Pedro Ivo Espumas Flutuantes · Capítulo 22 de 48
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Pedro Ivo

Sonhava nesta geração bastarda

,

Glorias e liberdade!...

.......................................

Era um leão sangrento que rugia,

Da gloria nos clarins se embriagava,

E vossa gente pallida recuava,

Quando ele apparecia.

(

Alvares de Azevedo

)

I

Rebramam os ventos... Da negra tormenta

Nos montes de nuvens galopa o corsel...

Relincha... troveja... galgando no espaço

Mil raios desperta co′as patas revel.

É noite de horrores... nas grunas celestes,

Nas naves ethereas o vento gemeu...

E os astros fugiram, qual bando de garças

Das aguas revoltas do lago do céo.

E a terra é medonha... As arvores núas

Espectros semelham fincados de pé,

Com os braços de mumias, que os ventos retorcem,

Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.

Desperta o infinito... Co′a boca entreaberta

Respira a borrasca do largo pulmão.

Ao longe o oceano sacode as espaduas

— Encélado novo calcado no chão.

É noite de horrores... Por invio caminho

Um vulto sombrio sósinho passou,

Co′a noite no peito, co′a noite no busto

Subiu pelo monte... nas cimas parou.

Cabellos esparsos ao sopro dos ventos,

Olhar desvairado, sinistro, fatal.

Dirieis estatua roçando nas nuvens,

P′ra qual a montanha se fez pedestal.

Rugia a procella — nem elle escutava!...

Mil raios choviam — nem elle os fitou!

Com a dextra apontando bem longe a cidade.

Após largo tempo sombrio fallou!

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II

Dorme, cidade maldicta,

Teu somno de escravidão!...

Dorme, vestal da pureza,

Sobre os cochins do

Sultão

!...

Dorme, filha da Georgia.

Prostituta em negra orgia,

Sê hoje

Lucrecia Borgia

Da deshonra no balcão!...

Dormir?!... Não! Que a infame grita

Lá se alevanta fatal...

Corre o champagne e a deshonra

Na orgia descommunal...

Na fronte já tens um laço...

Cadêas de ouro no braço,

De perolas um baraço,

— Adornos da satural!

Louca!... Nem sabe que as luzes,

Que accendeu p′ra as saturnaes,

São do enterro de seus brios

Tristes cirios funeraes...

Que o seu grito de alegria

É o estertor da agonia,

A que responde a ironia.

Do riso de Satanaz!...

Morreste... E ao teu sahimento

Dobra a procella no céo,

E os astros — olhar dos mortos —

A mão da noite escondeu.

Vê!... Do raio mostra a lampa

Mão de espectro, que destampa

Com dedos de ossos a campa,

Onde a gloria adormeceu.

E erguem-se as lapidas frias,

Saltam bradando os heróes:

«Quem ousa da eternidade

Roubar-nos o somno a nós?»

Responde o espectro; — A desgraça!

Que a realeza que passa,

Com o sangue de vossa raça,

Cospe lodo sobre vós!...»

Fugi, fantasmas augustos!

Caveiras que coram mais

Do que essas faces vermelhas

Dos infames pariás!...

Fugi do solo maldicto!...

Embuçai-vos no infinito!...

E eu por detrás do granito

Dos montes occidentaes.

Eu tambem fujo... Eu... fugindo!...

Mentira desses vilões!

Não foge a nuvem trevosa

Quando em azas de tufões

Sobe dos céos á esplanada,

Para tomar emprestada

De raios uma outra espada,

A luz das constellações...

Como o tigre na caverna

Afia as garras no chão,

Como em Elba amola a espada

Nas pedras — Napoleão,

Tal eu — vaga encapellada,

Recúo de uma passada,

P′ra levar de derribada

Rochedos, reis, multidão...!

III

«Pernambuco! Um dia eu vi-te

Dormido immenso ao luar,

Com os olhos quasi cerrados,

Com os labios — quasi a fallar...

Do braço o clarim suspenso,

— O punho no sabre extenso

De pedra —

recife

immenso.

Que rasga o peito do mar...

E eu disse: — Silencio, ventos!

Cala a boca, furacão!

No sonho daquelle somno

Perpassa a Revolução!

Este olhar que não se move

Stá fito em — Oitenta e Nove

Homero

— escuta Jove...

Robespierre — Dantão.

Naquelle craneo entra em ondas

O verbo de Mirabeau...

