Carta XLVIII
FERNANDA. Tenho a alma cheia; preciso desabafar comtigo! Escrevo-te da fazenda de meu genro, para onde viemos todos depois de termos assistido á inauguração do hospital novo, instalado na divisa do Remanso com o Morro Azul. Não sei se te recordas da idéa de Joanninha, que te comuniquei um dia, de plantarmos um pinheiral em uma grande mancha de terreno inútil que tínhamos para ali abandonado, c prepararmos nele uma enfermaria para os colonos e os pobres dos arredores. Quando a minha linda filha (porque ela está linda, fica sabendo) me confiou tal pensamento, considerei-o utupista e sorri. Mas, o tempo não pára e as intenções boas, quando são formuladas por pessoas sinceras e de animo forte, acabam sempre por vencer. A' tenacidade da minha Joanna juntou-se a bondade de meu genro, e o hospital lá está, 1^3 todo branco, todo rodeado de venezianas, no centro de um pinheiral plantado de novo, com espaço bastante entre as arvores para a passagem das cadeiras de rodas dos paraliticos ou enfermos temporariamente impossibilitados de caminhar. O edifício é modesto, mas ainda assim dividido em três pavilhões : um para doenças infecciosas, um para cirurgia e outro para consultório e clinica diária. Tudo é caiado e singelo, pobre, mas carinhoso. A pouco e pouco os fundadores irão aperfeiçoando as instalações, que são por emquanto ainda muito rudimentares; para isso querem organizar uma sociedade entre os lavradores da vizinhança, que os auxiliarão a manter o hospital em beneficio dos seus empregados ou protegidos. No pavilhão de cirurgia ha já um gabinete odontologico, onde um moço dentista, mediante uma contribuição mensal, trabalha todos os dias das sete ás dez da manhã, hora em que volta para a sua residência, em Pedrinhas. Os clientes que possam pagar, darão dois mil réis por sessão, depositando esse dinheiro na caixa da administração, em favor do estabelecimento; mas a verdade é que a maioria deles não pagará coisa nenhuma... A principal despeza foi a construção de quatro estradas, perfeitamente bem feitas e macias e que ligam o hospital, uma ao Remanso, ou10. I j 4 tra ao Morro Azul, a terceira, que é a maior e mais bela, á estrada municipal de Pedrinhas, e a quarta á vila Formosa, com varias comunicações particulares. Dessas estradas alguns trechos foram aproveitados, mas exatamente a maior parte foi traçada e feita pela primeira vez e creio não será preciso sofrer modificações, porque tem caráter definitivo. Mais tarde, quando as rendas o permitirem, o hospital terá um automovcl-ambulaneia; contenta-se hoje com ter um carroção acolchoado para transporte de feridos e doentes. O estabelecimento tem dois médicos de partido, a quem dá transporte e avisa pelo telefone da entrada e condições de cada novo enfermo. Uma pequena farmácia anexa ás enfermarias c alguns aparelhos permitem acudir com pressa aos primeiros cuidados com os doentes. Como pessoal, um enfermeiro, que é ao mesmo tempo administrador, uma criada e uma cozinheira. E' pouco, mas é o mais que se pôde fazer por emquanto; mas esse pouco já é consolador, posso afirmar-te. Hoje mesmo, quer dizer no próprio dia da inauguração do hospital, para lá foi levada uma pobre caboclinha opilada, em vésperas de ter o seu primeiro bébé. Foi recolhida á secção da maternidade onde já está sendo tonificada, ao mesmo tempo que 1^5 será esclarecida pelos conselhos da higiene que deve usar depois comsigo e com o seu filho. Está claro que meu genro, acolhendo a idéa da cunhada e executando-a, dispoz-se a despender com isso muito dinheiro, e eu admiro a tranqüilidade e o prazer com que ele o faz. Se, como é justo, os lavradores da vizinhança cooperarem para as despezas do hospital, o empreendimento não será pesado a ninguém, sendo útil a todos; mas conhecidos os hábitos econômicos dos nossos agricultores, poderemos contar com isso ?... Não. Os nossos agricultores, quando não são pobres, não sabem dividir os lucros das suas lavouras em obras que redundem no beneficio, na tranqüilidade e na alegria delas. Para eles, em geral, o colono é maquina de trabalho, não é um sêr humano, digno da consideração de si e dos seus. O