As duas ilhas Espumas Flutuantes · Capítulo 38 de 48
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As duas ilhas

Quando á noite — ás horas mortas —

O silencio e a solidão

— Sob o docel do infinito —

Dormem do mar n′amplidão,

Vê-se por cima dos mares,

Rasgando o tecto dos ares

Dous gigantescos perfis...

Olhando por sobre as vagas,

Attentos, longinquas plagas

Ao clarear dos fuzis.

Quem os vê, olha espantado

E a sós murmura; « O que é?

Ai! que atalaias gigantes,

dão essas além de pé?!...

Adamastor de granito

Co′a testa roça o infinito

E a barba molha no mar;

E de pedra a cabelleira

Sacudind′a onda ligeira

Faz de medo recuar...

São — dous marcos milliarios,

Que Deus nas ondas plantou,

Dous rochedos, onde o mundo

Dous Prometheus amarrou!...

— Acolá... (Não tenhas medo!...)

É Santa Helena o — rochedo

Desse Titan que foi rei!...

— Alli... (Não feches os olhos!...)

Alli... aquelles abrolhos

São a ilha de Jersey!...

São elles — os dous gigantes

No seculo de pygmeus.

São elles — que a magestade

Arrancam da mão de Deus.

— Este concentra na fronte

Mais astros — que o horizonte,

Mais luz — do que o sol lançou!..

— Aquelle — na dextra alçada

Traz segura sua espada

— Cometa, que ao cóo roubou!...

E olham os velhos rochedos

O Sena, que dorme além...

E a França, que entre a caligem

Dorme em sudario também...

E o mar pergunta espantado:

— Foi devéras desterrado

Bonaparte — meu irmão?... —

Diz o céo astros chorando:

— E Hugo?... — E o mundo pasmando

Diz: — Hugo... Napoleão!... —

Oomo vasta reticencia

Se estende o silencio após...

És muito pequena, ó França,

P′ra conter estes heróes...

Sim! que estes vultos augustos

Para o leito de Procustos

Muito grandes Deus traçou...

Basta os reis tremam de medo

Se a sombra de algum rochedo

Sobre elles se projectou!...

Dizem que, quando, alta noite,

Dorme a terra — e vela Deus,

As duas ilhas conversam

Sem temor perante os céos,

— Jersey curva sobre os mares

A Santa Helena os pensares

Segreda do velho Hugo...

— E Santa Helena no emtanto

No

Salgueiro

enxuga o pranto

E conta o que

Elle

fallou...

E olhando o presente infame

Clamam: — Da turba vulgar

Nós — infinitos de pedra —

Nós havemol-os vingar!...

E do mar sobre as escumas,

E do céo por sobre as brumas.

Um ao outro dando a mão...

Encarara a immensidade

Bradando: — A Posteridade!... —

Deus ri se e diz: — Inda nâo!...

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