Segunda Parte - Capítulo VIII: Do uso moderado do tabaco para a saude, e da demasia nociva à mesma saude, de qualquer modo que se use dele
Do uso moderado do tabaco para a saude, e da demasia nociva à mesma saude, de qualquer modo que se use dele.
Os que são demasiadamente affeiçoados ao tabaco, o chamam herva santa: nem há epitheto de valor que lhe não dêem, para defender o excesso digno de reprehensão, e de nota. Homens há, que parece não podem viver sem este quinto elemento; cachimbando a qualquer hora em casa, e nos cachimbos; mascando as suas folhas, usando de torcidas, e enchendo os narizes deste pó. E esta demasia não sómente vive nos maritimos, e nos trabalhadores de qualquer casta, forros, e escravos, os quaes estão persuadidos, que só com o tabaco hão de ter alento, e vigor; mas tambem em muitas pessoas nobres, e ociosas; nos soldados dentro do corpo da guarda; e em não poucos ecclesiasticos, clerigos, e religiosos: na opinião das quaes toda a demasia se defende, ainda quando se vê manifestamente, que se não usa por mesinha, mas por dar gosto a um excessivo, e mal habituado prurito. Eu, que de nenhum modo uso dele, ouvi dizer, que o fumo do cachimbo, bebido pela manhã em jejum moderadamente, desseca as humidades do estomago; ajuda para a digestão, e não menos para a evacuação ordinaria; alivia ao peito, que padece fluxão asmatica, e diminue a dôr insuportavel dos dentes.
O masca-lo não é tão sadio: porém assim como fumado pela manhã em jejum moderadamente, serve para dessecar a abundancia dos humores do estomago, assim o uso immoderado o relaxa: e pela continuação obra menos, altera o gosto; faz grave o bafo, negros os dentes, e deixa os beiços immundos.
Usão alguns de torcidas dentro dos narizes, para purgar por esta via a cabeça, e para divertir o estillicidio, que vai a cahir nas gengivas, e causa dor de dentes: e postas pela manhã, e à noite, não deixão de ser de proveito. Só se encommenda aos que usão delas, o evitarem a indecencia, que causa o apparecer com ellas fora dos narizes, e com uma gota de estillicidio sempre manente, que suja a barba, e causa nojo a quem com elles conversa.
Sendo o tabaco em pó o mais usado, é certamente o menos sadio: assim pela demasia, com que se toma, que passa de mesinha a ser vicio; como por impedir o mesmo costume excessivo os bons efeitos, que se pretendem, que talvez causaria, se o uso fosse mais moderado. Deixando pois de reparar esta viciosa superfluidade, só lembro quanto dous summos Pontifices, Urbano VIII, e Innocencio X, extranhárão usar dele nas igrejas, pela grande indecencia, que reparárão, e julgárão ter este intoleravel abuso, digno de se notar, e estranhar nos seculares e mais nos ecclesiasticos pouco acautelados, ainda quando assistem no côro aos officios divinos; e muito mais nos religiosos, que devem dar exemplo a todos (e maiormente nos lugares sagrados) de gravidade, e modestia. E por isso ambos os sobreditos pontifices chegárão a prohibi-lo com excommunhão maior: o primeiro, com um breve de 30 de janeiro do ano de 1642, o prohibio na igreja de S. Pedro em Roma, e no adro, e alpendre do dito templo: o segundo com outro breve, debaixo da mesma pena, aos 8 de janeiro de 1650, nas igrejas de todo um arcebispado, em que se ia introduzindo esta demasia com escandalo. E em algumas religiões mais observantes se prohibio o uso publico do tabaco nas igrejas, com privação de voz activa e passiva, isto é, sob pena de não poderem ser eleitos os transgressores, nem poderem escolher a outros para superiores, e para outros officios da ordem.