Carta XXVII Correio da Roça · Capítulo 26 de 54
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Carta XXVII

FERNANDA. Já transmiti ao Salustiano, que é o nosso caixoteiro, as informações que me deste na tua ultima carta, acerca do transporte dos ovos. Na próxima remessa verás como me apresso cm seguir os teus conselhos. Sim, senhora, estás uma orientadora de mão cheia; comtudo, ás vezes, confesso-te, as tuas opiniões vêm tão impregnadas de otimismo e de poesia que vacilo em seguil-as, temendo gastar tempo e dinheiro em tentativas de que talvez me possa vir a arrepender mais tarde... Não é tão fácil como te parece, a uma fazendeira pobre romper com os processos da rotina com que até o presente foi mantida a sua propriedade. Que encontrei eu quando herdei o Remanso e vim tomar posse da sua direção ? Cafezais mal nutridos e em parte abandonados pela falta de colonos ; estradas pessimamente construídas e de fácil ruina; casa sem conforto e em cujos moveis procurei em vão o mais insignificante liI l 3 vro de apontamentos que me esclarecesse; animais criados ao acaso da natureza; águas mal distribuídas; pomares devastados pelas pragas; emflm, a incúria mais criminosa que jamais pude imaginar em toda a minha vida! O meu desapontamento foi tão grande, que me deu vontade de fugir. A transformação destas terras e destes hábitos parecia-me tarefa superioras minhas forças; foi então que desabafei comtigo e que a tua palavra clara e amiga respondeu com afirmações ás minhas duvidas, com energia aos meus desfalecimentos... Vista do conforto da tua residência do Rio de Janeiro, onde te rodeias de arte e de alguns amigos que te compreendem, esta velha e tosca fazenda parecia-te poder ser transformada a compasso de valsa, pela varinha de condâo de qualquer fada boa, em um parque monumental, em que os cafezais fossem avenidas; os pastos finos gramados em que pastasse gado nédio com fitas e guizos ao pescoço; o açude assumisse as proporções do lago dos Quatro Cantões; a vida de todo o seu pessoal deslizasse entre cânticos de louvor á natureza e o trabalho alegre e fácil! Na fé miraculosa dos teus ideais empreendeste a salvação da minha vida e começaste a legislar de lá, em cartas sedutoras, as leis por que nos deveríamos rejer no I l 4 Remanso! Ao soluço da nossa saudade pelos gozos da cidade, mandaste-nos plantar batatas e lavrar os campos a arado! Tal resposta rebentou aqui como uma bomba, c todas nós, quando a lemos, nos estreolhámos escandalizadas, supondo-te louca! Chegou mesmo a haver lagrimas. Tive de desculpar-te aos olhos de minhas filhas ofendidas. Para te não maguar, nada te disse então; hoje faço-o com um beijo de gratidão infinita. A razão estava comtigo. Obrigando-me a fazer tudo, supuzeste naturalmente, e muito bem, que eu fizesse pelo menos alguma coisa... Tudo, era demais ; era impossível mesmo, para quem não dispõe de grandes capitais; mas pouco a pouco foi-se organizando bem o que se podia organizar, e nesse empenho a nossa atenção s,e prendeu ao trabalho rural e ao nos o so espirito vieram uma serenidade e uma alegria quasi perfeitas. Aprendi assim que é preciso não desanimar nunca, e tirar partido para o bem, dos próprios máos elementos de que dispomos. Aprendi que o prazer de criar sobrepuja todos os outros que possamos ter no mundo. Quando vejo nas manchas de terrenos que havia abandonados na Tapera e no Remanso, lavouras florecentes de cereais; quando vejo que os velhos processos que eram usados na fazenda desaparecem, I l 5 infelizmente mais devagar do que eu desejaria, para dar lugar aos novos; quando vejo minhas filhas ativas, úteis, estudando os meios de espalharem ao redor de si a instrução, a saúde, a alegria ; quando vejo a pequenada italiana da nossa escola escrever e lêr em portuguez, nacionalizando-se sem esforço, e os pássaros acudirem aos jardins floridos que nos rodeiam a casa, eu sinto que não vim ao mundo para um fim inútil, pois que ao mundo a minha atividade, o meu esforço e o meu carinho fazem algum beneficio. Já uma vez me escreveste que «a lavradora mais do que outra qualquer mulher pôde exercer no Brazil uma influencia benéfica sobre todos e tudo que a rodeiam *. Tinhas razão; porque na nossa vida do campo ha tudo por criar. A mulher do fazendeiro, as filhas dos fazendeiros têm uma missão elevada a cumprir, a missão de tornar a vida, sua e dos seus, bela e superior. Devo-te a compreensão destas coisas sublimes. Continua a iluminar-me, embora permitindo que de vez em quando eu te considere mais utopista do que pratica... Mas isso que te importa, se euprocuro de algum modo, afinal, estabelecer as regras que impões? Quando leio as tuas cartas, acho certos conceitos delas inexequiveis, e por fim lá vem um dia em que, sem saber como, eu me encontro a realizal-os! I l 6 Como te disse, foi debalde que procurei por todas as prateleiras e gavetões dos velhos trastes desta casa velha, um caderno ao menos que me orientasse sobre as despezas e as necessidades do Remanso. De livros só achei um exemplar engordurado da Nova doceira brazileira, dentro de um armário da despensa. Está claro que eu não esperava encontrar Os Lusíadas, mas um memorial ou registro diário que me pudesse servir de guia e de comparação nos gastos atuaes. E' inqualificável esta repugnância quasi geral do lavrador pela escrituração de lucros e despezas da sua propriedade ! Vem dahi talvez em grande parte a decadência de muitos deles. O tempo em que se escreve é tempo em que se reflete. Estou capacitada de que não ha melhor mestre de economias e despezas acertadas do que um livro de anotações. Os antigos moradores do Remanso, entre os quais havia gente moça, como sabes, não entendiam assim. Consideravam com certeza a escrituração da fazenda como uma maçada e uma inutilidade. Os cafeeiros não dariam, por isso, nem mais nem melhor café, e o tempo que se passasse alinhando cifras, seria mais docemente empregado noutros misteres. Hoje ha já muitos fazendeiros capacitados da necessidade de uma escrita perfeitamente organizada e mantida; mas I I ? a maior parte, acredita-me, conserva-se alheia a essa preocupação. Eu, com a minha vida de senhora a quem o marido nunca falou em tais assuntos, vejo-me um tanto atrapalhada, quando penso em organizar uma escrita perfeita da minha propriedade. Não sei como isso se faz. Parece-me cedo para interrogar a esse respeito o meu futuro genro, preferindo mesmo não lhe dever tal favor, para que a independência seja maior entre nós dois. Que me dirás no assunto ? Poderá o meu afilhado Eduardo Jorge, esse ingrato que se obstina em não nos vir visitar, elucidar-me nesta questão? O caso é urgente, como bem podes imaginar. Supõe, ao organizar com ele o meu memorial — se te quizeres dar a esse trabalho, que eu sou de uma estupidez de toupeira; mas de toupeira morta, absolutamente incapaz do menor esforço intelectual, desde que nele tenham de figurar algarismos ! E preciso que venha tudo absolutamente nítido e bem explicado. O meu trabalho será apenas o de pôr os pingos nos «... Será mais um serviço que eu te fique devendo, minha querida Fernanda ; mas, ao contrario do que sucede com os outros, eu me sinto feliz em te dever favores!... Tua MARIA.

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