erro vem de longe e levará tempo a ser corrigido, mas ha de sel-o pouco a pouco e eu me sinto feliz por ver que minhas filhas dão nas trevas os primeiros passos nesse sentido. Agora mesmo que fazem Joanninha e Clara, na sala da biblioteca onde te escrevo? Uma faz bruxas de pano, para entreter as crianças doentes da enfermaria : outra sapatinhos de lã para os recemnacidos da maternidade. As bonecas de Clara são engraçadas; leva cada uma o seu enxoval e um I j 6 nome, isto é, o inicio de uma historia que distrairá a criancinha enferma: os sapatinhos de Joanna aquecerão os pésinhos de entes nacidos para rasgarem a pele nos espinhos da miséria, e a quem a incúria das mais ignorantes não preparou nenhum conforto. Eram estas coisas que me enchiam o coração e eu sentia necessidade de desabafar comtigo, a quem o meu romanticismo não parecerá ridículo, porque o sabes sincero. O que me vale, é que, filha da mesma época, também tu és romântica, minha querida, e será por isso que os nossos sentimentos se combinam tanto ! Já que te disse o que estão fazendo as minhas filhas mais novas, dir-te-ei também alguma coisa das mais velhas. Cordelia toca na sala interior : estuda umas musicas de Grieg, recebidas hontem; e aqui na larga mesa da biblioteca, Cecilia lê com o marido um romance francez. Estive agora mesmo alguns momentos com a pena no ar, olhando para eles e gostando de os vêr assim de cabeças unidas, inclinadas para a mesma pagina. Meu genro lê a meia voz, pára de quando em quando para comentar uma ou outra passagem, beleza ou defeito do estilo, singularidades dos costumes descritos ou comoção da cena. A luz da lâmpada cai em cheio sobre as suas mãos unidas, a de Ceei1JJ lia, morena e esguia, de unhas reluzentes, a dele forte, branca, coberta de ligeiros pelos loiros. Lá fora o silencio dos campos, o aroma das matas traspassando os ares; aqui dentro o amor, a bondade, a inteligência satisfeita e gloriosa. Através das paginas dos romances, eles vêem o mundo e aprendem a olhar com interesse para os pobres que os rodeiam. A missão do romance moderno é bem superior àquela que eu imaginava. Disse-me Cecilia que depois de ter lido com o marido toda a obra de Emilio Zola, se sentiu muito mais piedosa e muito mais humana. Percebeu assim que o homem é em toda a parte do mundo o mesmo animal imperfeito e necessitado da benevolência alheia. A leitura feita em comum, sugere-lhes discussões curiosas e dão azo a que Cecilia seja esclarecida pelo marido em muitos pontos que, sozinha, teriam ficado para ella sempre obscuros. Quem me diria, quando tirei as minhas filhas do colégio para as apresentar na sociedade fluminense, em cujo seio eu vivia verdadeiramente embriagada de luxo, que bastaria para fazer a felicidade de qualquer delas o amor socegado de um lavrador modesto, uma casa em que por todo o luxo ha um bom piano e uma excelente biblioteca! Os bailes, porque foi para falarem nos bailes 1-S com os diplomatas que eu lhes mandei ensinar francez e inglez ; os concertos em que tomassem parte; os vestidos vindos de Paris; ns primeiras representações c as idas e vindas pelas ruas, que entravam no meu programa de futuro, perderam a sua significação de gozo, diante dos empreendimentos que desde a mais velha de minhas filhas até a ultima, têm realizado neste socego maravilhoso da roça. O prodígio de tudo isto é que ao mesmo tempo que nos tornamos todas mais filantrópicas (incluo-mc na onda porque sinto a sua influencia), tornamonos também mais ambiciosas; isto c, procuramos empregar a nossa atividade c tirar dela todos os proveitos possíveis! Não somos meramente sentimentais nem ntopistas : gastamos do que produzimos, exercendo justiça sem prejudicar o futuro da propriedade e da família. E a minha felicidade seria completa se a sombra de alguém, para Iodos invizivel, não se interpuzesse tantissimas vezes entre mim e os quadros mais amáveis. Agora mesmo, olhando para Cecilia e para o meu genro, vi desenhar-se o seu vulto numa nevoa de lagrimas e de saudades... Meu pobre amigo, como ele gostaria de vêr os filhos nesta doce expressão de felicidade socegada, estável, verdadeira! Adeus! MARIA.