Ahasverus e o gênio Espumas Flutuantes · Capítulo 9 de 48
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Ahasverus e o gênio

AO POETA E AMIGO

J. FELIZARDO JUNIOR

Sabes quem foi Ahasverus?... — o precito,

O misero Judeu que tinha escripto

Na fronte o sello atroz!

Eterno viajor de eterna senda...

Espantado a fugir de tenda em tenda,

Fugindo embalde á

vingadora voz

!

Miserrimo! Correu o mundo inteiro,

E no mundo tão grande... o forasteiro

Não teve onde pousar.

Co′a mão vazia — viu a terra cheia,

O deserto negou-lhe — o grão de areia.

A gotta d′agua — rejeitou-lhe o mar.

D′Asia as florestas — lhe negaram sombra,

A savana sem fim — negou-lhe alfombra,

O chão negou-lhe o pó!...

Tabas, serralhos, tendas e solares...

Ninguem lhe abriu a porta de seus lares

E o triste seguiu só.

Viu povos de mil climas, viu mil raças,

E não pôde, entre tantas populaças,

Beijar uma só mão...

Desde a virgem do norte á de Sevilhas,

Desde a ingleza á crioula das Antilhas

Não teve um coração!...

E caminhou!... E as tribus se afastavam

E as mulheres tremendo murmuravam

Com respeito e pavor.

Ai! fazia tremer do valle á serra...

Elle que só pedia sobre a terra

— Silencio, paz e amor! —

No emtanto á noite, se o Hebreu passava,

Um murmurio de inveja se elevava,

Desde a flôr da campina ao colibri.

«Elle não morre» a multidão dizia...

E o precito comsigo respondia:

— Ai! mas nunca vivi! —

O Genio é como Ahasverus... solitario

A marchar, a marchar no itinerario

Sem termo do existir.

Invejado! a invejar os invejosos,

Vendo a sombra dos alamos frondosos...

E sempre a caminhar... sempre a seguir...

Pede uma mão de amigo — dão-lhe palmas;

Pede um beijo de amor — e as outras almas

Fogem pasmas de si.

E o misero de gloria em gloria corre...

Mas quando a terra diz: — «Elle não morre»

Responde o desgraçado: — «Eu não vivi!...»

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