Carta VII Correio da Roça · Capítulo 7 de 54
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Carta VII

QUERIDA JOANNINHA. (A i hora da tarde.) Eu estava num dos meus dias de velhice, um dos meus dias de saudade, quando recebi a tua carta, e foi como se uma janela se abrisse num quarto escuro, por sobre uma paizagem cheia de sol e de flores. Desvaneceu-me a tua promessa de obediência e temo agora tornar-me abusiva. Quero que, entretanto, compreendam todos ahi bem o meu pensamento, que não é o de vos impor, nem ensinar coisa alguma, porque, ai de mim, que sei eu? mas, só o de vos chamar a atenção para certos assuntos, que me parecem muito dignos dela. Diz um poeta inglez, que já com certeza ouviste nomear — Shakspeare — em uma das suas obras primas, chamada « O mercador de Veneza », estas palavras profundamente verdadeiras : / can easier teach twenty what were good to be 4a done, than be one of the twenty to follow mine own teaching. Espero que não estejas tão esquecida do inglez, que não tivesses entendido o sentido destas palavras : « E'-me mais fácil dizer a vinte pessoas o que seria bom fazer-se, do que ser uma dessas vinte pessoas e fazer o que eu tivesse ensinado. » E' naturalmente o que se dá commigo, tenho porém uma esperança, digo mais : uma certeza instintiva de que a vocês será fácil executarem as minhas teorias. Entretanto acreditem todos ahi que a minha intenção é concorrer para amenizar-lhe a vida, chamando ao mesmo tempo para os campos do meu querido paiz a simpatia de certos espíritos inteligentes e bondosos; nada mais. Porque, afinal de contas, a verdade é esta : vocês não devem abdicar, pela circumstancia de viverem na fazenda, das vantagens que a todos deu a educação literária que receberam, e antes aplical-as no aperfeiçoamento do meio em que vivem, para satisfação alheia e própria, convencidas, como estão, de que o papel da mulher é alegrar, poetizar e elevar o nivel da sociedade em que vive, por meio da sua graça, da sua doçura, do seu bom gosto e dos seus exemplos de atividade e de piedade. E ora pois, minha jardineira, ahi te mando pela mesma ordem por que os recebi do Sr. Schlick, pessoa da maior competência no assunto, os nomes das roseiras que melhor florecem no Rio de Janeiro e que esse considerado floricultor escolheu a meu pedido. Pensarás talvez que, devido á diferença do clima, o critério da escolha deveria ser outro; acredita, entretanto, que as roseiras que tiverem provado bem aqui, melhor ainda florecerão na região do Remanso. Quando o teu roseiral estiver criado, manda de vez em quando pôr de imersão, num deposito de água, um saco cheio de fuligem, e logo que essa água tiver tomado a côr do vinho do Porto, irriga com ela, fartamente, as roseiras, sem receio de que o excesso dágua as prejudique. Não deixes também de aproveitar as cascas do café para adubo dos canteiros, espalhando-as numa camada de quatro ou cinco centímetros, o que enriquecerá as plantas cultivadas e impedirá o nacimento de hervas daninhas, segundo me informa o jardineiro da fazenda S. Valentim, no Estado de S. Paulo, onde esse processo tem dado excelentes resultados. Mas vamos ás nossas roseiras. Não tenhas preguiça de ler a imensa nomenclatura que vou estender diante dos teus olhos, imaginando que tal conhecimento vai fazer parte da tua educação. Cada uma dessas rosas não é tanto um produto da natureza, como o 6Ímbolo de uma obra de arte. Devemos saber os seus nomes, como sabemos os das telas mais afamadas e os das mais afamadas estatuas. Eil-os : Anna de Diesbach, Archimedes, Anna Wood, Aurora Roreal, Baron A. de Rotlischild, Baronne Nath. de Rothschild, Baronne Henriette Snoy, Baron de Meynard, Baron Prévosl, Belle Pannachée, Blanche Laffitte, Boucenne, Camille Bernardin, Captain Christy, Carmen Silva, Carolina Testout, Charles Darwin, Chev. Ângelo Ferrario, Christine Noué, Clotitde Soupert, Comte de Sembuy, Comtesse de Beaumetz, Duchesse Ossuna, Duchesse de Morny, Desir, Mie Beaunvillain, Elisa Casson, Empereur da Maroc, Erzhcrzog, Franz Ferdinand, Etoile de Lion, Eugène Furst, E. V. Hermanos, Francis E. Villard, Francisca Kruger, Fran Karl Drusky, General Jacqueminot, General Washington, Gloire Ducher, Gloire de Margotin, Gloire de VExposilion de Bruxelles, Gloire Lionnaise, G. Nabounand, Grass au Teplitz, Hippolyte Jamin, Homero, Jean Libaud, Jeanne Joubert, John Hopper, Jules Margotin, Júlio F. de Misefa, Zepherine Drouhin, La Reine, Louise Odier; Mm" C. Wood, Henry Berger, Cornelissen, Isaac Pereira, Ernest Calvat, Morbert Lavasseur, Philomene Cochet e Victor Ver- ^5 dier; Magna Charta, Mama Cochet, Marechal Niel, Marechal Torcy, Margaret Dickson, Marie Bauman, Marie d'Orléans, Marie van Houthe, Paul Vabouand, Paul Neyron, Perle de Lyon, Purpura d'Orléans, Presidente Kruger, Pr ide of Regates, Princesse Alice de Mônaco, Reine de Portugal, Reine Marie