Quarta Parte - Capítulo III: Da condução das boiadas do Sertão do Brasil: preço ordinario do gado que se mata, e do que vai para as fabricas Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas · Capítulo 72 de 75
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Quarta Parte - Capítulo III: Da condução das boiadas do Sertão do Brasil: preço ordinario do gado que se mata, e do que vai para as fabricas

Da condução das boiadas do Sertão do Brasil: preço ordinario do gado que se mata, e do que vai para as fabricas.

Constão as boiadas, que ordinariamente vem para a Bahia, de cem, cento e sessenta, duzentas, e trezentas cabeças de gado; e destas quase cada semana chegão algumas a Capoame, lugar distante da cidade oito legoas, aonde tem pasto, e aonde os marchantes as comprão: e em alguns tempos do ano há semanas, em que cada dia chegão boiadas. Os que as trazem são brancos, mulatos, e pretos, e tambem Indios, que com este trabalho procurão ter algum lucro. Guião-se, indo huns adiante cantando, para serem desta sorte seguidos do gado; e outros vem atraz das rezes tangendo-as, e tendo cuidado, que não saíião do caminho e se amontoem. As jornadas são de quatro, cinco, e seis legoas, conforme a comodidade dos pastos, aonde hão de parar. Porém, aonde há falta d'agua, seguem o caminho de quinze, e vinte legoas, marchando de dia e de noite, com pouco descanço, até que achem paragem, aonde possão parar. Nas passagens d'alguns rios, um dos que guião a boiada, pondo uma armação de boi na cabeça, e nadando, mostra ás rezes o vão, por onde hão de passar.

Quem quer que entrega a sua boiada ao passador, para que a leve das Jacoabinas v. g. até a Capoame, que é jornada de quinze, ou dezaseis até dezasete dias, lhe dá por paga do seu trabalho um cruzado por cada cabeça da dita boiada: e este corre com os gastos dos tangedores e guias; e tira da mesma boiada a matalotagem da jornada. De sorte que, se a boiada constar de duzentas cabeças de gado, dão-se-lhe outros tantos cruzados, se com todas chegar ao lugar destinado. Porém se no caminho algumas fugirem, tantos cruzados se diminuem, quantas são as rezes que faltão. Aos Indios, que das Jacoabinas vem para Capoame, se dão quatro até cinco mil réis: e ao homem que com seu cavallo guia a boiada, oito mil réis. Sendo as distancias maiores, cresce proporcionadamente a paga de todos. E por isso, do Rio de S. Francisco acima vindo para Capoame, alguns dos que tomão à sua conta trazer boiadas alhêas querem seis ou sete tostões por cada cabeça, e mais se fôr maior a distancia.

Huma rez ordinariamente se vende na Bahia por quatro ou cinco mil réis: os bois mansos, por sete para oito mil réis. Nas Jacoabinas vende-se uma rez por dous mil e quinhentos até tres mil réis. Porém nos curraes do Rio de S. Francisco, os que tem maior conveniencia de venderem o gado para as Minas, o vendem na porteira do curral pelo mesmo preço, que se vende na cidade. E o que temos dito até aqui das boiadas da Bahia, se deve tambem entender com pouca differença das boiadas de Pernambuco e do Rio de Janeiro.

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