Pernambuco sonha a escada,

Que tambem sonhou Jacob;

Scisma a Republica alçada,

E pega os copos da espada,

Emquanto em su′alma brada:

«Somos irmãos, Vergniaud!»

Então repeti ao povo:

— Desperta do somno teu!

Samsão! derroca as columnas!

Quebra os ferros, Prometheu!

Vesuvio curvo — não pares,

Ignea coma solta aos ares,

Em lavas inunda os mares,

Mergulha o gladio no céo.

Republica!... Vòo ousado

Do homem feito condor!

Raio de aurora inda occulta.

Que beija a fronte ao Thabor

Deus! Porqu′emquanto que o monte

Bebe a luz desse horizonte,

Deixas vagar tanta fronte,

No valle envolto em negror?!...

Inda me lembro... Era ha pouco

A lucta!... horror!... confusão!...

A morte vôa rugindo

Da garganta do canhão!...

O bravo a fileira cerra!...

Em sangue ensopa-se a terra!...

E o fumo — o corvo da guerra —

Com as azas cobre a amplidão...

Cheguei!... Como nuvens tontas,

Ao bater no monte... além,

Topam, rasgam-se, recuam...

Taes a meus pés vi tambem

Hostes mil na lucta ingloria...

Da pyramide da gloria

São degráos... Marcha a victoria,

Porque este braço a sustem.

Foi uma lucta de bravos,

Como a lucta do jaguar,

De sangue enrubesce a terra,

De fogo enrubesce o ar!...

Oh!... mas quem faz que eu não vença?

— O acaso... — avalanche immensa.

Da mão do Eterno suspensa,

Que a idéa esmaga ao tombar!...

Não importa! A liberdade

É como a hydra, o Antheu.

Se no chão rola sem forças,

Mais forte do chão se ergueu...

São os seus ossos sangrentos

Gladios terriveis, sedentos...

E da cinza solta aos ventos

Mais um Graccho appareceu!...

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Dorme, cidade maldicta,

Teu somno de escravidão!

Porém no vasto sacrario

Do templo do coração,

Atêa o lume das lampas,

Talvez que um dia dos pampas

Eu, surgindo, quebre as campas,

Onde te colam no chão.

Adeus! Vou por ti, maldicto,

Vagar nos ermos paúes.

Tu ficas morta, na sombra,

Sem vida, sem fé, sem luz!...

Mas quando o povo acordado

Te erguer do tredo vallado,

Virá livre, grande, ousado,

De pranto banhar-me a cruz!...

IV

Assim fallara o vulto errante e negro,

Como a estatua sombria do revez.

Uiva o tufão nas dobras de seu manto,

Como um cão do senhor ulula aos pés...

Inda um momento esteve solitario

Da tempestade semelhante ao deus,

Trocando phrases com os trovões no espaço,

Raios com os astros nos sombrios céos...

Depois sumiu-se dentre as brumas densas

Da negra noite — de su′alma irmã...

E longe... longe... no horizonte immenso

Resonava a cidade cortezã!...

Vai!... Do sertão esperam-te as Thermopylas;

A liberdade inda pulula ali...

Lá não vão vermes perseguir as aguias,

Não vão escravos perseguir a ti!

Vai!... Que o teu manto de mil balas roto

É uma bandeira que não tem rival.

— Desse suor é que Deus faz os astros.

Tens uma espada, que não foi punhal.

Vai, tu que vestes do bandido as roupas

Mas nâo te cobres de uma vil libré.

Se te renega teu paiz ingrato,

O mundo, a gloria tua pátria é!...

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V

E foi-se... E inda hoje nas horas errantes,

Que os cedros farfalham, que ruge o tufão,

E os labios da noite murmuram nas selvas

E a onça vaguêa no vasto sertão.

Se passa o tropeiro nas ermas devezas,

Caminha medroso, figura-lhe ouvir

O infrene galope d′

Espectro soberbo

.

Com um grito de gloria na boca a rugir.

Que importa se o tum′lo ninguem lhe conhece?

Nem tem epitaphio, nem leito, nem cruz!...

Seu tumulo é o peito do vasto universo,

Do espaço — por cupola — as conchas azues!...

Mas contam que um dia rolara o oceano

Seu corpo na praia, que a vida lhe deu...

Emquanto que a gloria rolava sua alma

Nas margens da historia, na arêa do céo!...

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