O fantasma e a canção Espumas Flutuantes · Capítulo 13 de 48
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O fantasma e a canção

Orgulho! desce os olhos dos céos sobre ti mesmo; e vê como os nomes mais poderosos vão se refugiar n′uma canção.

(

Byron

.)

— Quem bate? — «A noite é sombria!»

— Quem bate? — «É rijo o tufão!...

Não ouvis? a ventania

Ladra á lua como um cão.»

— Quem bate? — «O nome qu′importa?

Chamo-me dôr... abre a porta!

Chamo-me frio... abre o lar!

Dá-me pão... chamo-me fome!

Necessidade — é o meu nome!»

— Mendigo! pódes passar!

«Mulher, se eu fallar, promettes

A porta abrir-me?» — Talvez.

— «Olha... Nas cans deste velho

Verás fanados laureis.

Ha no meu craneo enrugado

O fundo sulco traçado

Pela c′roa imperial.

Foragido, errante espectro,

Meu cajado — já foi sceptro!

Meus trapos — manto real!»

— Senhor, minha casa é pobre...

Ide bater a um solar!

«De lá venho... O Rei-fantasma

Baniram do proprio lar.

Nas largas escadarias,

Nas vetustas galerias,

Os pagens e as cortezans

Cantavam!... Reinava a orgia!...

Festa! Festa! E ninguem via

O rei coberto de cans!»

— Fantasma! Aos grandes que tombam,

É palacio o mausoléo!

Tambem meu tumulo morreu.

— «Silencio! De longe eu venho...

O sec′lo — traça que medra

Nos livros feitos de pedra,

Róe o marmore, cruel.

O tempo — Attila terrivel,

Quebra co′a pata invisivel

Sarcophago e capitel.

— «Desgraça então para o espectro,

Quer seja

Homero

ou

Solon

,

Se, medindo a treva immensa,

Vai bater ao Pantheon...

O motim — Nero profano —

No ventre da cova insano

Mergulha os dedos crueis.

Da guerra nos paroxismos

Se abysmam mesmo os abysmos

E o morto morre outra vez!

«Então, nas sombras infindas,

S′esbarram em confusão

Os fantasmas sem abrigo

Nem no espaço, nem no chão...

As almas angustiadas,

Como aguias desaninhadas,

Gemendo voam no ar.

E enchem de vagos lamentos

As vagas negras dos ventos,

Os ventos do negro mar!

«Bati a todas as portas

Nem uma só me acolheu!...

— Entra! — Uma voz argentina

Dentro do lar respondeu.

— «Entra, pois, sombra exilada!

Entra! O verso — é uma pousada

Aos reis que perdidos vão.

A estrophe é a purpura extrema,

Ultimo throno — é o poema!

Ultimo asylo — a

Canção!

...

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