Carta LIII Correio da Roça · Capítulo 50 de 54
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Carta LIII

JOANNINHA. Acabei de ler em casa da nossa boa D. Fernanda, a minha inteligente e adorável amiga, um conto que lhe mandou sua irmã Cecilia. Por espirito de imitação, mando-lhe eu outro, que destaquei das paginas da uma revista e cujo teor está tão de acordo com as minhas idéas que até o julgaria feito por mim próprio, se acaso o meu espirito desse para tão altas ocupações... Ahi vai a historia, com afetuosas saudações do seu amigo EDUARDO. A NOIVA QUE EU DESEJO Passeávamos a pé pela Avenida Beira-mar, rente á amurada do cais. O sol no oeaso punha reflexos de cobre novo e de oiro vivo nas águas quietas da bahia que o corpo negro c bojudo de um grande transatlântico ia cortando magestosamente. Do nevoeiro crepuscular, emergiam, idcalisados por um tom lilaz suavíssimo, o zimborio do Pavilhão e mais longe dois dedos brancos apontando o céu, na forma de torres de igreja... Na avenida passavam automóveis, sucessivamente, o que obrigava o amigo que me acompanhava a tirar também quasi que sucessivamente o seu chapéu, uma bela cartola luzidia que se dava também ao luxo de ter, como o mar, os seus reflexos. — Mas você conhece todo o mundo! noteilhe ao vel-o cumprimentar mais alguém que passava : uma linda loira ao lado de um velhote de bigodes brancos. 1 9 9 — E' a Edith Mendes. Uma menina encantadora, com quem dansei na Legação em Londres e de quem gosto muito porque ela canta como um anjo e tem espirito como o diabo ! — Solteira ? — Sim ; e de importantíssima família... — Então ? — Então o que, minha bôa amiga ? — Faça-se de ingênuo ! Você não me disse ainda hontem que deseja casar-se, que vê o tempo fugir-lhe e que ainda não fez a sua escolha? — Sim, disse... Mas a Edith está acostumada a muito luxo. Eu quero uma noiva mais simples... — Compreenderia isso se você fosse pobre, mas afinal não o é ! Ele quedou-se algum tempo calado, até ter de tirar de novo o seu chapéu a três senhoras que passavam noutro automóvel. — A condessa de Santo Hilário e as duas filhas, informou-me ele sorrindo. Estas não cantam nem teem espirito, mas são lindas e poderosamente ricas... Nisso uma delas voltou a cabeça para traz e com certeza não foi para olhar para mim. — Você não pode ter receio de se apresentar como candidato a qualquer moça da nossa sociedade ; tem um nome ilustre, bôa reputação, fortuna, elegância e todos esses predicados aOO devem assegurar-lhe o sucesso; não compreendo portanto o seu rctraímento. Olhe, lá vai outra : aquela conheço eu ; é uma rapariguinha bem curiosa... — Também eu a conheço ; também eu a acho enigmática e perigosa. — Perigosa ? — Os seus olhos azuis estão em desacordo com a sua pele morena, e o corte dos seus vestidos parece-me caro demais para as suas posses... Quando lhe aperto a mão, sinto que os seus dedinbos flexíveis têm fibras de aço c ha na sua voz não sei que magia que faz pensar, mesmo quando ela fala de coisas indiferentes, que pensa noutras, de amor ! ' Mas se você gosta de naturalidade, simplicidade, porque não se casa com a Oetavia Nair? — Oetavia Nair! só esse nome já é uma complicação e um horror. — Se o caso é esse crisme-a para Maria! — Não; a razão é outra. — Acha-a feia ? — Também não; acho lhe uma alma dura, sem vibração. Um dia que falávamos sobre animais disse-me que não tem paciência para aturar nenhum. Outro dia em que elogiei as flores do seu jardim respondeu-me que efectivamente tinha ouvido a mamai dizer que o seu jardíneiro atual não era mau ! 3 0 1 E ainda outro dia, cm que cheguei com ela á varanda da sua sala, resolvido a fazer-lhe uma declaração de amor, ouvi-lhe esta barbaridade, felizmente antes de eu ter pronunciado um simples monosilabo : « — Se eu fosse Prefeito, mandaria cortar todas as palmeiras desta rua! » Engoli em seco, senti não sei que aflição, mas tive ainda coragem para lhe perguntar : — Porque ? — Que respondeu ela ? — Que as palmas secas que desabam do alto das arvores danificam os telhados dos prédios, obrigando os proprietários a constantes despezas. Parece que o pai é dono de meia rua do Paysandú! Rimo-nos ; notei entretanto que o riso do meu amigo tinha uma mescla de amargura. Teria ele realmente gostado da Oetavia ? — Imaginará você poder encontrar a perfeição na vida? perguntei-lhe depois. — Eu não quero a perfeição, mas não dispenso certas qualidades morais que dão á mulher da família um atrativo especial, a luz da bondade, que é a que melhor ilumina o interior das casas honestas. A noiva que eu desejo deve amar a natureza e proteger todos os seres fracos e benéficos, quer eles lhe apaa o a CORUiíIO DA ROCA reçam sob a fôrma de um animal, quer sob a de uma simples planta. A noiva que eu desejo deve saber se o sen jardineiro é bom, não por ter ouvido dizer tal á sua mãi, mais por tel-o observado com os seus próprios olhos... A noiva que eu desejo terá uma alma piedosa e deslumbrada por tudo quanto ha do maravilhoso na ercacão. Uma rapariga que almeja que se abatam arvores em que pipilam ninhos, não foi feita para companheira do meu coração. A uma mulher elegante que exponha tal barbaridade, apontando para o alto com as seus afusados dedos de coral, prefiro a menina burgueza cuja mão não tema o contacto da terra, no interesse de enterrar nela a semente de uma arvore que só muitos anos depois poderá dar sombra e flor. Porque entre essas duas almas, a altruísta, a meiga, a amante das plantas grandes e pequenas será a que melhor saiba compreender o meu espirito, perdoar as minhas faltas c corrigir os meus defeitos. A natureza é uma mestra sublime e as mulheres que não gostem de ouvir os seus conselhos não aprenderão nunca o verdadeiro caminho da felicidade, nem saberão ensinal-o aos homens que as rodeiem... A noiva que eu desejo deve ser uma mulher educada, que saiba conversar a meu lado nos salões que frequen2o3 tarmos, sabendo ao mesmo tempo imprimir á minha vida esse doce tom de poesia intima que só a compreensão da natureza sugere ás almas humanas. A noiva que eu desejo, emfim, deve dar á minha existência a graça que dão ás paredes ricas de um castelo ou de uma casa de campo solitária as hastas de uma trepadeira em flor, que marinhando por elas acima se entrelacem pelos duros ferros das varandas e ás duras pedras dos coruchéus, idealisando-as sob uma chuva de pétalas perfumadas. Tinha-se feito a sombra. Por toda a orla do mar apareciam os pontinhos luminosos da iluminação publica. Caminhámos por algum tempo calados e durante esses minutos de silencio senti que o meu amigo tinha falado com sinceridade — e que tinha razão.

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