Segunda Parte - Capítulo V: Como se enrola, e encoura o tabaco: e que pessoas se ocupão em toda a fabrica dele desde a sua planta até se enrolar
Como se enrola, e encoura o tabaco: e que pessoas se ocupão em toda a fabrica dele desde a sua planta até se enrolar.
Para enrolar o tabaco dobrão a corda já curada, e melada, de comprimento de tres palmos, sobre uma estaca, não muito grossa, e leve, que nas extremidades tem quatro taboazinhas: sobre as quaes dobrada, e segurada, de uma à outra parte a dita corda, se vai enrolando até ao fim: puxando sempre bem, e unindo uma dobra com outra, de sorte que não fique vão algum entre as dobras. E para que as cabeças fiquem sempre direitas; além das cruzetas, que levão, lhes vão mettendo folhas de uricurí nos vãos, para que fiquem bem unidas com as dobras de dentro.
Acabado o rolo, se cobre primeiramente com folhas de caravatá secas, amarradas com embira, e depois se lhe faz uma capa de couro da medida do rolo: a qual cozida, e apertada muito bem, marca-se com a marca de seu dono. E desta sorte vão os rolos por terra em carros, e por mar em barcos, a serem despachados na alfandega, antes de se metterem nas náos. E cada rolo pesa comummente oito arrobas.
Vindo agora a fallar das pessoas, que se ocupão na fabrica, e cultura do tabaco; ella é tal, que a todos dá que fazer: porque nella trabalhão grandes, e pequenos, homens, e mulheres, feitores, e servos. Mas nem todos servem para qualquer ministerio dos que acima ficão referidos. Para semear, e plantar a folha, é necessario, que seja pessoa que entenda disso, para que se guarde bem o modo, a direitura, a distancia assim dos regos, como das covas. O cavar as covas pertence aos que andão no serviço com enxada: os rapazes botão os pés da planta, a saber; um em cada uma das covas, que ficão feitas. E o que planta, aperta-lhe a terra ao pé, mais ou menos conforme a humidade dela. Toda a gente se ocupa em catar a lagarta duas vezes no dia, a saber; pela madrugada, e depois de estar o sol posto: porque de dia está debaixo da terra, e o sinal de estar ahi é o achar-se alguma folha cortada de noite. Chegar-lhe a terra com enxada, é trabalho dos grandes. Capar a planta já crescida, isto é, tirar-lhe o olho, ou grelo na ponta da hastea, é officio de negros mestres. Desolhar, que vem a ser, tirar os outros olhos, que nascem entre cada folha, e a hastea, fazem pequenos, e grandes. Apanhar, ou colher as folhas, é de quem sabe conhecer quando é tempo, pelo sinal, que tem as folhas, aonde se pega com a hastea, que é o ser ahi de côr preta. Toda a gente de serviço se ocupa em dependurar as folhas nos altos: e isto se faz comummente de noite. Pinicar, ou espinicar, que tudo é o mesmo, e vem a ser tirar o talo ás folhas do tabaco; é trabalho leve de pequenos, e grandes. Torcer as folhas fazendo delas a corda, encommenda-se a algum negro mestre: e o que anda com a roda ou engenho de torcer, há de ser negro robusto: e tambem botar a capa à corda, para que fique bem redonda, é obra de negro experimentado. Os rapazes dão ao torcedor as folhas, e tambem as capas ao que vai cobrindo com as melhores a corda: e o mesmo que bota as capas, é o que enrola. O passar as cordas de um páo para outro páo, corre por conta de dous negros: dos quaes um está no virador, e outro vai desandando a corda enrolada no páo. Os que virão, ou mudão a corda de um páo para outro páo, são negros mestres; e a cada virador são necessarios tres: um que largue a corda, outro que a colha, e outro que ande no virador. Ajuntar, que é pôr a corda de tres bolas em um páo, é obra dos negros mais dextros: e são tres, e ás vezes quatro; porque não basta um só no virador, mas há mister dous, para que apertem bem a corda. Enrolar finalmente é ocupação de bons oficiais, para que fique a obra segura.