Jesuítas Espumas Flutuantes · Capítulo 25 de 48
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Jesuítas

Ó mes frères, je viens vous apporter mon Dieu,

Je viens vous apporter ma tête!

V. HUGO

(

Chatiments

)

Quando o vento da Fé soprava Europa,

Como o tufão, que impele ao ar a tropa

Das águias, que pousavam no alcantil;

Do zimbório de Roma — a ventania

O bando dos Apóst'los sacudia

Aos cerros do Brasil.

Tempos idos! Extintos luzimentos!

O pó da catequese aos quatro ventos

Revoava nos céus...

Floria após na Índia, ou na Tartária,

No Mississipi, no Peru, na Arábia

Uma palmeira — Deus!

O navio maltês, do Lácio a vela,

A lusa nau, as quinas de Castela,

Do Holandês a galé

Levava sem saber ao mundo inteiro

Os vândalos sublimes do cordeiro,

Os átilas da fé.

Onde ia aquela nau? — Ao Oriente.

A outra? — Ao polo. A outra? — Ao ocidente.

Outra? — Ao norte. Outra? — Ao sul.

E o que buscava? A foca além no polo;

O âmbar, o cravo no indiano solo

Mulheres em 'Stambul.

Ouro — na Austrália; pedras — em Misora!...

"Mentira!" respondia em voz canora

O filho de Jesus...

"Pescadores!... nós vamos no mar fundo

Pescar almas p'ra o Cristo em todo mundo,

Com um anzol — a cruz!"

Homens de ferro! Mal na vaga fria

Colombo ou Gama um trilho descobria

Do mar nos escarcéus,

Um padre atravessava os equadores,

Dizendo: "Gênios!... sois os batedores

Da matilha de Deus."

Depois as solidões surpresas viam

Esses homens inermes, que surgiam

Pela primeira vez.

E a onça recuando s'esgueirava

Julgando o crucifixo... alguma clava

Invencível talvez!

O martírio, o deserto, o cardo, o espinho,

A pedra, a serpe do sertão maninho,

A fome, o frio, a dor;

Os insetos, os rios, as lianas,

Chuvas, miasmas, setas e savanas,

Horror e mais horror...

Nada turbava aquelas frontes calmas,

Nada curvava aquelas grandes almas

Voltadas p'ra amplidão...

No entanto eles só tinham na jornada

Por couraça — a sotaina esfarrapada...

E uma cruz — por bordão.

Um dia a taba do Tupi selvagem

Tocava alarma... embaixo da folhagem

Rangera estranho pé...

O caboclo da rede ao chão saltava,

A seta ervada o arco recurvava...

Estrugia o boré.

E o tacape brandindo, a tribo fera

De um tigre ou de um jaguar ficava à espera

Com gesto ameaçador...

Surgia então no meio do terreiro

O padre calmo, santo, sobranceiro,

O Piaga do amor.

Quantas vezes então sobre a fogueira,

Aos estalos sombrios da madeira,

Entre o fumo e a luz...

A voz do mártir murmurava ungida:

"Irmãos! Eu vim trazer-vos — minha vida...

Vim trazer-vos — Jesus!"

Grandes homens! Apóstolos heroicos!...

Eles diziam mais do que os estoicos:

"Dor — tu és um prazer!

"Grelha — és um leito! Brasa — és uma gema!

Cravo — és um cetro! Chama — um diadema

Ó morte — és o viver!"

Outras vezes no eterno itinerário

O sol, que vira um dia no Calvário

Do Cristo a santa cruz,

Enfiava de vir achar nos Andes

A mesma cruz, abrindo os braços grandes

Aos índios rubros, nus.

Eram eles que o verbo do Messias

Pregavam desde o vale às serranias,

Do polo ao Equador...

E o Niagara ia contar aos mares...

E o Chimborazo arremessava aos ares

O nome do Senhor!...

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