Segunda Parte - Capítulo I: Como se começou a tratar no Brasil da planta do tabaco: e a que estimação tem chegado
Como se começou a tratar no Brasil da planta do tabaco: e a que estimação tem chegado.
Se o açúcar do Brasil o tem dado a conhecer, a todos os reinos, e provincias da Europa; o tabaco o tem feito muito mais afamado em todas as quatro partes do mundo: em as quaes hoje tanto se deseja, e com tantas diligencias, e por qualquer via se procura. Há pouco mais de cem anos, que esta folha se começou a plantar, e beneficiar na Bahia: e vendo o primeiro, que a plantou, o lucro, posto que moderado, que então lhe dérão umas poucas arrobas, mandadas com pequena esperança de algum retorno a Lisboa, animou-se a plantar mais, não tanto por cobiça de negociante, quanto por se lhe pedir dos seus correspondentes, e amigos, que a repartião por preço accommodado, porém jamais levantado. Até que imitado dos vizinhos, que com ambição a plantárão, e enviárão em maior quantidade: e depois de grande parte dos moradores dos campos, que chamam da Cachoeira, e de outros do sertão da Bahia: passou pouco a pouco a ser um dos generos de maior estimação, que hoje saíe desta America Meridional para o reino de Portugal, e para os outros reinos, e republicas de nações extranhas. E desta sorte uma folha de antes desprezada, e quase desconhecida, tem dado, e dá actualmente grandes cabedaes aos moradores do Brasil, e incriveis emolumentos aos erarios dos principes.
Desta pois fallaremos agora, mostrando primeiramente como se semea, e planta: como se alimpa, e colhe; como se beneficia, e cura: como se enrola, e despacha na alfandega. Segundo: como se pisa, e se lhe dá o cheiro: qual é melhor para se mascar; qual para o caximbo, e qual para se pizar: e se em granido, ou em pó. Terceiro: do uso moderado dele para a saude, e do immoderado, e vicioso na quantidade, no lugar, e no tempo. Quarto: dos rolos, que cada ano ordinariamente se embarcão do Brasil para Portugal: do valor na Bahia, e no Reino: das penas para se não mandar, ou introduzir sem despacho: e dos artificios para se passar de contrabando, não obstante as vigilancias dos guardas, assim dentro, como fóra de Portugal. E finalmente do rendimento deste contracto, e da repartição do tabaco por todas as quatro partes do mundo. Tudo conforme as noticias certas que procurei, e me dérão os mais intelligentes, e mais versados nesta lavra; aos quaes, no que direi, me reporto.