Terceira Parte - Capítulo XV: Noticias para se conhecerem as minas de prata Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas · Capítulo 67 de 75
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Terceira Parte - Capítulo XV: Noticias para se conhecerem as minas de prata

Noticias para se conhecerem as minas de prata.

Primeiramente, pela maior parte se achão as minas de prata em terras vermelhas e brancas, limpas de arvores, e de poucas hervas: e sempre se hão de buscar no cume dos outeiros, ou serros, que é aonde arrebentão as betas a modo de paredes velhas, que correm sempre direitas; ou a modo de alicerces, que estão debaixo da terra; ou como um marachão de muitas pedras unidas em roda: e se se achão muito juntas, busque-se sempre a mais larga, ou a que está mais no meio do outeiro. Em havendo cavado uma vara, ou braça seguindo sempre a beta, se póde fazer experiencia dos generos de metal, que tiver; porque há betas, que tem cinco ou seis generos de pedras, a que chamam os Castelhanos metaes. As ditas betas costumão ter de largo uma braça, ou quatro palmos, ou tres, ou dois, ou um. Pela maior parte entre a beta se acha terra de varias côres; e ás vezes tudo é pedra maciça; e então costuma ser negra, e branca a dita pedra a modo de seixos: e, quando há terra entre a pedra, pedra e terra, tudo tem prata. Esta beta ordinariamente está metida entre penhasco agreste; e desde a superficie da terra até ao fundo, sempre vai encaixonada.

A pedra é de varias côres, differente das outras, e muito alegre: branca, negra a modo de maracaxeta que se lança nas cartas, côr de ouro amarella, azul, esverdeada, parda, de côr de figado, laranjada, leonada; e ordinariamente tem oucos onde se costuma crear prata como em cubellos. Outras pedras são todas prateadas; e outras com veias de prata: e só estas se conhecem logo que tem prata. Porém as acima nomeadas só quem tem muita experiencia, ou quem a souber fazer, virá em conhecimento que a tem. Tambem as vezes se acha uma maracaxeta negra, a qual toda tem prata: e de ordinario uma libra desta maracaxeta rende duas onças de prata. Pela maior parte na beta de prata, que junto a ella se não acha maracaxeta branca, ou amarella; ou em pedras agrestes, ou em terra.

A todas estas pedras chamam os castelhanos, metaes: e a algumas dão estes nomes. Metal cobriso: e é uma pedra que tira a verde, mui pesada, salgada ao gosto, estica, e frange os beiços pelo acre do antimonio, e vitriolo, que tem misturado. Metal polvorilho; e é uma pedra um tanto amarella, e de mais lei, que o acima, e as vezes para o fundo costuma dar em prata massiça. Metal negrilho da primeira qualidade, é pedra negra com resplandores de limaduras grossas de ferro: é de pouca lei; porém, porque saíe misturado com o metal negro da segunda qualidade, que é com resplandores de arêa miuda, e com o da terceira qualidade, que é aquelle que feito pó, a sua arêa não tem resplandor algum; é o melhor, e deve-se fazer caso dele. Metal rocicler é uma pedra negra, como metal negrilho, melhor d'arêa, como pó escuro sem resplandor: e se conhece ser rocicler, em que lançando agua sobre a pedra, se lhe dá com uma faca, ou chave, como quem a móe, e faz um modo de barro, como ensanguentado; e quanto mais corado o barro, tanto melhor é o rocicler: e é metal de muita riqueza e facil de se tirar: e dando em parte que haja desague ao serro, não há mais que pedir: dá em caixa de barro como lama, e pedrinhas de todas as côres.

Metal paco é tambem como o rocicler, o qual é uma pedra quase parda, como o panno pardo, ou defumado, e mui pesada. Seria extender-se muito, se se houvesse de pôr seus generos de caixa, de qualidade, e beneficios; porque é, e se faz de muitos modos segundo os generos dos países. Porém, sendo a pedra sem gosto algum ao mastigar-se pizada, será de boa lei para a fundição: e este genero de metal e o negrilho são os mais abundantes nas minas, sem se perderem, nem mudarem; e, quando muito, mudão de pacos a negrilhos, e de negrilhos a pacos. Metal plomo ronco, é uma de pedra côr de chumbo, porém mais escura, mui dura e pesada. É riqueza de fundição: e desta pedra affirmão alguns, que fazem bolas de bolear as indias charruas, que vizinhão, ou vizinhavão com os portuguezes da nova Colonia do Sacramento.

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