Carta LII Correio da Roça · Capítulo 49 de 54
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Carta LII

MARIA. Nunca o Remanso me pareceu tão conveniente á tua vida como agora. As tuas cartas recendem tranqüilidade, honestidade, saúde, sobretudo saúde de espirito, que é a mais rara e a melhor. O teu são critério, unido a uns laivos de romantismo que espalham poesia sobre todos os actos que praticas; a tua energia e a tua piedade, realizaram o milagre humano de uma felicidade confessada, estável, forte, absolutamente tranqüila. Coube-me a mim a gloria de ter ouvido a confidencia tão extraordinária e tão simples dessa verdade, que o mundo nega porque a não quer compreender ou não a quer procurar. Dirás que a felicidade não se procura : achase. Enganaste. A tua, por exemplo, fizeste-a por tuas mãos. Se ainda o não sabias fica-o sabendo agora, e por mim, que tenho acompanhado a tua vida 11. I()0 com o interesse crecentc de quem assiste a um prodígio. Lembras-te? tivestc o teu momento de terror; houve um tempo em que olhaste para o futuro como quem olha para um recinto em trevas sem saber que direção tomar. Pouco a pouco foste-te enchendo de resolução; um passo hoje, outro passo amanhã e encontrasle o teu verdadeiro caminho. Apreciei tudo de longe, ás vezes com certo sobresalto, outras animada e esperançosa. Em verdade, saber encontrar o seu caminho, e saber não sair dele, eis á maior dificuldade da vida. E' a ciência rara que só os fortes de coração e de espirito podem atingir com perfeição. K para gloria da tua alma, tu, não só a alcançaste, completamente, como ainda a soubeste transmitir a tuas filhas educando-as em um regimen de trabalho ativo e creador, de bondade e de singeleza, que as faz sentir o mesmo gozo conciente de viverem uma vida fértil em benefícios de toda a ordem. Mas, não nos iludamos, para esse resultado cooperaram onormemente a quietação do campo e as suas exigências de trabalhos novos e constantes. A fazenda é um verdadeiro sanatório moral para quem a veja com olhos inteligentes e piedosos; a cidade, ao contrario, é uma grande perturbadora das almas adolescentes. Se tuas filhas tivessem permanecido neste meio inquieto, em companhia de amigas que aos i5 annos se pintam como cocottes; dansando em salões com rapazes que nas meninas só acham interessante o dote; ouvindo de todos os lados lisonjas ou intrigas, teriam elas chegado á perfeição moral a que chegaram? Não. Quando eu te disse que nunca o Remanso me pareceu tão conveniente ao socego do teu espirito, foi exatamente por comparar o seu ambiente casto ao ambiente de pequenas intrigas e grandes maldades, que /presentemente nos sufoca na capital. Antes de outra explicação, deixa-me dizer-te que estou convencida de que a vida das grandes coletividades sofre de epidemias morais como de epidemias de febres infecciosas. Se ha organismos sãos, que resistem, a maior parte sente-se contaminada. Não se sabe de onde vem a culpa; mas quando a rajada sopra, o mais prudente é fechar as janelas e prevenir-se a gente com certos desinfetantes poderosos, rotulados com o dístico de Paciência ou de Pouco Caso. Por mim não tomo nenhuma precaução. Sabes o meu sistema: não lenho tempo para pensar na vida alheia nem de querer mal a ninguém, persuadindo-me com isso de que também os outros não se quererão ocupar com a minha pessoa... E' um engano, mas que não aflige, porque me sinto bem escudada na con19a ciência. Suppõe, porém, que estavas aqui mais as tuas quatro filhas, que são alegres, expansivas, moças c independentes... Teriam elas, nessa idade em que as impressões causam abalos tão violentos, a mesma tranqüilidade de animo que eu tenho e têm geralmente as pessoas da minha idade e da minha experiência? Quando lhes viessem dizer que tais e tais dos seus amigos diziam delas tais e tais barbaridades, os seus confiantes corações não se sentiriam espremidos pelas mãos de ferro de uma angustia tremenda? E como tu sofrerias, minha boa Maria, com o espetáculo dessas primeiras desilusões! Não penses que exagero; passamos evidentemente por uma crise moral extremamente simtomatica e extravagante. Dizia-me ha dias um velho jornalista que nunca recebeu tantas cartas anônimas em sua vida como nestes últimos seis mezes. O chie neste momento é não acreditar nas virtudes alheias; ter maior prazer em desdenhar do que em admirar; em reprovar do que em aplaudir. Uma mulher sorri, amavelmente?