O vôo do gênio Espumas Flutuantes · Capítulo 17 de 48
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O vôo do gênio

A′ ACTRIZ

EUGENIA CAMARA

Um dia, em que na terra a sós vagava

Pela estrada sombria da existencia,

Sem rosas — nos vergeis da adolescencia,

Sem luz d′estrella — pelo céo d′amor;

Senti as azas de um archanjo errante

Roçar-me brandamente pela fronte,

Como o cysne, que adeja sobre a fonte,

A′s vezes toca a solitaria flor.

E disse então: — Quem és, pallido archanjo!

Tu, que o poeta vens erguer do pégo?

Eras acaso tu, que

Milton

cego

Ouvia em sua noite erma de sol?

Quem és tu? Quem és tu? — « Eu sou o genio.

Disse-me o anjo; vem seguir-me o passo,

Quero comtigo me arrojar no espaço,

Onde tenho por c′roas o arrebol.»

— Onde me levas, pois?... — «Longe te levo

Ao paiz do ideal, terra das flores,

Onde a briza do céo tem mais amores

E a fantasia — lagos mais azues...»

E fui... e fui... ergui-me no infinito,

Lá onde o vôo d′aguia não se eleva...

Abaixo — via a terra — abysmo em tréva!

Acima — o firmamento — abysmo em luz!

— Archanjo! archanjo! que ridente sonho!

— «Não, poeta, é o vedado paraizo,

Onde os lyrios mimosos do sorriso

Eu abro em todo o seio que chorou,

Onde a loura comedia canta alegre,

Onde eu tenho o condão de um genio infindo,

Que a sombra de

Molière

vem sorrindo

Beijar na fronte, que o Senhor beijou...»

— Onde me levas mais, anjo divino?

— «Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas

O canto das espheras namoradas,

Quando eu encho de amor o azul do céo.

Quero levar-te das paixões nos mares,

Quero levar-te a dedalos profundos,

Onde refervem sóes... e céos... e mundos...

Mais sóes... mais mundos, e onde tudo é meu...»

— Mulher! mulher! Aqui tudo é volupia:

A briza morna, a sombra do arvoredo,

A lympha clara, que murmura a medo,

A luz que abraça a flor e o céo ao mar.

Ó princeza, a razão já se me perde

,

És a sereia da encantada Scylla,

Anjo, que transformaste-te em Dahia,

Samsão de novo te quizera amar!

Porém não páras neste vôo errante!

A que outros mundos elevar-me tentas?

Já não sinto o soprar de auras sedentas,

Nem bebo a taça de um fogoso amor.

Sinto que rolo em barathros profundos...

Já não tens azas, aguia da Thessalia,

Maldição sobre ti!... Tu és Omphalia,

Ninguem te ergue das trévas e do horror.

Porém silencio! No maldicto abysmo,

Onde cahi comtigo, criminosa,

Canta uma voz, sentida e maviosa,

Que arrependida sobe a Jehovah!

Perdão, perdão, Senhor! p′ra quem soluça,

Talvez seja algum anjo peregrino...

Mas não! inda eras tu, genio divino,

Também sabes chorar, como Eloah!

Não mais, ó seraphim! suspende as azas!

Que atravez das estrellas arrastado

Meu ser arqueja louco, deslumbrado,

Sobre as constellações e os céos azues.

Archanjo! Archanjo! basta... Já comtigo

Mergulhei das paixões nas vagas cerulas...

Mas nos meus dedos — já não cabem — perolas —

Mas na minh′alma — já não cabe — luz!...

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