Aves de arribação Espumas Flutuantes · Capítulo 42 de 48
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Aves de arribação

Pensava em ti nas horas de

tristeza,

Quando estes versos pálidos

compus

Cercavam-me planícies sem beleza

Pesava-me na fronte um céu sem luz.

Ergue este ramo solto no caminho.

Sei que em teu seio asilo encontrará.

Só tu conheces o secreto espinho

Que dentro d'alma me pungindo está.

FAGUNDES VARELA

Aves, é primavera! à rosa!

à rosa!

TOMÁS RIBEIRO

I

Era o tempo em que as ágeis andorinhas

Consultam-se na beira dos telhados,

E inquietas conversam, perscrutando

Os pardos horizontes carregados...

Em que as rolas e os verdes periquitos

Do fundo do sertão descem cantando...

Em que a tribo das aves peregrinas

Os Zíngaros do céu formam-se em bando!

Viajar! viajar! A brisa morna

Traz de outro clima os cheiros provocantes.

A primavera desafia as asas,

Voam os passarinhos e os amantes!...

II

Um dia Eles chegaram. Sobre a estrada

Abriram à tardinha as persianas;

E mais festiva a habitação sorria

Sob os festões das trêmulas lianas.

Quem eram? Donde vinham? — Pouco importa

Quem fossem da casinha os —

São noivos — : as mulheres murmuravam!

E os pássaros diziam: — São amantes — !

Eram vozes-que uniam-se cotas brisas!

Eram risos-que abriam-se cotas flores!

Eram mais dois clarões — na primavera!

Na festa universal-mais dous amores!

Astros! Falai daqueles olhos brandos.

Trepadeiras! Falai-lhe dos cabelos!

Ninhos d'aves! dizei, naquele seio,

Como era doce um pipilar d'anelos.

Sei que ali se ocultava a mocidade...

Que o idílio cantava noite e dia...

E a casa branca à beira do caminho

Era o asilo do amor e da poesia.

Quando a noite enrolava os descampados,

O monte, a selva, a choça do serrano,

Ouviam-se, alongando à paz dos ermos,

Os sons doces, plangentes de um piano.

Depois suave, plena, harmoniosa

Uma voz de mulher se alevantava...

E o pássaro inclinava-se das ramas

E a estrela do infinito se inclinava.

E a voz cantava o tremolo medroso

De uma ideal sentida barcarola...

Ou nos ombros da noite desfolhava

As notas petulantes da Espanhola!

III

As vezes, quando o sol nas matas virgens

A fogueira das tardes acendia,

E como a ave ferida ensanguentava

Os píncaros da longa serrania,

Um grupo destacava-se amoroso,

Tendo por tela a opala do infinito,

Dupla estátua do amor e mocidade

Num pedestal de musgos e granito.

E embaixo o vale a descantar saudoso

Na cantiga das moças lavadeiras!...

E o riacho a sonhar nas canas bravas.

E o vento a s'embalar nas trepadeiras.

O crepúsculos mortos! Voz dos ermos!

Montes azuis! Sussurros da floresta!

Quando mais vós tereis tantos afetos

Vicejando convosco em vossa festa?...

E o sol poente inda lançava um raio

Do caçador na longa carabina...

E sobre a fronte d'Ela por diadema

Nascia ao longe a estrela vespertina.

IV

É noite! Treme a lâmpada medrosa

Velando a longa noite do poeta...

Além, sob as cortinas transparentes

Ela dorme... formosa Julieta!

Entram pela janela quase aberta

Da meia-noite os preguiçosos ventos

E a lua beija o seio alvinitente —

Flor que abrira das noites aos relentos.

O Poeta trabalha!... A fronte pálida

Guarda talvez fatídica tristeza...

Que importa? A inspiração lhe acende o verso

Tendo por musa — o amor e a natureza!

E como o cáctus desabrocha a medo

Das noites tropicais na mansa calma,

A estrofe entreabre a pétala mimosa

Perfumada da essência de sua alma.

No entanto Ela desperta... num sorriso

Ensaia um beijo que perfuma a brisa...

... A Casta-diva apaga-se nos montes...

Luar de amor! acorda-te, Adalgisa!

V

Hoje a casinha já não abre à tarde

Sobre a estrada as alegres persianas.

Os ninhos desabaram... no abandono

Murcharam-se as grinaldas de lianas.

Que é feito do viver daqueles tempos?

Onde estão da casinha os habitantes?

... A Primavera, que arrebata as asas...

Levou-lhe os passarinhos e os amantes!...

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