— E' leviana. Um homem vacila em uma resolução? E' de má fé. Como podes imaginar, geralmente as vitimas prediletas são as pessoas notáveis pela sua fortuna, pela sua beleza, pela sua atividade ou pelo seu nome. E' triste ver-se o prazer mesI 9 3 ^m^^n*^***t**w*. quinho, feroz, com que se tenta desfazer reputações e malquistar ideais sinceros. Quanto maior fôr o prestigio de um indivíduo qualquer, mais fundamente se cravará nele o dente negro e pontudo da maledicencia; não parece estarmos em uma cidade de um milhão de habitantes, mas em uma terrinha de comadres mexeriqueiras e ociosas. Andam as almas em um jogo de cabra-cega, que infelizmente parece que as diverte mais do que as fatiga... Para veres que não exagero, e como documento do que afirmo, vou narrar-te aqui um caso typico : Temos um amigo, cirurgião distintíssimo comquanto ainda muito moço. O seu amor ao estudo, o seu entusiasmo pela profissão, a sua clinica crecente atraíram para ele a atenção publica. Ha um par de mezes foi chamado para fazer uma operação muito grave e fel-a com sucesso. Falou-se muito no caso, concorrendo para isso ser pessoa altamente colocada a que se submeteu á melindrosa operação. Um colega desse cirurgião, a quem, não se deve imaginar porque, tais triumfos irritavam, lembrou-se então de inventar o boato de que o outro sofria de um mal herpetico contagioso... Supõe o resto. Toda a gente sabia que não era verdade, mas em todo o caso ia passando o boato para diante... Os clientes começaram a retrair-se, com medo de uma aproximação perigosa, e o ilustre medico viu consideravelmente diminuída a sua clinica, de um dia para o outro! Bonito. Não te parece? Agora ouve esta, que é de hoje e me fez rir: Combinámos hontem, meu marido, o Eduardo Jorge e eu, encontrarmo-nos ao meio-dia cm um restaurante para almoçarmos juntos, indo cada um de um ponto diferente. Eu da Tijuoa, onde tinha de ir ver uma ex-criada agora muito doente; e os dois homens dos seus escritórios respetivos. Ao meio-dia encontrei-me no restaurante com o Eduardo, a quem meu marido incumbira de me dizer que o não esperasse, porque se via forçado a ir a Nitberoy a um negocio imprevisto. Sentei-me tranqüilamente á mesa em companhia do teu afilhado, que pela idade poderia ser meu filho, e almocei, com o apetite que, em geral, nós as donas de casa, temos quando almoçamos em um restaurante. Pois, minha filha, dahi a duas horas todos os conhecidos que topavam com meu marido lhe diziam com um ar de quem não quer falar por mal, espiando-lhe os olhos, que me tinham visto, « ou que tinham ouvido dizer », que cn almoçara em um restaurante com um rapaz desconhecido ! Meu marido é um urso, não gosta Ig5 de confianças; imagina com que expressão fisionômica ouviu isto muitas vezes, no mesmo dia, até de pessoas com quem mal troca um cumprimento! Quando ao voltar para casa, á noitinha, viu ainda acercar-se dele um sujeito com ar de malignidade disfarçada em doçura e repetir-lhe o estribilho : — por sua senhora não pergunto, porque soube que ainda hoje almoçou em um restaurante com um mocinho de ar estrangeiro — ele perdeu a paciência e sacudiu o tal sujeito, com fúria, pela gola do casaco. Apesar de não gostar de violências, ri-me muito quando meu marido, todo irriçado e nervoso, me relatou esta! O peor é que a par de coisas ligeiras, vão outras graves e tristes, creadas pelo mesmo sopro de perversidade. Registro este pendor, que espero será passageiro, pelo habito que tenho de te comunicar as minhas impressões. Repito : a vida da roça, tal como a levas com tuas filhas, parece-me neste momento mais do que nunca deliciosa. Tu mesma o disseste : — um bom piano, uma grande biblioteca, uma janela aberta para uma linda paizagem - e ahi está a felicidade! Mais do que nisso, a felicidade está em saber criar uma atmosfera de alegria, de honestidade, de bondade e de trabalho, e em saber mover-se i g 6 nela, como tu fazes, no ritmo da mais doce e da mais perfeita harmonia. Eu estou muito infiltrada dos venenos da cidade para querer viver no campo, mas ha horas, como esta, em que te tenho inveja. Oh, nma inveja sem maldade, descansa. As minhas invejas não prejudicam ninguém. T I A , FERNANDA. P. S. — Vão por este mesmo correio algumas musicas de Schumann para Joanninha c um romance inglez para Clara. Segue também a caixa de ferramentas que me encomendaste para o Salustiano. F.

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