pela tua carta, na anciã de saberem alguma coisa dessa sociedade em que desejam viver. Mas tu foste cruel : em vez de nos descreveres o que te cerca e embeleza a vida, entretiveste-te a falar-nos desta roça monótona, em que as horas se arrastam como velhas tropegas por um caminho sem curvas, sem imprevistos e sem interesse... A ti parece-te que se pôde viver muito bem longe do bulicio e da alegria da cidade, mesmo quando l 8 sc tenha vinte anos, que é a idade da minha filha mais velha, a Cecília; e dezoito, que é a idade da Cordelia; e dezeseis, que é a idade da Joanninha; e quatorze, que é a da Clara, certamente a mais conformada com as agruras desta solidão. E o que te afirmo é que os meus quarenta sentem duplicadamente o exílio a que a nossa má fortuna nos condenou, o que bem se expliea, visto que, afinal de contas, ter quarenta anos é ter-se duas vezes vinte... Passemos uma esponja sobre este assunto melancólico e discutamos a tua carta. Como de costume, li-a alto, rodeada pelas meninas, que se faziam todas ouvidos, na anciã de saber... Talvez te risses se pudesses imaginar a expressão de desapontamento que se lhes pintava no rosto ao ouvirem as tuas frases incitando-as ao papel, perdôa-me que te diga, quasi ridículo, de plantarem batatas e criarem galinhas, como se fossem velhas aldeãs analfabetas e grosseiras. Eu mesma pergunto : valeria a pena, para chegar a esse resultado, ter eu gastado tanto dinheiro com a sua educação e ter sofrido uma separação tão longa durante todo o tempo em que estiveram de pensionistas no colégio? Para se plantar batatas e criarem-se aves domesticas não é absolutamente necessário aprender-se francez, inglez, piano e desenho... M> Se eom essa norma de educação plantei ideaes na imaginação das minhas pobres criaturas, não te parece muito justo que eu agora as defenda de trabalhos rudes e as acompanhe no desejo de realisarem o que têm no seu sonho? A tua carta, que indignou as pequenas, exceto Joanninha, que abria grandes olhos medidativos ás tuas considerações, fez-me sorrir a mim. Fez-me sorrir e pensar que o mato, como o mar, é muito lindo para quem o vê de fora... A ti, no teu conforto da cidade, tudo parece fácil; imaginas que se cultiva um campo com o mesmo deleite com que se borda uma almofada e que basta o influxo da nossa vontade para que os pomares frutifiquem e os pássaros venham cantar rente ás nossas janelas! Que ilusão, amiga! O nosso mato é hispido, é tristonho, é gerador de tédio; não ha poesia, não ha versos de descantes, não ha musica, não ha dansa, não ha mocidade, e não ha risos no povo que o habita, e com o qual somos obrigadas a conviver. Depois de ter lido a tua carta, reagindo contra a nossa inércia e também com o fito de te dar razão aos olhos das minhas filhas, decidi que iríamos hontem á tarde á Tapera, que ainda não tínhamos visitado, um pouco por desleixo, um pouco por medo... de... de não sei quê. Para ser completamente franca, dirte-ei que a minha caçula, a Clara, foi a única a manifestar ao contentamento por essa resolução, rogando-me logo que a deixasse ir a cavalo, o que permiti com certo receio, por serem os nossos animais magros, trotões o de nenhuma confiança. As mais velhas relutaram em acompanhar-me e talvez não saíssem de casa se Joanninha não lhes tivesse comunicado um certo interesse e curiosidade por conhecer a velha propriedade de meu pai, ha muito tempo administrada por um casal de caboclos, cujos merecimentos sempre supuz maiores... A Tapera fica ameia légua da residência principal do Remanso. A distancia, como vês, é relativamente curta, mas o caminho tão bravio, tão atravancado de troncos de arvores e de pedras, e tão cortado de valas e de barrancos, que levámos um tempo infinito a lá chegar. Para que compreendas bem a nossa situação, sabe que parte da família ia de troly e outra parte a cavalo. Quando chegámos ao pobre sitio abandonado queixámo-nos todos de dores de rins e isso fez passarem despercebidas a minhas filhas duas lagrimasinhas que a muito custo retive nos olhos, entristecidos e saudosos de outros tempos, em que a Tapera verdejava esperançosamente nos largos mantos dos canaviais e em que eu corria pelo terreiro, animada pela voz alta e alegre de meu pai. Que diferença, filha! A casa desmorona-se. Ha buracos pelas paredes, por onde entram o vento e a chuva, sem que o tal casal de caboclos se tivesse lembrado de entupil-os com uma pásada de barro, ao menos... Corri ao laranjal! Onde estaria ? A erva de passarinho comera-o todo. O cafesal está em mato. Os canaviais extintos... Dentro de casa — nudez completa: os caboclos nem ao menos uma das camas souberam guardar para seu uso... De louça... nem um pires. Quizeram dar-nos café numa caneca de folha. Perguntei, lembrando-me das tuas noções românticas, em que poderiam eles consumir o tempo. Responderam-me que tratando dos animais... — Mas que animais ? perguntei eu espantada. — Agora morreram... responderam-me eles, com a melhore a mais genuína candura... Quando saíamos veio abrir-nos a cancela do terreiro um caboclinho esperto, de olhos travessos, neto do casal, encarregado pelos avós de guiar-nos á casa de um vizinho, onde deveríamos comprar algumas dúzias de ovos, que faltam absolutamente tanto no Remanso como na Tapera. O pequeno, lesto e engraçado, seguiu a pé, até que o mandei subir para o troly ; contou-me, em resposta ás minhas perguntas, que era órfão de pais, que não sabe lêr e passa os dias a caçar passarinhos. Joanninha condoeuse das aves e rogou-lhe que as poupasse. Comprados os ovos, em quantidade deficiente, num rancho de taipa e sapê, desabrigado e sombrio, de uma caipira velha, o caboclinho voltou pura a Tapera c nós tomámos pela estrada grande da vila, sujeitando-nos a dar uma volta enorme para escaparmos ao suplício do caminho percorrido horas antes... Mas, ah, fatalidade! a menos de trezentos metros um lamaçal tremendo ia-nos engulindo a todos; tivemos de rotroceder e embarafustar por um atalho tão rochoso e selvagem que nele se quebrou uma das molas do meu troly, que eu supunha mais rijas que os músculos de Hercules ! Que fazer? seguir a pé, guiadas pelo Salustiano, que por felicidade tínhamos levado para auxiliar as amazonas ou o cocheiro do troly cm caso de perigo. Eram oito horas quando entrámos em casa, arfando de cansadas e cheias de carrapatos. A esta ultima delicia é que não aludiste, como também não aludiste aos famosos bichinhos de pé... Em paga da minuciosidade desta carta, dizenos se sabes se é verdade que o Rocha se divorciou da mulher; se o Aníbal continua a freqüentar a casa da Simões e se afinal de contas casa ou não casa a Lemos ! Tua MARIA

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