Primeira Parte - Livro Terceiro - Capítulo VIII: De varias castas de açúcar, que separadamente se encaixão: marcas das caixas, e sua condução ao trapiche
De varias castas de açúcar, que separadamente se encaixão: marcas das caixas, e sua condução ao trapiche.
Antes de marcar as caixas, é necessario fallar de varias castas de açúcar, que separadamente se encaixão; porque tambem nesta droga há sua nobreza, há casta vil, há mistura. Há primeiramente açúcar branco, e mascavado; o branco toma este nome da côr que tem, e muito se louva, e estima no açúcar, mais admiravel, por quanto se lhe comunica do barro. O mascavado de côr parda é o que se tira do fundo das formas, a que chamam pés, ou cabuchos. Do branco há fino, há redondo, e há baixo, e todos são assucares machos. O fino é mais alvo, mais fechado, e de maior peso, e tal é ordinariamente a primeira parte, que chamam cara da fôrma. O redondo é algum tanto menos alvo, e menos fechado, e tal é comummente o da segunda parte da fôrma: e digo comummente; porque não é esta regra infallivel, podendo acontecer, que a cara de algumas formas seja menos alva, e menos fechada, que a segunda parte da outra fôrma. O baixo é ainda menos alvo, e quase trigueiro na côr: e ainda que seja bem fechado e forte, comtudo por ter menos alvura, chama-se baixo, ou inferior.
Além destas tres castas de branco, há outro, que chamam branco batido feito do mel, que escorreu das formas do macho na casa de purgar, cozido, e batido outra vez; e saíe ás vezes tão alvo e forte, como o macho. E assim como há mascavado macho, que é o pé das formas do branco batido. O que pinga das formas do macho, quando se purga, chama-se mel, e o que escorre do batido branco, chama-se remel. Do mel huns fazem aguardente estillando-o: outros o tornão a cozer, para fazerem batidos, e outros o vendem a panellas aos que o estillão, ou cozem: e o mesmo digo do remel.
Vista a diversidade dos assucares, segue-se fallar das marcas, que se hão de pôr com a mesma distincção nas caixas. Marcão-se as caixas com ferro ardente, ou com tinta: e tres são as marcas que há de levar cada caixa, a saber; a das arrobas, a do engenho, e a do senhor, ou mercador, por cuja conta se embarca. A marca de fogo do numero das arrobas se põe em cima na cabeça da caixa, junto ao tampo, começando do canto da banda direita, de tal sorte que abarque juntamente a cabeça da caixa, e o tampo. E isto se faz para que, se depois abrirem a caixa, se conheça mais facilmente pelas partes da marca, que estão na cabeça, e não correspondem ás outras partes, que estão na borda do tampo.
A marca do engenho, tambem de fogo, se põe na mesma testa da caixa, junto ao fundo, no canto da banda direita; para que se possão averiguar as faltas, que poderião haver no encaixamento do açúcar. Porque assim como ás vezes nas pipas de breu, que vem de Portugal, se achão pedras breadas, e nas peças de pano de linho fino por fóra, no meio se acha pano de estopa, ou menor numero de varas, que as que apontão na face da peça: assim se poderião marcar nas caixas menos arrobas das que se apontão na marca; e, no meio da caixa, açúcar mascavado por branco, como tem já acontecido por culpa de algum caixeiro infiel.
A marca do senhor do açúcar, ou do mercador, por cuja conta se embarca, se fôr de fogo, se põe no meio da dita testa da caixa, e, se não fôr de fogo, põe-se no mesmo lugar com tinta o seu nome; o qual se poderá tirar com uma enxó, quando se vender a caixa a outro mercador, pondo na dita parte o nome de quem a comprou.
Leva a marca do branco macho um só B., o branco batido dous B. B., o mascavado macho um M., o mascavado batido um M., e um B. A marca verbi gratiâ do engenho de Sergipe do Conde leva um S., da Pitanga um P. E., a marca verbi gratiâ do Collegio da Companhia de Jezus leva uma cruz dentro de um circulo desta figura .
Nos engenhos à beira-mar, levão-se as caixas ao porto desta sorte. Com rodos e espeques, passão uma a traz de outra da casa da caixaria para uma carreta, feita para isso mesmo mais baixa; e sobre esta se leva cada caixa até ao porto, puxando pelas cordas os negros de quem a manda embarcar por sua conta.
Dos engenhos pela terra dentro, vem cada caixa sobre um carro com tres, ou quatro juntas de bois, conforme as lamas, que hão de vencer: e nisto custa caro o descuido; porque por não as trazerem no tempo do verão, depois no inverno estafão-se, e matão-se os bois.
Do porto passa sobre taboas grossas a pique para o barco; e, ao entrar, hão de ter mão nella com socairo, para que não caia de pancada, e padeça algum detrimento. No barco se hão de arrumar as caixas muito bem, para que vão seguras, nem se mettão mais, antes menos, das que o barco póde receber, e levar: e seja forte, e bem velejado, e com arrais pratico das corôas, e pedras, e com marinheiros não aturdisados de aguardente, saíindo com bom tempo e maré.
Do engenho até o trapiche, ou até a náo em que se embarca, paga cada caixa, que vem por mar, uma pataca de frete. Ao entrar, e saíir do trapiche, meia pataca. No primeiro mez, quer começado só, quer acabado, ainda que não fossem mais do que dous dias, paga dous vintens: nos outros mezes seguintes, um vintem cada mez. E se o trapicheiro, ou o caixeiro do trapiche vender por comissão do dono algum açúcar, ganha uma pataca por cada caixa.
E com isto temos levado o açúcar do canavial, aonde nasce, até aos portos do Brasil, donde navega para Portugal, para se repartir por muitas cidades da Europa. Falta agora dizer alguma cousa dos preços antigos, e modernos dele, e das causas, porque são hoje tão excessivos.