Dalila Espumas Flutuantes · Capítulo 37 de 48
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Dalila

Fair defect of nature.

MILTON

(

Paraíso Perdido

)

Foi Desgraça meu Deus!... Não!... Foi loucura

Pedir seiba de vida-à sepultura,

Em gelo — me abrasar,

Pedir amores — a Marco sem brio,

E a rebolcar-me em leito imundo e frio

— A ventura buscar.

Errado viajor — sentei-me à alfombra

E adormeci da mancenilha à sombra

Em berço de cetim...

Embalava-me a brisa no meu leito...

Tinha o veneno a lacerar-me o peito

— A morte dentro em mim...

Foi loucura!... No ocaso — tomba o astro;

A estátua branca e pura de alabastro

— Se mancha em lodo vil...

Quem rouba a estrela-à tumba do ocidente?

Que Jordão lava na lustral corrente

O marmóreo perfil?...

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta

Ela passou sozinha, macilenta,

Tremendo a soluçar...

Chorava — nenhum eco respondia...

Sorria-a tempestade além bramia...

E ela sempre a marchar.

E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma.

Tens os pés a sangrar?-podes em calma

Dormir no peito meu.

Pomba errante-é meu peito um ninho vago!

Estrela— tens minha alma-imenso lago—

Reflete o rosto teu! ...

E amamos — Este amor foi um delírio...

Foi ela minha crença, foi meu lírio,

Minha estrela sem véu...

Seu nome era o meu canto de poesia,

Que com o sol — pena de ouro — eu escrevia

Nas laminas do céu.

Em seu seio escondi-me... como à noite

Incauto colibri, temendo o açoite

Das iras do tufão,

A cabecinha esconde sob as asas,

Faz seu leito gentil por entre as gazas

Da rosa do Japão.

E depois... embalei-a com meus cantos

Seu passado esqueci... lavei com prantos

Seu lodo e maldição...

...Mas um dia acordei... E mal desperto

Olhei em torno a mim... — Tudo deserto...

Deserto o coração...

Ao vento, que gemia pelas franças

Por ela perguntei... de suas tranças

À flor que ela deixou...

Debalde... Seu lugar era vazio...

E meu lábio queimado e o peito frio,

Foi ela que o queimou...

Minha alma nodoou no ósculo imundo,

Bem como Satanás — beijando o mundo —

Manchou a criação,

Simum — crestou-me da esperança as flores...

Tormenta — ela afogou nos seus negrores

A luz da inspiração...

Vai, Dalila!... É bem longa

tua estrada...

É suave a descida-terminada

Em báratro cruel.

Tua vida-é um banho de ambrósia...

Mais tarde a morte e a lâmpada

sombria

Pendente do bordel.

Hoje flores... A música soando...

As perlas do Champagne gotejando

Em taças de cristal.

A volúpia a escaldar na lonca insônia...

Mas sufoca os festins de Babilônia

A legenda fatal.

Tens o seio de fogo e a alma fria.

O cetro empunhas lúbrico da orgia

Em que reinas tu só!...

Mas que finda o ranger de uma mortalha,

A enxada do coveiro que trabalha

A revolver o pó.

Não te maldigo, não!... Em vasto campo

Julguei-te — estrela, — e eras — pirilampo

Em meio à cerração...

Prometeu — quis dar luz à fria argila...

Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,

A luz da redenção!!...

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