O livro e a América Espumas Flutuantes · Capítulo 5 de 48
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O livro e a América

AO GREMIO LITTERARIO

Talhado para as grandezas,

P′ra crescer, crear, subir,

O Novo Mundo nos musculos

Sente a seiva do porvir.

— Estatuario de colossos —

Cansado d′outros esboços

Disse um dia Jehovah:

«Vai, Colombo, abre a cortina

«Da minha eterna officina...

«Tira a America de lá.»

Molhado inda do diluvio,

Qual Tritão descommunal,

O continente desperta

No concerto universal.

Dos oceanos em tropa

Um — traz-lhe as artes da Europa,

Outro — as bagas de Ceylão...

E os Andes petrificados,

Como braços levantados,

Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:

«Tudo marcha!... Ó grande Deus!

«As cataractas — p′ra terra,

«As estrellas — para os céos.

«Lá, do polo sobre as plagas,

«O seu rebanho de vagas

«Vai o mar apascentar...

«Eu quero marchar com os ventos,

«Com os mundos... co′os firmamentos!!!»

E Deus responde — «Marchar!»

«Marchar!... Mas como?... Da Grecia

«Nos doricos Parthenons

«A mil deuses levantando

«Mil marmoreos Pantheons?..

«Marchar co′a espada de Roma

«— Leôa de ruiva coma

«De presa enorme no chão,

«Saciando o odio profundo...

«— Com as garras nas mãos do mundo,

«— Com os dentes no coração?..

«Marchar!.. Mas como a Allemanha

«Na tyrannia feudal,

«Levantando uma montanha

«Em cada uma cathedral?..

«Não!.. Nem templos feitos de ossos,

«Nem gladios a cavar fossos

«São degráos do progredir...

«Lá brada Cesar morrendo:

«No pugilato tremendo

«Quem sempre vence é o porvir!»

Filhos do sec′lo das luzes!

Filhos da

Grande Nação

!

Quando ante Deus vos mostrardes,

Tereis um livro na mão:

O livro — esse audaz guerreiro

Que conquista o mundo inteiro

Sem nunca ter Waterloo...

Eolo de pensamentos,

Que abrira a gruta dos ventos

Donde a Egualdade voou!

Por uma fatalidade,

Dessas que descem de além,

O sec′lo que viu Colombo,

Vio Guttenberg tambem.

Quando no tosco estaleiro

Da Allemanha o velho obreiro

A ave da imprensa gerou...

O Genovez salta os mares

Busca um ninho entre os palmares

E a

patria da imprensa

achou.

Por isso na impaciencia

Desta sêde de saber,

Como as aves do deserto —

As almas buscam beber...

Oh! Bemdito o que semêa

Livros... livros á mão cheia...

E manda o povo pensar!

O livro cahindo n′alma

É germen — que faz a palma,

É chuva — que faz o mar.

Vós, que o templo das ideas

Largo — abris ás multidões,

P′ra o baptismo luminoso

Das grandes revoluções,

Agora que o trem de ferro

Acorda o tigre no cerro

E espanta os caboc′los nús,

Fazei desse «rei dos ventos

— Ginete dos pensamentos,

— Arauto da grande luz!...

Bravo! a quem salva o futuro,

Fecundando a multidão!...

N′um poema amortalhada

Nunca morre uma nação.

Como

Goëthe

moribundo

Brada «Luz!» o Novo Mundo

N′um brado de Briareu..,

Luz! pois, no valle e na serra...

Que, se a luz rola na terra,

Deus colhe genios no céo!...

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