Carta XXXI Correio da Roça · Capítulo 30 de 54
Obra Menu

Carta XXXI

CORDELIA 0 teu pavor encantou-me. Crê-me, minha querida, tive com a tua carta uma das maiores consolações da minha vida. Ainda bem que amas e que te interessas por esta nobre língua portuguesa, tão bela, tão mal servida entre nós e tão difícil! Vou dar-te um conselho, já que m*o pediste : não leias gramáticas, lê bons livros e faze-os ler aos teus dicipulos; não lhes ponhas nunca nas mãos paginas defeituosas e incorretas; apura-lhes o ouvido e todas as vezes que eles errarem emenda-os sem piedade. No seu esforço de bem articular as palavras ellas sairão dos seus lábios puras e cristalinas. Com vagar hei-de te ir mandando algumas obras de bôa leitura portuguesa; e entretanto, a propósito do pouco caso que geralmente as moças da tua idade fazem da sua e nossa língua, vou conjar-te esta anedota autentica, verai a 6 CORREIO I>A ROÇA cissima, passada com o próprio Eduardo Jorge. Sabes que esse rapaz, educado nos Estados-linidos, não pôde deixar de falar inglez e dansar a valsa! Bonito, elegante, pertencendo á nossa melhor sociedade, como dizem os jornais, vai freqüentemente aos bailes de mais fulgor. Em um deles, tendo sido apresentado a uma carioca da gema, pediu-lhe a honra de umacontradansa. Sabendo o par brazileiro, naturalmente ele falou-lhe em portuguez; qual foi a sua admiração quando, volvendo para ele os seus olhos castanhos de morena, ela lhe respondeu em francez! Eduardo Jorge fez um acto de coragem : respondeu por sua vez á moça — cm inglez! Se ela vinha do colégio de Sião, ele vinha dos Estados-Unidos; se a nossa lingua é banida dos salões, porque as meninas educadas por francezas sabem melhor o francez do que o português; ele por seu lado, sabendo melhor o inglez do que o francez, tinha o direito de optar por aquela contra esta lingua! A moça enrubeceu; ele recitou-lhe trechos de Longfellow; máximas de Roosevelt e não sei que mais! Por fim ela confessou que ele falava muito depressa e preferiria ouvil-o em... português! E foi em português que eles, afinal, se entenderam! E' por saber qual o desamor com que a nossa \VJ lingua é tratada entre nós, que a tua carta me encheu de espanto e de alegria. Abraço-te por isso duas vezes, minha querida Cordelia, uma com muito afeto, outra com muita admiração. FERNANDA . MW«MAMMMM«

1/1
Menu

Fazer anotação