Terceira Parte - Capítulo IV: Do rendimento dos ribeiros: e das diversas qualidades de ouro, que deles se tira Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas · Capítulo 56 de 75
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Terceira Parte - Capítulo IV: Do rendimento dos ribeiros: e das diversas qualidades de ouro, que deles se tira

Do rendimento dos ribeiros: e das diversas qualidades de ouro, que deles se tira.

Das minas geraes dos Cataguas as milhores, e de maior rendimento forão até agora a do ribeiro d'Ouro Preto; a do ribeiro de N. S. do Carmo: e a do ribeiro de Bento Rodrigues, do qual em pouco mais de cinco braças de terra se tirárão cinco arrobas de ouro. Tambem o rio das Velhas é muito abundante de ouro, assim pelas margens, como pelas ilhas, que tem, e pela madre, ou veio d'agua; e dele se tem tirado, e tira ainda em quantidade abundante.

Chamam os Paulistas ribeiro de bom rendimento, o que dá em cada bateada duas oitavas de ouro. Porém assim como há bateadas de meia oitava, e de meia pataca; assim há tambem bateadas de tres e quatro, cinco, oito, dez, quinze, vinte, e trinta oitavas, e mais: e isto não poucas vezes succedeu na do ribeirão, na do Ouro Preto, na de Bento Rodrigues, e na do rio das Velhas.

Os grãos de maior peso, que se tirárão, forão um de noventa e cinco oitavas; outro de tres libras, que repartirão entre si tres pessoas com um machado, outro que passou de cento e cincoenta oitavas, em forma de uma lingua de boi, que se mandou ao governador da nova colonia: e outro maior de seis libras.

Quanto ás qualidades diversas de ouro: sabe-se, que o ouro, a quem chamam preto, por ter na superficie uma côr semelhante à do aço, antes de ir ao fogo, provando-se com o dente logo apparece amarello vivo, gemmado, e é o mais fino, porque chega quase a vinte e tres quilates, e quando se lhe põe o cunho na fundição, faz greta na barreta, como se arrebentasse de todas as partes; e por dentro dá taes reflexos, que parecem raios do sol. O do ribeirão é mais miudo, e mais polme, e compete na bondade como ouro preto, por chegar a vinte e dous quilates. O ouro do ribeiro de Bento Rodrigues, posto que seja mais grosso, e palpavel, e bem amarello, comtudo não tem a perfeição do ouro preto, e do ouro do ribeirão, mas quando muito, chega a vinte quilates. O ouro do ribeiro do Campo, e o do ribeiro de N. S. do Monserrate é grosso, e muito amarello, e tem vinte e um quilates e meio. O ouro do rio das Velhas é finissimo, e chega a vinte e dous quilates. O ouro finalmente do ribeiro de Itatiaja, é de côr branca, como a prata, por não estar ainda bem formado, como dissemos acima, e deste se faz pouco caso, posto que alguns digão, que indo ao fogo ás vezes por mais formado, foi mostrando a côr amarella.

Houve ano, em que de todas estas minas, ou ribeiros se tirárão mais de cem arrobas de ouro; fóra o que se tirava, e tira escondidamente d'outros ribeiros, que os descobridores não manifestárão, para os não sujeitarem logo à repartição. E se os quintos d'El-Rei chegárão a dezesete, e a vinte arrobas, sonegando-se tanto ouro não quintado; bem se deixa ver, que o ouro, que cada ano se tira, sem encarecimento algum, passa de cem arrobas: e que nestes dez anos passados se tem tirado mais de mil arrobas. E se nos primeiros anos não chegárão a cem arrobas, nos outros certamente passárão. E continuando ao presente o rendimento com igual, e com maior abundancia, por razão do maior numero dos que se empregão em catar; só os quintos devidos a Sua Majestade se forão notavelmente diminuindo, ou por se divertir por outras partes o ouro em pó, ou por não ir à casa dos quintos, ou por usarem alguns de cunhos falsos, com engano mais detestavel. Mas ainda assim não deixou Sua Majestade de ter grande lucro na casa da moeda do Rio de Janeiro: porque comprando o ouro a doze tostões a oitava, e batendo-se em dous anos tres milhões de moeda nacional, e provincial de ouro: foi lucrando seiscentos mil cruzados de avanço.

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