Primeira Parte - Livro Segundo - Capítulo I: Da escolha da terra para plantar canas de açúcar, e para os mantimentos necessarios, e provimentos do engenho Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas · Capítulo 17 de 75
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Primeira Parte - Livro Segundo - Capítulo I: Da escolha da terra para plantar canas de açúcar, e para os mantimentos necessarios, e provimentos do engenho

Da escolha da terra para plantar canas de açúcar, e para os mantimentos necessarios, e provimentos do engenho.

As terras boas ou más, são o fundamento principal para ter um engenho real bom, ou máo rendimento. As que chamam massapés, terras negras, e fortes, são as mais excellentes para a planta da cana. Seguem-se atraz destas os salões, terra vermelha, capáz de poucos córtes; porque logo enfraquece. As areiscas, que são uma mixtura de arêa, e salões, servem para mandioca, e legumes; mas não para canas. E o mesmo digo das terras brancas, que chamam terras de arêa, como são as do Camamú, e da Saubára. A terra que se escolhe para o pasto ao redor do engenho, há de ter agua, há de ser cercada, ou com plantas vivas, como são as de Pinhóes; ou com estacas, e varas do matto. O melhor pasto é o que tem grama, parte em outeiro, e parte em varzea: porque desta sorte em todo o tempo, ou em uma, ou em outra parte, assim os bois, como as bestas, acharáõ que comer. O pasto se há de conservar limpo de outras hervas, que matão a grama, e no tempo do inverno se hão de botar fóra dele os porcos, porque o destróem foçando. Nelle há de haver um ou dous curraes, aonde se mettão os bois para comerem os olhos da cana, e para estarem perto do serviço dos carros. E tambem as bestas se recolhem no seu curral, para as não haver de buscar espalhadas.

Andão no pasto, além das egoas e bois, ovelhas, e cabras: e ao redor do engenho a criação miuda, como são perús, galinhas, e patos, que são o remedio mais prompto para agasalhar os hospedes, que vem de improviso. Mas porque as ovelhas e cavallos chegão muito com o dente à raiz da grama, são de prejuizo ao pasto dos bois: e por isso se o destes fosse diverso, seria melhor.

Os mattos dão as madeiras, e a lenha para as fornalhas. Os mangues dão caibros, e marisco. E os Apicús (que são as coroas, que faz o mar entre si e a terra firme, e as cobre a maré) dão o barro, para purgar o açúcar nas formas, e para a olaria, que na opinião de alguns se não escusa nos engenhos reais.

De todas estas castas de terras tem necessidade um engenho real; porque umas servem para canas, outras para mantimento da gente, e outras para o apparelho, e provimento do engenho, além do que se procura do Reino. Porém nem todos os engenhos podem ter esta dita: antes nenhum se achará, a quem não falte alguma destas cousas. Porque aos que estão a beira-mar comummente faltão as roças, e a lenha: e aos que estão pela terra dentro, faltão outras muitas conveniencias, que tem os que estão a beira-mar no Reconcavo. Comtudo, de ter, ou não ter o senhor do engenho, cabedal, e gente, feitores fieis, e de experiencia, bois, e bestas, barcos, e carros, depende o menear, e governar bem, ou mal o seu engenho. E se não tiver gente para trabalhar, e beneficiar as terras a seu tempo; será o mesmo, que ter matto bravo com pouco, ou nenhum rendimento: assim como não basta para a vida politica, ter bom natural; se não houver mestre, que com o ensino trate de o aperfeiçoar ajudando-o.

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