Henriette, Rêve d'or, Solfatari, Souvenir de Catherine, Souvenir de Guillot, Souvenir de Ia Malmaison, Souvenir de William Wood, Souvenir de Alexandre Hardy, Triumph de Pernet, Ulrich Brunner e William Ricliardson. A estas roseiras juntei a bela Armytage Moore, que adquiri este ano, e que tem dado abundantes e lindas rosas ao meu jardim; M"" La Roche, Imperatriz Eugenia e Mmt Coursin. Pedindo auxilio ora a um, ora a outro dos nossos principais cultivadores de pomares, de campos e de jardins, irei fornecendo ao Remanso noções de coisas que lhe podem ser úteis. Deixemos agora para o fim o explicar o modo por que devemos cultivar as violetas, que te interessam tanto, e conversemos um pouco a respeito da nossa Clara. O que te afianço, é que não foi inveja, como dizes, o que ela sentiu pelo presente que te mandei : foi estimulo, e, por esse belo movimento de alma, felicito-a com seis casais de pombos brancos, que irão tão depressa me 3. avisem de terem já feito para eles um lindo pombal ahi na fazenda. Embora inimiga da adjetivação meramente ornamental, puz aquele « lindo > antecedente ao pombal com todo o propósito, e chamo para ele a atenção de Clarinha. Ela que escolha um local alegre e amplo, onde haja relvas, e eu farei acompanhar as aves com uma longa e minuciosa carta a respeito da sua criação. Os meus ocios permitemme es6a espécie de sport intelectual, com que eu procuro auxiliar-vos a todas. Quanto ao estilo do pombal, não sei dizer, mas não o façam de taboas velhas, pelo amor de Deus ! Chegou a hora de aproveitarem o desenho aprendido no colégio : organizem um concurso e mandem-me os planos, que eu os sujeitarei á opinião de um artista, remetendo depois um bonito prêmio á vencedora. Valeu? E' escusado recomendar que os vários planos deverão vir assinados por pseudônimos, para absoluta isenção de parcialidade... Antes que me esqueça, quero dizer-te que o teu terror pelas galinhas é pueril; entreterme-ei a esse respeito com tua mãi, em qualquer dia de maior pachorra e depois de ter lido alguma coisa sobre a higiene dos campos. Agora vou dar o meu passeio das cinco horas e, de passagem, indagarei do meu floricultor como se cultivam as violetas. fy] (A's onze horas da noite.) Acaba de sair da minha casa um afilhado de tua mãi, de quem ela talvez nem se lembre : Eduardo Jorge, recemchegado dos Estados Unidos, onde estudou a profissão de eletricista. E' um rapaz alegre, robusto, que toca piano de um modo agradável, o que é já dizer muito, gosta de livros e manifesta desejos de ir visitar a madrinha ao Remanso. Quando tiverem noticia da sua visita, mandem afinar o piano. Que vento o trouxe a minha casa? perguntarás. Não foi o vento, fui eu. Falando, como te prometi, com um floricultor na sua loja, pronunciei o nome de tua mãi, para cuja fazenda eu deveria mandar as indicações que lhe pedia, sem reparar num moço que escolhia, perto do balcão, algumas Paul Neyron. Obtidas as informações, que te dou em seguida, esse rapaz pediu-me licença para se dirigir a mim, declarando-se afilhado da pessoa que eu nomeara e desejoso de saber o seu endereço... Em poucos minutos de conversa, percebi ter diante de mim o filho de uma velha amiga de colégio, de quem até hoje guardo lembranças suaves, emoldurando a imagem de uma caturrinha morena, redonda, de olhos verdes e saias curtas... Esta minha amiga foi-o também de tua mãi, e a tal ponto, que mais tarde a conS vidou para madrinha do seu primeiro filho. A vida depois espalhou uns para um lado, outros para outro lado, para depois de tantos anos nos fazer encontrar, de novo, de um modo tão imprevisto. Foi devido a este incidente que as rosas Paul Neyron, compradas pelo Eduardo Jorge e com outro destino, vieram parar á minha sala. Mas vamos ao modo por que se cultivam as violetas : « Plantam-se as violetas em terra leve, metade vegetal e outra natural; mistura-se á terra assim preparada adubo animal, bem curtido e «abundante, conservando-se sempre a terra muito balofa, em local livre de arborização e exposto ao sol da manhã. Convém renovar a plantação por meio dos novos rebentos, tirados da planta primitiva, que fica assim com mais força para a florccencia. O replantio deve sempre fazer-se em terra nova, preparada como acima ficou dito. A plantação deve ser feita nos meses de Janeiro e Fevereiro. Em dias de grande calor, convém regar á tarde, evitando abundância de água, mas conservando sempre fresca a plantação. » São conselhos simples, mas de mestre, não são meus. E o que desejo e espero, é que, conforme o que disseste, o teu violetal espalhe pelas velhas salas do Remanso fulgores de ametistas e a alma da poesia,.que existe sempre nas casas em que ha mulheres boas e educadas. A' pratica da vida material não se perde nada em entrelaçar a haste de um sonho... Saudades a todas. FERNANDA

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