Carta XIX
MARIA. Vinha eu de ter posto no correio a grande carta de parabéns que escrevi á tua Cecilia, quando topei com o Eduardo Jorge dcccndo de um automóvel, á porta de uma casa de maquinas. — Sabe? vim de Friburgo, disse-me ele, e trago-lhe noticias muito interessantes. Se consente em esperar cinco minutos por mim, entre no automóvel, onde encontrará um ramo de cravos que lhe destino; entretanto, darei uma ordem urgente no escritório... Consenti. Ele galgou os degraus da escada a dois c dois e eu entrei para o automóvel onde, além do lindo ramo de cravos a que ele fizera alusão, encontrei vários embrulhos e uma cestinha de frutas. E' extraordinário, este teu afilhado! Não sei como ele consegue aliar á sua distinção e á sua elegância o modo pratico e simples que tem de fazer as coisas. Além dos cravos, uma revista ilustrada que tinha ficado atirada sobre o banco, ajudou-me ttj a passar não os cinco, mas uns dez minutos em que esperei pelo nosso amigo. Ele voltou sobraçando um masso de catálogos e, mal se viu no automóvel, perguntou logo por ti, muito interessado pelo casamento de Cecilia. Respondi como pude. Vinha ele de visitar uma grande propriedade agrícola, onde fora assentar umas maquinas e vêr funcionar outras mandadas vir, por seu intermédio, dos Estados Unidos. Estava encantado. Sentira o nosso delicioso frio da montanha, leve e seco, e fartara os olhos da beleza das águas e das florestas das suas devezas incomparaveis. Que eu olhasse para a frente ; todos aqueles embrulhos, á exceção da sua maleta, eram para mim! Trouxera-me kakis como nem o Japão pôde suspeitar que os haja, grandes e sumarentos, de um encarnado sumtuoso... aquele embrulho pardo era de mangaritos, de que ele me pedia para mandar um punhado á madrinha, para sementeira; aquele outro era de mudas de craveiros e havia ainda mais dois : um de brochuras,que só agora abri e de que te vou dar noticias, outro...imagina de que! de buchas secas e lavadas. Não pude deixar de rir quando, á sua impaciência de moço trefego e serviçal, o vi rasgar um pouco do papel, para me perguntar se eu conhecia aquilo! A' minha resposta, de que não ha no Brazil quem não conheça essa fruta e a sua 9 4 utilidade, ele pasmou. — Que! pois toda a gente sabe o valor desta planta cquasi ninguém a cultiva ? Mas o nosso paiz é fantástico, minha querida amiga! Em qualquer parte do inundo em que se percebesse melhor o valor das coisas, esta planta seria cultivada para comercio, e seus frutos preparados c vendidos no mercado, ou por vendedores ambulantes, nas ruas, para economia dos hotéis e casas de família. Assegurei-me agora de que não ha melhor esfregão para panelas nem melhor esponja para banhos. A dona da casa em que estive, que é uma senhora inteligente e cuidadosa, tinha feito de buchas abertas cache-pots para os seus vasos de plantas e cestas graciosas para apetrechos de costura e para o pão do almoço. Foi por ver a variada aplicação desse fruto que eu pedi uns tantos deles para lhe trazer, como uma grande novidade; mas o seu riso atrapalhou-me, fez-me ficar desapontado ! O meu riso fora tolo; e tanto estou disso convencida que te aconselho, se é que não tens ainda buchas no teu quintal, a te apressares em semeal-as. Parece que isso dá depressa e é um excelente adorno para cercas, além das outras vantagens que as tornaram tão admiradas aos olhos do Eduardo ! Realmente, não ha sem despeza especial, panos que cheguem para todos os serviços em que a bucha pôde ser mag 5 gnificamente empregada, numa casa de tamanho regular. Comprarás, pois, menos uns tantos metros de algodão por ano se plantares um simples pé de bucha no fundo do teu terreiro! Além de tudo, é bonito. Toma nota e não te rias desta lembrança, como eu me ri do presente do teu afilhado, e que constituía uma das novidades interessantes anunciadas por ele logo no principio do nosso encontro! Na verdade, bem pensado, não ha povo que menos saiba aproveitar as dádivas da natureza do que o povobrazileiro, o que confirma a frase de um dos nossos homens de sciencia de que — a falta de instrução agrícola é o primeiro dos nossos males. Assim penso e nem sei porque me afligem estas observações... Bem sei que mais lá para diante, quando, ou por educação