Terceira Parte - Capítulo II: Das minas do ouro que chamam geraes, e dos descobridores delas
Das minas do ouro que chamam geraes, e dos descobridores delas.
Há poucos anos que se começárão a descobrir as minas geraes dos Cataguas, governando o Rio de Janeiro Artur de Sá: e o primeiro descobridor dizem, que foi um mulato, que tinha estado nas minas de Parnaguá, e Coritiba. Este indo ao sertão com huns Paulistas a buscar indios, e chegando ao serro Tripui, desceu a baixo com uma gamella, para tirar agua do ribeiro, que hoje chamam do Ouro Preto: e metendo a gamella na ribanceira para tomar agua, e roçando-a pela margem do rio, vio depois que nella havia granitos da côr do aço, sem saber o que erão: nem os companheiros, aos quaes mostrou os ditos granitos, souberão conhecer, e estimar o que se tinha achado tão facilmente: e só cuidárão, que ahi haveria algum metal, não bem formado, e por isso não conhecido. Chegando porém a Taubaté, não deixárão de perguntar, que casta de metal seria aquelle. E sem mais exame, vendêrão a Miguel de Souza alguns destes granitos, por meia pataca a oitava, sem saberem elles o que vendião, nem o comprador que cousa comprava, até que se resolvêrão mandar alguns dos granitos ao governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá, e fazendo-se exame deles, se achou que era ouro finissimo.
Em distancia de meia legua do Ouro Preto, achou-se outra mina, que se chama a do Ribeiro de Antonio Dias: e, dahi a outra meia legua, a do ribeiro do Padre João de Faria: e, junto desta, pouco mais de uma legua, a do ribeiro de Bueno, e a de Bento Rodrigues. E, dahi tres dias de caminho moderado até o jantar, a do ribeirão de N. S. do Carmo, descoberta por João Lopes de Lima; além de outra, que chamam a do ribeiro Ibupiranga. E todas estas tomárão o nome de seus descobridores, que todos forão Paulistas.
Tambem há uma paragem no caminho para as ditas minas geraes, onze, ou doze dias distante das primeiras, andando bem até ás tres horas da tarde: a qual paragem chamam a do rio das Mortes, por morrerem nelas huns homens que o passavão nadando, e outros, que se matárão ás pelouradas, brigando entre si sobre a repartição dos indios gentios que trazião do sertão. E neste rio, e nos ribeiros, que dele procedem, e em outros, que vem a dar nelle, se acha ouro: e serve esta paragem como de estalagem aos que vão ás Minas Geraes, ahi se provêem do necessario, por terem hoje os que ahi assistem, roças e criação de vender.
Não fallo da mina da serra de Itatiaya (a saber, do ouro branco, que é ouro ainda não bem formado), distante do ribeiro do Ouro Preto oito dias de caminho moderado até ao jantar: porque desta não fazem caso os Paulistas, por terem as outras de ouro formado, e de muito melhor rendimento. E estas geraes, dizem que ficão na altura das capitanias do Espirito Santo.