Primeira Parte - Livro Segundo - Capítulo V: Do engenho, ou casa de moer a cana; e como se move a moenda com agua
Do engenho, ou casa de moer a cana; e como se move a moenda com agua.
Ainda que o nome de engenho comprehenda todo o edificio, com as officinas, e casas necessarias para moer a cana, cozer, e purgar o açúcar; comtudo, tomado mais em particular, o mesmo é dizer casa do engenho, que casa de moer a cana com o artificio, que engenhosamente inventárão. E tendo nós já chegado a esta casa com a cana conduzida para a moenda, daremos alguma noticia do que ella é, e do que nella se obra, para espremer o açúcar da cana; valendo-me do que vi no engenho real de Sergipe do Conde, que entre todos os da Bahia é o mais afamado. Levanta-se a borda do Rio sobre dezesete grandes pilares de tijolo, largos quatro palmos, altos vinte e dous, e distantes um do outro quinze, uma alta, e espaçosa casa, cujo tecto coberto de telha assenta sobre tirantes, frechaes, e vigas de páos, que chamam de lei, que são dos mais fortes, que há no Brasil, a quem nenhuma outra terra leva nesta parte vantagem; com duas varandas ao redor: uma para receber cana, e lenha, e outra para guardar madeiras sobrecellentes. E a esta chamam casa de moenda, capaz de receber comodamente quatro tarefas de cana, sem perturbação, e embaraço dos que necessariamente hão de lidar na dita casa, e dos que por ella passão, sendo caminho aberto para qualquer outra officina, e particularmente para as casas immediatamente contiguas das fornalhas, e das caldeiras; contando de comprimento todo este edificio, cento e noventa e tres palmos, e oitenta, e seis de largo. Móe-se nesta casa a cana com tal artificio de eixos, e rodas, que bem merece particular reflexão, e mais distincta noticia.
Tomão para mover a moenda do rio acima, aonde faz a sua queda natural, a que chamam levada, que vem a ser uma porção bastante de agua do açude, ou tanque, que para isso tem, divertida com prezas de pedra, e tijolo, do seu curso, e levada com declinação moderada por rego capaz, e forte nas margens, para que a agua vá unida, e melhor se conserve; cobrando na declinação cada vez maior impeto, e força: com seu sangrador, para a divertir, se fôr necessario, quando por razão das chuvas, ou cheias viesse mais do que se pretende; e com outra abertura para duas bicas, uma que leva a agua para a casa das caldeiras, e outra que vai a refrescar o aguilhão da roda grande dentro da moenda; servindo-se para a comunicar a outro aguilhão, de uma taboa; e assim vai a entrar no cano de páo, que chamam caliz, sustentado de pilares de tijolo, e na parte superior descoberto, cujo extremo inclinado sobre os cabos da roda se chama feridor; porque por elle vai a agua a ferir os ditos cubos, donde se origina, e continua o seu moto. Assentão os aguilhões do eixo desta roda, um pela parte de fóra, e outro pela parte de dentro da casa da moenda, sobre seus chumaceiros de páo, com chapa de bronze; e a estes sustentão duas virgens, ou esteios de fóra, e duas de dentro, com seu brinquete, que é a travessa, em que os aguilhões se encostão. E sobre estes, como dissemos, vai sempre cahindo uma pequena porção de agua, para os refrescar, de sorte que pelo continuo moto não ardão, temperando-se com agua sufficientemente o calor.
