As trevas Espumas Flutuantes · Capítulo 41 de 48
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As trevas

A MEU AMIGO. O DR.

FRANCO MEIRELLES

, INSPIRADO TRADUCTOR DAS

MELODIAS HEBRAICAS

.

Tive um sonho que em tudo não foi sonho!..

O sol brilhante se apagára; e os astros,

Do eterno espaço na penumbra escura,

Sem raios e sem trilhos, vagueavam.

A terra fria balouçava céga

E tetrica no espaço ermo de lua.

A manhã ia, vinha... e regressava...

Mas não trazia o dia! Os homens pasmos

Esqueciam no horror dessas ruinas

Suas paixões. E as almas conglobadas

Gelavam-se n'um grito de egoismo

Que demandava — luz. Junto ás fogueiras

Abrigavam-se... e os thronos e os palacios.

Os palacios dos reis, o albergue e a choça

Ardiam por fanaes. Tinham nas chammas

As cidades morrido. Em torno ás brazas

Dos seus lares os homens se grupavam,

P'ra a vez extrema se fitarem juntos.

Feliz de quem viria junto ás lavas

Dos volcões sob a tocha alcantilada!

Hórrida esp'rança acalentava o mundo!

As florestas ardiam!... de hora em hora

Cahindo se apagavam; crepitando,

Lascado o tronco desabava em cinzas.

E tudo... tudo as trévas envolviam.

As frontes ao clarão da luz doente

Tinham do inferno o aspecto... quando ás vezes

As faíscas das chammas borrifavam-nas.

Uns, de bruços no chão, tapando os olhos

Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros

Firmando a barba, desvairados riam.

Outros correndo á tôa procuravam

O ardente pasto p'ra funercas pyras.

Inquietos, no esgar do desvario.

Os olhos levantavam p'ra o céo torvo,

Vasto sudario do universo — espectro

E após em terra se atirando em raivas,

Rangendo os dentes, blasphemos, uivavam!

Lugubre grito os passaros selvagens

Soltavam, revoando espavoridos

N'um vôo tonto co'as inuteis azas!

As féras 'stavam mansas e medrosas!

As viboras rojando s'enroscavam

Pelos membros dos homens, sibilantes,

Mas sem veneno... a fome lhes matavam!

E a guerra, que um momento s′extinguira

De novo se fartava. Só com sangue

Comprava-se o alimento, e após á parte

Cada um se sentava taciturno,

P'ra fartar-se nas trévas infinitas!

Já não havia amor!... O mundo inteiro

Era um só pensamento, e o pensamento

Era a morte sem gloria e sem detença!

O estertor da fome apascentava-se

Nas entranhas... Ossada ou carne putrida,

Resupino, insepulto era o cadaver.

Mordiam-se entre si os moribundos:

Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,

Todos, excepto um só... que defendia

O cadaver do seu, contra os ataques

Dos passaros, das féras e doa homens,

Até que a fome os extinguisse, ou fossem

Os dentes frouxos saciar algures!

Elle mesmo alimento não buscava...

Mas, gemendo n'um uivo longo e triste.

Morreu lambendo a mão, que inanimada

Já não podia lhe pagar o affecto.

Faminta a multidão morrêra aos poucos.

Escaparam dous homens tão sómente

De uma grande cidade. E se odiavam.

Foi junto dos tições quasi apagados

De um altar, sobre o qual se amontoaram

Sacros objectos p'ra um profano uso,

Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas

Reunindo nas mãos frias de espectros,

De seus sopros exhaustos ao bafejo

Uma chamma irrisoria produziram!...

Ao clarão que tremia sobre as cinzas

Olharam-se e morreram dando um grito.

Mesmo da propria hediondez morreram,

Desconhecendo aquelle em cuja fronte

Traçara a fome o nome de Duende!

O mundo fez-se um vácuo. A terça esplendida,

Populosa tornou-se n'uma massa

Sem estações, sem arvores, sem herva,

Sem verdura, sem homens e sem vida,

Cahos de morte, inanimada argila!

Calaram-se o oceano, o rio, os lagos!

Nada turbava a solidão profunda!

Os navios no mar apodreciam

Sem marujos! os mastros desabando

Dormiam sobre o abysmo, sem que ao menos

Uma vaga na quéda alevantassem.

Tinham morrido as vagas! e jaziam

As marés no seu tumulo... antes dellas

A lua que as guiava era já morta!

No estagnado céo murchára o vento;

Esvahiram-se as nuvens. E nas trevas

Era só trevas o universo inteiro

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