Carta XV
CLARINHA. Enganas-te, minha querida, quando, no ultimo tópico da tua carta, supões não me interessarem os cuidados médicos que vocês possam dispensar a quem deles carecer nessas afastadas regiões do Remanso. Ao contrario, estimo que me tenhas proporcionado ensejo para acoroçoar em todas vós a coragem e o sangue frio indispensáveis para o exercício de certos deveres de medico e de enfermeiro, a que se vêem obrigadas as pessoas que vivem em lugar ermo dos recursos da sciencia. Sc houvesse no Brazil, como ha na Inglaterra, por exemplo, hospitais em que moças das melhores familias vão temporariamente servir de enfermeiras, com o intuito, não só de aprenderem como se encana um membro fraturado, como se pensa uma ferida, como se faz voltar á vida um afogado, como se livra das chamas j3 uma criatura, etc, mas também com o fito de fortalecerem a alma e saberem dominar os nervos nas maiores e mais assustadoras crises da sua vida futura, impondo-se uma serenidade absoluta, mesmo em face dos casos mais dolorosos ou mais assustadores, que porventura tenham de observar ou de assistir; se houvesse aqui tais cursos de enfermeiras, eu seria a primeira a pedir á tua mãi que uma após outra, matriculasse neles todas as suas filhas. As damas da Cruz Vermelha, que são as damas da aristocracia da França, da Itália, de todos os paizes cultos da Europa, emfim, sabem pratica e scientificamente tratar de um doente, se tarda a chegada do medico ou cirurgião... Quantas vezes uma mãi de familia se vê atarantada e deixa de acudir aos filhos ou ás pessoas de casa em circumstancias que, com um pouco de animo, ela lhes daria alivio imediato 1 Reage contra os teus desfalecimentos e ajuda a Cecilia, e na falta de Cecilia a qualquer das tuas irmãs, a fazer os curativos nos doentes, até que tenhas adquirido serenidade de animo e possas agir com firmeza quando as necessidades te forçarem a isso. Seria um crime deixar-se um ferido esvair-se cm sangue, só por não ter coragem de lhe acudir a tempo. Não te parece? Sei que tua mãi tem uma farmácia em casa. - \ CORREIO DA IIOÇ* A brazileira é medica por instinto, e é isso que nos vale. O que eu não imaginava c que ela soubesse salgar porcos e fazer salsichas. Abençoadas mãos, que não desdenham ocupação nenhuma! \A bom saber de tudo ; mas no seu caso eu iria instruindo em tal mister uma colonasinha, ou o próprio cozinheiro, mesmo que eu tivesse de administrar o serviço, mas altivamente, de pé, a uma certa distancia. Entendo que uma dona de casa, demais a mais viuva, precisa manter toda a sua autoridade e todo o seu prestigio, observando os serviços dos seus empregados sem se immiscuir em nenhum deles diretamente. Mas nós as brazileiras somos impacientes em tais assuntos e é por isso que nos queixamos de excesso de trabalho doméstico e que envelhecemos tão depressa, banalizadas pela falta de elegância e de expressão intelectual. Para alegrar as margens do açude, mandei despachar hoje, endereçados a ti, seis vimieiros já crecidos e que plantarás á beira da água, no ponto que melhor parecer á tua mãi. Tens razão; no tempo do teu avô as fazendas eram despidas de toda a idéa de conforto e de poesia. O lavrador não amava a sua propriedade, procurando unicamente tirar dela a maior quantidade de dinheiro que lhe fosse possivel. E esse dinheiro, para onde foi ele?! Pomares, ?5 rdins, hortas, bom trato de animais, galinheiis e chiqueiros higiênicos, água encanada para residência, bôa iluminação, — todas essas »isas eram consideradas como supérfluas e isnecessarias... também nesses tempos as landas eram exílios, e é isso que eu não quero íe seja considerado o Remanso, habitado por sssoas de espirito, como vocês. Ficará ainda para outra vez a informação a «peito dos pombos e das galinhas. Aprende a ser paciente, que é a virtude mais :cessaria á mulher. Pretendo visitar primeiro alguns criadores, ira mandar depois para ahi as minhas impresíes. Quanto á questão da luz, tratei de indagar >m os entendidos aqui no Rio qual o melhor ?ocesso para a iluminação de uma fazenda. A iineira casa em que entrei afirmou-me que o elhor sistema entre todos era o das lâmpadas álcool. E muito cortez e serviçal, esse inforante mostrou-me uma variedade realmente )nita de candelabros, lâmpadas suspensas, inpiões de pé, etc. Não contente, entrei em ítra casa, á espera de ver confirmadas as sevcrações da primeira. Pois não foi assim. Jse negociante, igualmente amável e convinnte, desmoralizou a iluminação a álcool, para > apregoar as vantagens do gaz acitileno, para J (i o qual me apresentou igualmente uma grande variedade de lampiões de interior e de exterior, gabando as suas qualidades econômicas, ainda por cima. Já perplexa, fui a uma outra casa. na esperança de ver de que lado estariam a razão e a justiça dessas opiniões. Pois, filha, a terceira casa arrazou com documentos poderosos as preconizadas vantagens do álcool e do acitileno, para só elogiar o petróleo, de que expôz diante dos meus olhos uma grande quantidade de lâmpadas, de todos os tamanhos e feitios. Nesta confusão, decidi esperar o Eduardo Jorge, que anda em viagem de negocio por S. Paulo, a ver se ele, que trouxe da America do Norte tantas noções praticas de conforto, me elucida neste assunto. Entretanto, vejo hoje a noticia de uma conferência, feita ha dias na nossa Academia de Comercio pelo Dr. D. Kalkman, enaltecendo as qualidades do — gaz Benoid — que não é perigoso, não é caro c é de fácil e simples instalação, segundo afirma o conferente. Este assunto não pôde ser resolvido de uma hora para a outra. Dêm-me tempo e o Remanso esplenderá como um farol entre o inar ondeante das verduras que o cercam. Um abraço para todas da FERNANDA.