As aspas da roda larga, e grande sustentão aos arcos, ou circulos dela, e dentro apparecem os cubos, ou covas feitas no meio da roda, e unidos um a outro, com o fundo fechado do forro interior da mesma roda entre os dous arcos dela assegurados com muitas cavilhas de ferro, e com suas arruellas, e chavetas mettidas, e atravessadas, para enchavetar as pontas das cavilhas; causas de não bolirem os arcos, nem os cubos ao cahir da agua, e de ir a roda suas voltas seguras. Perto da roda pela banda de fóra estão dous esteios altos, e grossos, com tres travessas, asseguradas tambem de outra parte, uma das quaes sustenta a extremidade do caliz, duas ao feridor, e outra ao pejador do engenho. É o pejador uma taboa, pois mais larga que a roda, de dez ou doze palmos de comprimento, com suas bordas, semelhante à um grande taboleiro, debaixo do feridor, com uma cavilha chavetada, de sorte que se possa jogar, e bolir com ella sem resistencia; e por isso se faz o buraco da cavilha bastantemente largo, e na parte inferior tem no lado, que se vai a encostar à parede da moenda, um espigão de ferro, preso tambem com uma argola de ferro, que entrando por uma abertura pela dita parede, sua mão, ou cabo, em o qual se encavilha sobre um esteio, que chamam moirão à maneira de engonços, fica à disposição de quem está na moenda o manda-la parar, ou andar como quizer, empurrando, ou puxando pelo pejador; o qual pondo-se sobre os cubos, impede ao feridor o dar-lhe o moto com a queda da agua; e tornando a descobrir os cubos, torna-se a mover a roda, e com a roda a moenda. E isto é muito necessario em qualquer desastre, que póde acontecer, para lhe acodir de pressa, e atalhar os perigos. E chamam a esta taboa pejador; porque tambem ao parar do engenho chamam pejar: por ventura, por se pejar um engenho real de ser retardado, ou impedido, ainda por um instante; e de não ser sempre, como é de razão, moente, e corrente. E isto quanto à parte exterior da moenda, donde principia o seu movimento.
Entrando pois na casa interior; o modo com que se comunica o moto por suas partes à moenda, é o seguinte. O eixo da roda grande, que como temos dito, pela parte de fóra se mette dentro da casa do engenho, tem no seu remate interior, chegado aonde assenta o aguilhão sobre o brinquete, e esteios, um rodete fixo, e armado de dentes, que o cerca: e este virado ao redor pelo caminho do dito eixo, apanha successivamente na volta, que dá com seus dentes, outros de outra roda superior, tambem grande, que chamam volandeira, porque o seu modo de andar circularmente no ar sobre a moenda, se parece com o voar de um passaro, quando dá no ar seus rodeios. Os dentes do rodete, que eu vi, erão trinta, e dous; e os da volandeira, cento, e doze. E porque as aspas da volandeira passão pelo pescoço do eixo grande da moenda; por ellas se lhe comunica o impulso: e este recebido do dito eixo grande, cercado de entrozas, e dentes, se comunica tambem a dous outros eixos menores, que tem de ambas as ilhargas, dentados, e abertos igualmente, com suas entrozas do mesmo modo, que temos dito do grande: e com estes dentes, e entrozas se causa o moto com que uniformemente o acompanhão.
As aspas da volandeira são oito, quatro superiores, e quatro inferiores, e as inferiores tem suas contra-aspas para maior segurança. Os tres eixos da moenda são tres páos redondos de corpo espherico, alto nos menores sinaes cinco palmos e meio; e no maior, que é o do meio, alto seis palmos, e tambem de esphera maior que os outros, que nas ilhargas continuamente o apertão, gasta-se mais que os outros: e por isso por boa regra os menores tem nove dentes, e o maior onze, e só este (por fallarmos com a lingoa dos oficiais) tem seu pescoço, e cabeça alta, conforme a altura do engenho, e comummente ao todo vém a ter o dito eixo doze palmos de alto: cuja cabeça de dous palmos e meio, mais delgada que o pescoço, entra por um páo furado, que chamam porca, sustentado de duas vigas, de quarenta e dous palmos, as quaes assentão sobre quatro esteios altos de dezesete palmos, e grossos quatro, com suas travessas proporcionadamente distantes. E ainda que os outros dous eixos menores não tem pescoço, comtudo pela parte de cima entrão quanto basta, com sua ponta, ou aguilhão, por huns páos furados, que chamam mesas, ou gatos, com que ficão direitos, e seguros em pé. Os corpos dos tres eixos da metade para baixo são vestidos igualmente de chapas de ferro unidas, e pregadas com pregos feitos para este fim com cabeça quadrada, e bem entrante, para se igualarem com as chapas: debaixo das quaes os corpos dos