Coup d′etrier Espumas Flutuantes · Capítulo 47 de 48
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Coup d′etrier

É preciso partir! Já na calçada

Retinem. as esporas do arrieiro;

Da mula a ferradura tacheada

Impaciente chama o cavaleiro;

A espaços ensaiando uma toada

Sincha as bestas o lépido tropeiro...

Soa a celeuma alegre da partida,

O pajem firma o loro e empunha a brida.

Já do largo deserto o sopro quente

Mergulha perfumado em meus cabelos.

Ouço das selvas a canção cadente

Segredando-me incógnitos anelos.

A voz dos servos pitoresca, ardente

Fala de amores férvidos, singelos...

Adeus! Na folha rota de meu fado

Traço ainda um — adeus — ao meu

Um adeus! E depois morra no olvido

Minha história de luto e de martírio,

As horas que eu vaguei louco, perdido

Das cidades no tétrico delírio;

Onde em pântano turvo, apodrecido

D'íntimas flores não rebenta um lírio...

E no drama das noites do prostíbulo

É mártir — alma... a saturnal — patíbulo!

Onde o Gênio sucumbe na asfixia

Em meio à turba alvar e zombadora;

Onde Musset suicida-se na orgia,

E Chatterton na fome aterradora!

Onde, à luz de uma lâmpada sombrio,

O Anjo-da-Guarda ajoelhado chora,

Enquanto a cortesã lhe apanha os prantos

P'ra realce dos lúbricos encantos!...

Abre-me o seio, ó Madre Natureza!

Regaços da floresta americana,

Acalenta-me a mádida tristeza

Que da vaga das turbas espadana.

Troca dest'alma a fria morbideza

Nessa ubérrima seiva soberana!...

O Pródigo... do lar procura o trilho...

Natureza! Eu voltei... e eu sou teu filho!

Novo alento selvagem, grandioso

Trema nas cordas desta frouxa lira.

Dá-me um plectro bizarro e majestoso,

Alto como os ramais da sicupira.

Cante meu gênio o dédalo assombroso

Da floresta que ruge e que suspira,

Onde a víbora lambe a parasita...

E a onça fula o dorso pardo agita!

Onde em cálix de flor imaginária

A cobra de coral rola no orvalho,

E o vento leva a um tempo o canto vário

D'araponga e da serpe de chocalho...

Onde a soidão é o magno estradivário...

Onde há músc'los em fúria em cada galho,

E as raízes se torcem quais serpentes...

E os monstros jazem no ervaçal dormentes.

E se eu devo expirar... se a fibra morta

Reviver já não pode a tanto alento...

Companheiro! Uma cruz na selva corta

E planta-a no meu tosco monumento!...

Da chapada nos ermos... (o qu'importa?)

Melhor o inverno chora... e geme o vento.

E Deus para o poeta o céu desata

Semeado de lágrimas de prata!...

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