Os anjos da meia noite Espumas Flutuantes · Capítulo 39 de 48
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Os anjos da meia noite

Fotografias

I

Quando a insônia, qual lívido vampiro,

Como o arcanjo da guarda do Sepulcro,

Vela à noite por nós,

E banha-se em suor o travesseiro

E além geme nas franças do pinheiro

Da brisa a longa voz...

Quando sangrenta a luz no alampadário

Estala, cresce, expira, após ressurge,

Como uma alma a penar;

E canta aos guizos rubros da loucura

A febre— a meretriz da sepultura —

A rir e a soluçar...

Quando tudo vacila e se evapora,

Muda e se anima, vive e se transforma,

Cambaleia e se esvai...

E da sala na mágica penumbra

Um mundo em trevas rápido se obumbra...

E outro das trevas sai...

Então... nos brancos mantos, que arregaçam

Da meia-noite os Anjos alvos passam

Em longa procissão!

E eu murmuro ao fitá-los assombrado:

São os Anjos de amor de meu passado

Que desfilando vão...

Almas, que um dia no meu peito ardente

Derramastes dos sonhos a semente,

Mulheres, que eu amei!

Anjos louras do céu! virgens serenas!

Madonas, Querubins ou Madalenas!

Surgi! aparecei!

Vinde, fantasmas! Eu vos amo ainda;

Acorde-se a harmonia à noite infinda

Ao roto bandolim...

E no éter, que em notas se perfuma,

As visões s'alteando uma por uma,

Vão desfilando assim!...

1ª Sombra: Marieta

Como o gênio da noite, que desata

O véu de rendas sobre a espádua nua,

Ela solta os cabelos... Bate a lua

Nas alvas dobras de um lençol de prata...

O seio virginal, que a mão recata,

Embalde o prende a mão... cresce, flutua...

Sonha a moça ao relento... Além na rua

Preludia um violão na serenata!...

... Furtivos passos morrem no lajedo...

Resvala a escada do balcão discreta

Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!

Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!

Ai! noites de Romeu e Julieta!...

2ª Sombra: Bárbora

Erguendo o cálix, que o Xerez perfuma,

Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,

Dentes níveos em lábios tão vermelhos,

Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de Valquíria... alvo de bruma,

Pequenos pés sob infantis artelhos,

Olhos vivos, tão vivos como espelhos

Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,

Que harmonias e músicas respira...

No lábio-um beijo... — no beijar-um hino;

Harpa eólia a esperar que o vento a fira,

— Um pedaço de mármore divino...

— É o retrato de Bárbora-a Hetaíra.-

3ª Sombra: Ester

Vem! no teu peito cálido e brilhante

O nardo oriental melhor transpira!...

Enrola-te na longa cachemira,

Como as Judias moles do Levante.

Alva a clâmide aos ventos-roçagante...

Túmido o lábio. onde o saltério gira...

Ó musa de Israel! pega da lira...

Canta os martírios de teu povo errante!

Mas não... brisa da pátria além revoa,

E, ao delamber-lhe o braço de alabastro,

Falou-lhe de partir... e parte... e voa...

Qual nas algas marinhas desce um astro...

Linda Ester! teu perfil se esvai... s'escoa...

Só me resta um perfume... um canto... um rastro...

4.ª Sombra: Fabíola

Como teu riso dói... como na treva

Os lêmures respondem no infinito:

Tens o aspecto do pássaro maldito,

Que em sânie de cadáveres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva

Um soluço de amor pungente, aflito...

Fabíola! É teu nome!... Escuta... é um grito,

Que lacerante para os céus s'eleva!...

E tu folgas, Bacante dos amores,

E a orgia, que a mantilha te arregaça,

Enche a noite de horror, de mais horrores...

É sangue, que referve-te na taça!

É sangue, que borrifa-te estas flores!

E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!

5.ª E 6.ª Sombras: Cândida e Laura

Como no tanque de um palácio mago

Dois alvos cisnes na bacia lisa,

Como nas águas, que o barqueiro frisa,

Dois nenufares sobre o azul do lago,

Como nas hastes em balouço vago

Dois lírios roxas, que acalenta a brisa,

Como um casal de juritis, que pisa

O mesmo ramo no amoroso afago...

Quais dois planetas na cerúlea esfera,

Como os primeiros pâmpanos das vinhas,

Como os renovos nos ramais da hera,

Eu vos vejo passar nas noites minhas,

Crianças, que trazeis-me a primavera...

Crianças, que lembrais-me as andorinhas!...

7.ª Sombra: Dulce

Se houvesse ainda talismã bendito

Que desse ao pântano-a corrente pura,

Musgo-ao rochedo, festa-à sepultura,

Das águias negras — harmonia ao grito...

Se alguém pudesse ao infeliz precito

Dar lugar no banquete da ventura...

E trocar-lhe o velar da insônia escura

No poema dos beijos — infinito...

Certo... serias tu, donzela casta

Quem me tomasse em meio do Calvário

A cruz de angústia, que o meu ser arrasta!...

Mas se tudo recusa-me o fadário,

Na hora de expirar, ó Dulce, basta

Morrer beijando a cruz de teu rosário!...

8.ª Sombra: Último fantasma

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,

Que te elevas da noite na orvalhada?

Tens a face nas sombras mergulhada...

Sobre as névoas te libras vaporoso...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...

Quem és tu, bela e branca desposada?

Da laranjeira em flor a flor nevada

Cerca-te a fronte, 6 ser misterioso!...

Onde nos vimos nós?... Es doutra esfera?

És o ser que eu busquei do sul ao norte...

Por quem meu peito em sonhos desespera?...

Quem és tu? Quem és tu?-Es minha sorte!

És talvez o ideal que est'alma espera!

És a glória talvez! Talvez a morte!...

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