Poesia e mendicidade Espumas Flutuantes · Capítulo 26 de 48
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Poesia e mendicidade

No álbum da Exmª Srª D. Maria Justina Proença Pereira Peixoto

I

Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,

Pálida, aventureira, errante a viajar,

Batendo em duas portas — ao grito das procelas —

Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar!

Visão-de áureos lauréis-porém de manto esquálido,

Mulher-de lábio pálido-e olhar-cheio de luz.

Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...

E os astros lhe resvalam-à flor dos ombros nus...

II

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa

Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.

Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,

De um marco poeirento um velho então se ergueu.

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...

Porém o que tateia aquela augusta mão?...

Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...

Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!

III

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos

Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai!

Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro...

O lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrei!

Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura

Servem de compostura à sala vasta e chã.

A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia

A mão suave, esguia — à loura castelã.

Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta

Pega da lira... canta... uma canção de amor...

Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa

Alonga pela ogiva um raio de languor!

Dos ramos do carvalho a brisa se debruça...

Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?)

Súbito a nota extrema anseia, treme, rola...

Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!...

Assim nos tempos idos a musa canta e pede...

Gênio e mendigo... vede... o abismo de irrisões!

Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante...

Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.

IV

Bem sei, Senhora, que ao talento agora

Surgiu a aurora de uma luz amena.

Hoje há salário p'ra qualquer trabalho

Cinzel, ou malho, ferramenta ou penal

Melhor que o Rei sabe pagar o pobre

Melhor que o nobre —protetor verdugo—

Foi surdo um trono... à maior glória vossa.

Abre-se a choça aos Miseráveis de Hugo.

Porém não sei se é por costume antigo,

Que inda é mendigo do cantor o gênio.

Mudem-se os panos do cenário a esmo

O vulto é o mesmo... num melhor proscênio...

V

Hoje o Poeta — caminheiro errante,

Que tem saudade de um país melhor

Pede uma pérola — à maré montante,

Do seio às vagas-pede-um outro amor.

Alma sedenta de ideal na terra

Busca apagar aquela sede atroz!

Pede a harmonia divinal, que encerra

Do ninho o chilro... da tormenta a voz!

E o rir da folha, o sussurrar da fala,

Trenos da estrela no amoroso estio.

Voz que dos poros o Universo exala

Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!

Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo,

Ao fraco, ao forte... preces, gritos, uivos...

Pede das águias o possante arrojo,

Para encontrar os meteoros ruivos.

Pede à mulher que seja boa e linda

Vestal de um tipo que o ideal revela...

Pois ser formosa é ser melhor ainda...

Se és boa-és luz... mas se és formosa-estrela...

E pede à sombra p'ra aljofrar de orvalhos

A fronte azul da solidão noturna.

E pede às auras p'ra afagar os galhos

E pede ao lírio p'ra enfeitar a fuma.

Pede ao olhar a maciez suave

Que tem o arminho e o edredom macio,

O aveludado da penugem d'ave,

Que afaga as plumas no palmar sombrio.

E quando encontra sobre a terra ingrata

Um reverbero do clarão celeste,

— Alma formada de uma essência grata,

Que a lua — doura, e que um perfume veste;

Um rir, que nasce como o broto em maio;

Mostrando seivas de bondade infinda,

Fronte que guarda— a claridade e o raio,

— Virtude e graça — o ser bondosa e linda...

Então, Senhora, sob tanto encanto

Pede o Poeta (que não tem renome)

— Versos - à brisa p'ra vos dar um canto...

Raios ao sol — p'ra vos traçar o nome!...

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