É tarde Espumas Flutuantes · Capítulo 45 de 48
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É tarde

Olha-me, ó virgem, a fronte!

Olha-me os olhos sem luz!

A palidez do infortúnio

Por minhas faces transluz:

Olha, ó virgem — não te iludas

— Eu só tenho a lira e a cruz.

JUNQUEIRA FREIRE

Tarde! É muito tarde!

MONT ALVERNE

É tarde! É muito tarde! O templo é negro…

O fogo-santo já no altar não arde.

Vestal! não venhas tropeçar nas piras...

É tarde! É muito tarde!

Treda noite! E minh'alma era o sacrário,

A lâmpada do amor velava entanto,

Virgem flor enfeitava a borda virgem

Do vaso sacrossanto.

Quando Ela veio — a negra feiticeira —

A libertina, lúgubre bacante,

Lascivo olhar, a trança desgrenhada,

A roupa gotejante.

Foi minha crença-o vinho dessa orgia,

Foi minha vida— a chama que apagou-se,

Foi minha mocidade —o toro lúbrico,

Minh'alma — o tredo alcouce.

E tu, visão do céu! Vens tateando

O abismo onde uma luz sequer não arde?

Ai! não vos resvalar no chão lodoso...

E tarde! E muito tarde!

Ai! não queiras os restos do banquete!

Não queiras esse leito conspurcado!

Sabes? meu beijo te manchara os lábios

Num beijo profanado.

A flor do lírio de celeste alvura

Quer da lucíola o pudico afago...

O cisne branco no arrufar das plumas

Quer o aljôfar do lago.

É tarde! A rola meiga do deserto

Faz o ninho na moita perfumada...

Rola de amor! não vás ferir as asas

Na ruína gretada.

Como o templo, que o crime encheu de espanto,

Êrmo e fechado ao fustigar do norte,

Nas ruínas desta alma a raiva geme...

E cresce o cardo — a morte

Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite!

Vós povoais-me a solidão sombria,

Quando nas trevas a tormenta ulula

Um uivo de agonia!...

E tarde! Estrela-d'alva! o lago é turvo.

Dançam fogos no pântano sombrio.

Pede a Deus que dos céus as cataratas

Façam do brejo — um rio!

Mas não...! Somente as vagas do sepulcro

Hão de apagar o fogo que em mim arde...

Perdoa-me, Senhora!... Eu sei que morro...

E tarde! E muito tarde!...

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