Carta XIV Correio da Roça · Capítulo 13 de 54
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Carta XIV

MINHA HÔA AMIGA D. FERNANDA. Até hoje nada de pombal; nada de galinhas; nada de iluminação caseira; e nada de nos dizer a razão por que não realizou a sua anunciada visita pelo Natal, com o afilhado da mamai, esse tal Sr. Eduardo Jorge, que toca piano e se interessa por agricultura a ponto de trazer dos seus passeios de rapaz os bolsos cheios de sementes de arvores! Não imagina o que me ri com isso. E o caso é que estão brotando as tais sementes, graças ao desvelo de Joanninha, que toma muito ao serio as suas funções de jardineira. Se a visse de manhã, de chapelão, avental, saias pelo tornozelo, regador na mão e tesoura pendente da cintura, talvez não lhe fosse fácil reconhecer nela aquela menina de cinturinha de vespa e olhar nostálgico, que por tais predicados teve •JO tantos votos de beleza em um concurso de nào me lembro já que jornal carioca... Eu tenho crecido e se não engordo é talvez pela impaciência de ver passar os dias sem que cheguem os meus pombos, nem a decisão do tal concurso do pombal. Sabe? Já escolhi o lugar para ele. Ha de ser perto do açude, junto á cancela do pasto. O açude, (nós aqui ehamamos-lhe : tanque) é grande c profundo, mas tem as margens muito desabrigadas. Parece que meu avó fez aquilo só para aguada dos animais : foi pena que lhe não tivesse plantado algumas arvores á roda, porque lhe daria pitoresco e sombra. Ao principio não notei isto, mas as suas cartas têm por tal modo despertado a nossa curiosidade pelas coisas que nos rodeiam, que lhes vou descobrindo sem esforço as qualidades e os senões... Para castigo de não ter vindo passar o Natal comnosco, direi que arranjámos uma arvore lindíssima para a criançada da colônia. Mamai fez uma grande tachada de balas, que nós distribuímos em saquinhos de côr pelos galhos miraculosos do pinheirinho, autentico, trazido pelo Salustiano da vargem das Pedras. Houve coros, ensaiados por Cecilia, dansas ensinadas por Joanninha e uma historia muito linda contada por Cordeüa. Só eu não fiz nada, mas misturei-me a tudo; dansei, cantei e vi-me incluída na sorte dos bonbons por espirito de camaradagem mais do que por gulosina infantil... A' hora cm que lhe escrevo, mamai está salgando um porco na despensa, e Cecilia preparando remédio para uma doente da colônia. Realmente, quem mora em uma fazenda precisa entender de tudo! Hontem eu quasi desmaiei vendo Cordelia desinfetar a perna de uma criança, golpeada por um caco de vidro, e collocar-lhe, com a maior perícia, alguns pontos falsos... Mas isso não a interessa. Adeus, minha amiga. Estamos bons, mas com saudades. Até quando? CLARA.

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