Carta XVI
MINHA MARIA. Chegou o dia de te falar nas decantadas galinhas, e faço-o com o desassombro de quem se sente prestigiada no assunto pela pena rutilante do extraordinário autor do Chantecler. Se Edmond Rostand achou na confusão de um pateo de granja, entre o alarido dos gansos, os oocoricós dos galinaceos, os au, au, dos cães de guarda, o piar dos pintos e o arrulho dos pombos, expressão para uma peça em verso, destinada ao palco universal, não será coisa despropositada que eu, embora sem fantasia, sem poesia e atada aos preconceitos da nossa sociedade falha de espirito pratico e de gosto pelo pitoresco, me entretenha a conversar por escrito comtigo a respeito de um galinheiro! Ha alguns anos isso faria desviar de mim o interesse da gente chie, a gente da roda fina em que vivemos e que apreciamos... mas hoje o exemplo do poeta francez projeta uni raio de luminosa simpatia para a vida intima dessas aves bonachonas de quem no Brazil só as velhas burguezas se constituíam protetoras, de modo que até mesmo nos salões mais requintados se fala em galinhas, com a mesma naturalidade com que se fala em canários ou em sabiás... Aproveito a maré e deixo-me levar, na certeza de que tu mesma acolherás esta palestra com mais interesse do que o que terias nos antigos tempos. Abençoado Rostand! Tanto o pouco caso e o desinteresse pelos galinheiros é usual entre nós, que, mesmo nas propriedades, como o Remanso, se vêem os lavradores na contingência de andar peregrinando pela vizinhança para a compra de ovos! Tu mesma o disseste em uma das tuas primeiras cartas, o que me encheu de indignação. O mal é freqüente; não te censuro só a ti. Tudo o que não seja a grande cultura especial da fazenda, parece ao lavrador objeto sem importância. E' esse defeito que precisamos combater, tu com o teu exemplo, eu com a minha palavra, tuas filhas com as suas lições e os seus argumentos na escola livre, que tão acertadamente criaram no Remanso. No encadeamento de varias funções está o melhor elemento de felicidade em um estabelecimento agrícola, sempre complexo e interessante. Se não tratamos senão de polir e fortificar m elo dessa cadeia, os outros, esparsos e paridos, não servirão senão para juncar o solo de íutilidades e atrapalhar-nos os passos. E' por ensar assim que me tenho esforçado em chamar atenção de todas vocês para vários pontos de parencia insignificante e que têm no fundo uma romessa de recompensa e de felicidade futuras, íão ha nada indigno da nossa atenção, na maavilhosa natureza em que vivemos e de que ivemos. Ora, pois, minha querida, mando-te (serão lespachados hoje, á noite) um galo e três galiihas Houdan, de plumagem branca e preta, •enacho e gravata espessos, criaturas pesadoias, comilonas, grandes apreciadoras da alilentação animalizada. Não será difícil arranjar únhocas para variedade dos seus repastos. •astará para isso mandares enterrar a poucos entimetros, em um fio de terra sempre humeecido, um pouco de fubá grosso; não tardará mito que esse fio de terra seja um verdadeiro inho devermes, que regalarão as mais poedeiras alinhas do teu galinheiro. Com esses exemlares de raça franceza, vai um casal de Brahma, m da Conchinchina e um da nova raça Fave- )lles, de uma côr assai monada, oferecidas por u afilhado Eduardo Jorge. Informa-me, arêm, o meu jornal agrícola que a raça mais á 8 o r r - i i ririnrn—irn r i — r - —•"•- ri-im-n»nij>j j moda e de reputação perfeitamente justificada, agora, é a galinha Orpington, principalmente a amarela; e o galo dessa raça é quasi indispensável em um galinheiro de aves comuns, cujos produtos, cruzados com a Orpington, dão resultados dignos de nota. Galinhas do paiz ha-as muitas por ahi, para que eu precise mandar-t'as de tão longe; entretanto, quando as comprares repara nas condições do seu tratamento c da sua saúde. Uma galinha tuberculosa arruinaria a saúde de todas as outras, nacionais ou estrangeiras. Essa espécie de doença é combatida com o creosoto, sob diferentes fôrmas : injeções, inalações, etc., parecendo-me, porém, que o processo mais racional e rápido para evitar a propagação do mal é o da supressão da galinha pelo... degolamento. Mas eu não te quero instruir aqui sobre o modo de manteres em ordem e em boa higiene o teu galinheiro; para isso ha formulários completos, obras que uma lavradora e criadora inteligente tem a obrigação de consultar. O meu desejo é chamar a tua simpatia para determinados assuntos, deixando-te depois em face deles, estudando-os por tua conta, que para isso, graças a teus bons pais, sabes ler e escrever. Entretanto, dir-te-ei que não deves consentir em que as crianças da colônia freqüentem o lugar das 8 l wasW**WV^*>a*V^'WV^*W%A'>.l*>'WW^An^«'V^^'S*-» ves; lembra-te que o croup é de origem aviaria pôde ser facilmente transmitido da gosma da alinha á mucosa de uma boca infantil. Com o espaço de que dispões, poderás divilir o teu galinheiro em varias repartições, de nodo a ter sempre alguma delas desinfetada, om o solo revolvido e semeado de nabos ou ie mustarda, grãos que têm a dupla vantagem le germinarem depressa, purificarem o solo e inda a terceira de alimentarem bem os galilaceos. Quem não dispõe de grandes espaços le terreno para tal desdobramento de galinheios, usa então a creolina e outros desinfetantes. Fiadas na excelência do clima e na vastidão los campos em que vivem, vocês, fazendeiros, lão prestam geralmente atenção ás desinfeções limpeza do recinto em que conservam os nimais. Disse-me o Eduardo Jorge que isto é im erro de funestas conseqüências. Quanto lais bem tratados forem os animais, seja qual ftr a sua espécie, mais saudáveis e mais belos les serão e mais garantias de salubridade averá no sitio habitado por eles. Disseste-me ha tempo que nem tu nem tuas lhas se podiam utilizar dos cavalos do Retanso, por serem feios e trotões. E' vergonhoso que seja assim, em uma faenda onde ha bous pastos, boa água e exceintes terras para roças de milho. 8a Presta atenção ao bem-estar dos animais da tua propriedade, desde as vacas leiteiras, mugidas todas as manhãs no pateo da residência, até os últimos pintinhos acabados de sair da casca e verás, como viu Rostand, que em toda a criatura ha uma alma, e cm toda a natureza um apelo de amor c de harmonia universal ! Pensava eu em pôr o ponto final nesta carta, quando o Eduardo Jorge, que sabia do assunto desta correspondência e é a gentileza em pessoa, me apareceu á porta em um automóvel, convidando-me para ir visitar com ele a Bassecour de um seu amigo. As informações que eu te fornecesse seriam assim mais praticas e positivas. Fui, e voltei encantada. Com vagar te relatarei mais tarde as minhas impressões; entretanto, do que vi posso desde já informar-te de que deveras manter em compartimentos separados as galinhas de raças diferentes ; que é bom juntar á sua alimentação de milho a aveia e o triguilho, assim como é útil, para a higiene do galinheiro, revolver de vez em quando a terra do chão, misturando!he cal. Por hoje é tudo; e adeus. FERNANDA.