Quem dá aos pobres, empresta a Deus Espumas Flutuantes · Capítulo 7 de 48
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Quem dá aos pobres, empresta a Deus

Eu, que a pobreza de meus pobres cantos

Dei aos heróes — aos miseraveis grandes, —

Eu, que sou cégo, — mas só peço luzes...

Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...

Canto nest′hora, como o bardo antigo

Das priscas éras, que bem longe vão,

O grande

nada

dos heróes que dormem,

Do vasto pampa no funereo chão...

Duas grandezas neste instante cruzam-se!

Duas realezas hoje aqui se abraçam!...

Uma — é um livro laureado em luzes...

Outra — uma espada, onde os laureis se enlaçam.

Nem córa o livro de hombrear co′o sabre...

Nem córa o sabre de chamal-o irmão...

Quando em loureiros se biparte o gladio,

Do vasto pampa no funereo chão.

E foram grandes teus heróes, ó patria,

— Mulher fecunda, que não crêa escravos, —

Que ao trom de guerra soluçaste aos filhos:

«Partí — soldados, mas voltai-me — bravos!»

E qual Moema desgrenhada, altiva,

Eis tua prole, que se arroja então,

De um mar de glorias apartando as vagas,

Do vasto pampa no funereo chão.

E esses Leandros do Hellesponto novo

Se resvalaram — foi no chão da historia..

Se tropeçaram — foi na eternidade...

Se naufragaram — foi no mar da gloria...

E hoje o que resta dos heróes gigantes?..

Aqui — os filhos que vos pedem pão...

Além — a ossada, que branquêa a lua,

Do vasto pampa no funereo chão.

Ai! quantas vezes a criança loura

Seu pae procura, pequenina e núa,

E vai brincando co′o vetusto sabre,

Sentar-se á espera no portal da rua...

Misera mãe, sobre teu peito aquece

Esta avesinha que não tem mais pão!...

Seu pae descansa — fulminado cedro —

Do vasto pampa no funereo chão.

Mas já que as aguias lá no sul tombaram

E os filhos d′aguias o Poder esquece...

É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...

Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!..

Oh! dai a esmola... que do infante lindo

Por entre os dedos da pequena mão,

Ella transborda... e vai cahir nas tumbas,

Do vasto pampa no funereo chão.

Ha duas cousas neste mundo santas:

— O rir do infante, — o descansar do morto...

O berço — é a barca, que encalhou na vida,

A cova — é a barca do sidereo porto...

E vós dissestes para o berço — Avante! —

Emquanto os nautas que ao Eterno vão,

Os ossos deixam, qual na praia as ancoras,

Do vasto pampa no funereo chão.

É santo o laço em qu′hoje aqui s′estreitam

De heroicos troncos — os rebentos novos! —

É que são gemeos dos heróes os filhos

Inda que filhos de diversos povos!

Sim! me parece que n′est′hora augusta

Os mortos saltam da feral mansão...

E um «bravo!» altivo de além-mar partindo,

Rola do pampa no funereo chão!...

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