eixos são torneados com tornos de páo de lei, para que fique a madeira mais dura, e mais capaz de resistir ao continuo aperto, que há de padecer no moer. Sobre as chapas apparece, um circulo, ou faixa de páo, que é contra a parte do corpo dos mesmos eixos, despida de ferro: e logo immediatamente se segue o circulo dos dentes de páo de lei, encaixados no eixo com suas entrozas (que são umas cavaduras, ou vãos repartidos entre dente, e dente) para entrarem, e saíirem delas os dentes dos outros eixos collateraes; que para isso são em tudo iguaes os dentes, e as entrozas, a saber: os dentes na grossura, e na altura, e as entrozas na largura, e profundeza do encaixamento, ou vasio, que comummente saíem do corpo do eixo, comprimento de cinco, ou seis dedos, de largura de uma mão, e de quatro, ou cinco dedos de costa, de fôrma quase chata, e nos extremos redonda. E ainda que entre dente, e dente dos eixos menores, haja espaço medido por compasso de igual medida, que é um palmo grande; os do eixo maior tem de mais a mais tanto espaço, além do palmo, quanto ocuparia a grossura de uma moeda de dous cruzados: e isto se faz, para que estejão em sua conta, e não entrem no mesmo tempo os dentes dos eixos collateraes; mas um se siga atraz do outro, e desta sorte se continue em todos os tres o moto, que se pretende. E por isso tambem os dentes, e as entrozas de um eixo se hão de desencontrar dos dentes, e entrozas do outro, a saber: ao dente do eixo grande há de corresponder a entroza do pequeno; e ao dente do pequeno a entroza do grande. São os dentes (como dizia) na parte que saíe fóra do eixo algum tanto chatos, e no fim quase redondos, largos quatro ou cinco palmos, e outro tanto grossos: e então quase outros quatro dedos pela sua raiz do eixo, aonde se assegurão, além da parte, com que fazem parede ás entrozas, que são na mesma conta quatro ou cinco dedos profundas. Sobre os dentes dos eixos menores fica a terceira parte do páo descoberta, e se remata a modo de degráos em dous circulos menores, vestidos de duas argolas de ferro de grossura de um dedo, e meio, largura de tres dedos; e na ponta do páo se vara de tal sorte, que entre nelle uma buxa quadrada de dous ou tres palmos, de sapupira merim: a qual buxa tambem em parte se vaza, e nella se encaixa o aguilhão de ferro, comprimento de tres palmos, grossura de um caibro, à força de pancadas com um vaivem de ferro. E para melhor segurança do aguilhão, e da buxa, se abre na cabeça dos quatro lados da buxa, com uma palmeta de ferro, à força de pancadas de vaivem; e se lhes mettem umas palmetas, menores de páo de lei, para não abrir. E pelo mesmo estilo de degráos, e argolas, buxa, e aguilhão com que temos dito se remata a parte superior dos dous eixos menores, se rematão tambem as partes inferiores de todos tres, ajuntando de mais a cada aguilhão seu pião de ferro, calçado de aço da grossura de uma maçã, que tambem se encaixa pela parte superior até dous dedos dentro do aguilhão; e pela parte inferior põe a ponta sobre outro ferro chato, que chamam manchal, de comprimento de um palmo, tambem calçado de aço, para que senão fure com o continuo virar, que sobre elle faz o pião. E todos estes tres eixos, ou corpos de moenda, aonde chega o pião ao manchal, assentão sobre um páo, que chamam ponte, de comprimento de quinze, ou dezeseis palmos: e para sustentar toda a moenda forte, e segura, servem quatro virgens, que são quatro esteios, altos da terra nove palmos, e grossos sete, semelhantes no seu officio de suster aos que sustentão as virgens grandes, e a porca, ou páo furado, por onde passa a ponta do eixo grande, que sobre os outros collateraes se levanta até a dita altura, como parte principal da moenda. Sobre estas virgens de ponta, a ponta vão huns páos, que chamam mesas, quase um palmo de grossura, e vinte de comprimento, sobre as quaes descanção as travessas, que chamam gatos; em que se movem os eixos pela parte superior; e sobre estas vai outro andar ao comprimento, de taboas que chamam agulhas, as quaes servem para segurar as unhas, com que se aperta a moenda.
O lugar aonde se poem os feixes de cana, que immediatamente há de passar para se espremer entre os eixos, são dous taboleiros, um de uma parte, e outro da outra, que tem seus encaixos, ou meios circulos ao redor dos eixos da moenda, afastados deles tanto, quanto basta para não lhes impedir suas voltas. E o estarem os taboleiros chegados aos eixos é para que não caia a cana, ou o bagaço dela perto dos aguilhões, e retarde de algum modo aos piões; e para que se não suje o caldo, que saíe da cana moida.