Os perfumes Espumas Flutuantes · Capítulo 43 de 48
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Os perfumes

A. L.

O sândalo é o perfume das mulheres de Estambul, e das huris do profeta; como as borboletas, que se alimentam do mel, a

mulher do Oriente vive com as gatas dessa essência divina.

J DE ALENCAR

O perfume o invólucro invisível,

Que encerra as formas da mulher bonita.

Bem como a salamandra em chamas vive,

Entre perfumes a sultana habita

Escrínio aveludado onde se guarda

— Colar de pedras — a beleza esquiva,

Espécie de crisálida, onde mora

A borboleta dos salões — a Diva.

Alma das flores— quando as flores morrem,

Os perfumes emigram para as belas,

Trocam lábios de virgens-por boninas,

Trocam lírios — por seios de donzelas!

E ali — silfos travessos, traiçoeiros

Voam cantando em lânguido compasso

Ocultos nesses cálices macios

Das covinhas de um rosto ou dum regaço

Vós, que não entendeis a lenda oculta,

A linguagem mimosa dos aromas,

De Madalena a urna olhais apenas

Como um primor de orientais redomas;

E não vedes que ali na mirra e nardo

Vai toda a crença da Judia loura...

E que o óleo, que lava os pés do Crista,

É uma reza também da pecadora.

Por mim eu sei que há confidências ternas,

Um poema saudoso, angustiado

Se uma rosa de há muito emurchecida

Rola acaso de um livro abandonado.

O espírito talvez dos tempos idos

Desperta ali como invisível nume...

E o poeta murmura suspirando:

"Bem me lembro... era este o seu perfume!"

E que segredo não revela acaso

De uma mulher a predileta essência?

Ora o cheiro é lascivo e provocante!

Ora casto, infantil, como a inocência!

Ora propala os sensuais anseios

D'alcova de Ninon ou Margarida,

Ora o mistério divinal do leito,

Onde sonha Cecília adormecida.

Aqui, na magnólia de Celuta

Lambe a solta madeixa, que se estira.

Unge o bronze do dorso da cabocla,

E o mármore do corpo da Hetaíra.

É que o perfume denuncia o espírito

Que sob as formas feminis palpita...

Pois como a salamandra em chamas vive,

Entre perfumes a mulher habita.

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