ou por necessidade, os próprios camponezes saibam tirar proveito de todos os produtos cultivados ou espontâneos das terras em que viverem, tudo ha de ser aproveitado e ter o fim para o qual naceu; mas entretanto, a idéa de que muita pobre gente deixa de apreciar um bem apreciável e ao seu alcance, faz-me mal aos nervos. E' uma espécie de nevrose incompreendida por original e tola, como todas as nevroses! Mas que fazer? A noticia importante que o Eduardo trouxe da tal propriedade em que foi assentar maquinas e 9 6 que me pediu para te comunicar, foi a da verificação de quanto foram aproveitáveis á sua lavoura certos adubos fornecidos pelo Centro de Experiências Agrícolas do Kalisyndikal, estabelecido no Rio de Janeiro. O volume de brochuras de que te falei e que te remeterei em breve pelo correio, continha vários folhetos dessa empreza, folhetos que estou lendo, para poder executar com segurança no meu jardim e na minha horta, alguns dos seus conselhos. Na propaganda desses seus produtos, o Chile tem demonstrado uma capacidade admirável de administração. Imagina que vai um delegado seu propositadamente a qualquer propriedade rural que o solicite, ensinar o modo de misturar á terra as substancias que forem necessárias á sua lavoura! Foi o que aconteceu nessa tal fazenda de Friburgo, onde o Eduardo Jorge pôde observar que um batatal sem adubos produziu 6.66j litros, ou io.ooo kilos de batatas de tamanho mediocre, emquanto que um batatal adubado com superphosphato, sulfato de potássio"* e salitre do Chile, produziu 40.000 litros ou 60.000 kilos de batatas grandes e perfeitas. E' já alguma diferença... O segredo desta adubação cômoda, limpa e profícua, está na sua dosagem. Ela é tão proveitosa quando bem applicada, quanto pôde ser nefasta quando feita com muita prodigalidade ou exagero. Nem de mais, nem de menos é, aliás, o preceito aplicável a todas as coisas que devem ser feitas com inteligência, e inteligência não te falta, minha boa amiga, nem o critério que a apura e cristaliza. Não é justo que um lavrador peça tudo á terra e nada lhe dê; para obter uma farta produção de frutos, de forragens, de flores ou de hortaliças, devemos, como muito melhor do que eu o sabes, fornecer ao solo dos campos, dos pomares ou dos jardins alimentos que lhe dêem pujança para as suas funções criadoras. Perguntarás : se estás convencida de que sei tudo isso, para que m'o dizes? Porque, minha fazendeira, respondo eu, sabes que a terra carece da renovação de certas substancias consumidas nas suas produções anteriores, mas talvez ignores as vantagens que te oferecem estas a que estou aludindo dos adubos chilenos. Pois fica sabendo que, assim como das batatas, Eduardo Jorge citava a beleza dos canaviais adubados, gordos, suculentos, vistosos, em comparação de outros canaviais não adubados, de igual extensão mas muito mais pálidos e mesquinhos, embora plantados nas mesmas épocas. O nosso automóvel percorria a Avenida Central, entrava pela da Beira-Mar, e quem nos 9 8 visse, ele alegre, com o seu panamá mal lhe ensombrando a fronte alta e clara e os olhos de um azul sombrio e doce, eu de ramo de cravos rutilantes nas mãos c toda voltada para u sua palestra animada e moça, pensaria talvez que iamos falando de assuntos literários e poéticos, em que figurassem nomes de deuses pagãos e alvejassem mármores de estatuas athenienses e imortais; e iamos, entretanto, falando de adubos para a engorda das alfaces e dos cafesais! O interesse que o Eduardo Jorge manifesta por certos assuntos de agricultura, é criado no seu espirito pela curiosidade que tem por todas as coisas que se relacionam com as da sua profissão de mecânico e pelas conversas que tem tido commigo, a quem só por estupidez o acaso não fez lavradora... Em mim é que não sei de onde veio esta ternura que sinto pela terra bemfazeja, geradora de tantos benefícios! Adeus, minha querida; com os folhetos publicados pelo Centro das Experiências Agricolatí mandar-te-ei alguns livros de versos, porque a poesia é a arte em que a alma mais se expande e em que, desde o germinar das sementes no fundo do chão até ao tremeluzir das estrelas no céu infinito, toda a natureza palpita e é bela e é compreendida. Para ti um beijo da tua FERNANDA.