Ás de Paus
— Povo de Novanação, acostumado a viver sob o julgo de déspotas. Eu sou a pessoa a quem o governo chama de Ás de Paus. Não tenham medo. Estou aqui por vocês! Luto pelos trezentos milhões e duzentos mil habitantes do nosso país. Ele não pertence ao opressor marechal Zunik. Ele pertence a nós, sua gente, que trabalha arduamente em suas terras verdejantes... Sim, verdejantes! Elas voltarão a ser verdejantes, e batalharei, enquanto respirar, para que isso aconteça. O nome pelo qual a nossa pátria amada foi rebatizada não é a única coisa fraca com que temos de conviver. O marechal também é! Ele não é o representante de uma família enviada por Deus como faz crer; ele é humano como qualquer homem do mundo, ele sangra, ele sofre, ele mente e ele os escraviza. Tenham esperanças e resistam. Sobrevivam. A liberdade chegará.
O coronel Dimitri Novakohut apertou o botão de pausar no controle remoto com tanta força que o objeto estalou de uma maneira alarmante, possivelmente não voltaria a funcionar, e a tela paralisou na imagem de um A atrás do símbolo de Paus alado.
— Essa é a transmissão completa, senhor. Foi curta, por isso não tivemos tempo de bloquear — ele explicou ao inexpressivo marechal Alexander Zunik Novakohut.
— Desligue esta televisão!
— Pouca gente tem aparelho de televisão, creio que a mensagem não chegou a muitos da população.
O marechal andou pela sala e parou em frente à janela embaçada pela sujeira trazida pela primeira chuva a alcançar a capital. A voz, distorcida, da transmissão ecoava em seus ouvidos, a imagem do homem mascarado aparecia em sua retina cada vez que piscava.
— Houve transmissão por rádio também — ele respondeu. — Foi onde eu ouvi.
— Eu já enviei soldados para as ruas e o Leon se comunicou com cada estado. Qualquer sinal de rebelião será punida.
— O recado não foi só para o povo, foi para nós.
— E será respondido...
— Como? — berrou Zunik, virando-se para o coronel, seu rosto já não estava mais inexpressivo, estava em fúria. — Responda como, Dimitri!
— A nossa inteligência está trabalhando, sem descanso, para encontrar o maldito Ás de Paus...
— Não pronuncie esse nome na minha presença.
— Peço desculpas, senhor.
E Zunik se aproximou do coronel, lento e ameaçador como uma cobra. Seu olhar parecia perfurar o crânio do homem.
— Isso só será respondido, à altura, quando ele for capturado e morto. Nada me dará mais prazer do que vê-lo morrer, devagar, em uma transmissão, ao vivo, para este povo ingrato.
— Nós o encontraremos.
— Mais uma vez, me diga como. A inteligência não consegue encontrar nem o rastro dele, me parece que o verme está sempre muito à frente dos nossos, tão capazes, soldados. E se diverte as nossas custas.
— Nós identificamos a origem do sinal, meus homens estão indo para o local agora.
— E acha que ele estará lá, esperando?
Dimitri deu um passo para trás. — Eu... Eu espero que haja pistas.
— Saia daqui! E só volte quando tiver certeza de que nada vai ofuscar a abertura da fábrica, o mundo estará observando.
Dimitri correu para a central de controle tecnológico, um andar abaixo, e parou em frente ao major Edmund Zinekolski Júnior, responsável pela área de tecnologia e ciência do exército.
— Major Zinekolski!
O rapaz se virou rápido e colocou-se em posição de sentido.
— Senhor!
— Como estão as buscas?
— Ainda não houve comunicação.
— Como não houve comunicação? — trovejou Dimitri. — O destacamento teve tempo de sobra para ir, verificar e se comunicar. Já deveriam estar voltando, inclusive.
— Talvez não tenham feito contato porque os sinais de comunicação estão oscilando, como informei em meu relatório, e o senhor ainda não me autorizou a renovar o sistema. Eles devem estar tentando e não conseguem.
— Foi isso que eu perguntei?
Dimitri não deu qualquer atenção ao relatório e à nenhum aviso do major de que as linhas de comunicação estavam apresentando novos defeitos, nem sequer leu o último relatório porque eles o irritavam, já que foi o próprio Dimitri quem estabeleceu o sistema alternativo que estavam usando, por isso não via vantagem em uma averiguação nos sinais de comunicação, ele sabia que o sistema era antigo e por isso mesmo considerava impossível de ser invadido, mas se Edmund o estudasse, certamente acharia um meio de melhorar, e o coronel perderia o reconhecimento que obteve por oferecer a solução para aquele problema.
— Mas, senhor, temo que haja outra tentativa de invasão a nossas comunicações, houve falhas demais e isso não é normal. Eu tenho mantido o funcionamento como posso, mas sem sua autorização e algum recurso, não há como investigar adequadamente.
— Você disse isso umas mil vezes e tenho certeza de que não preciso repetir que você não escolhe suas prioridades.
— Peço que reconsidere, coronel. Na última vez que avisei, ninguém me ouviu e as nossas comunicações foram irreversivelmente derrubadas, se perdermos a que temos agora, ficaremos sem nada. Não acho que podemos ressuscitar a comunicação via pombo correio e esperar que não sejamos dominados até escolares de um país subdesenvolvido.
— Foi culpa sua e de sua supervalorizada equipe que perdemos, se fossem bons como pensam, ninguém invadiria os nossos sistemas. Aliás, você não é o menino prodígio do exército? Como ainda não fez uma coisa tão simples como encontrar um meio de comunicação alternativo? Eu precisei intervir para resolver o seu problema.
Edmund nunca quis tanto ser insubordinado, nunca desejou tanto fazer algo como dizer ao coronel que ele não resolveu nada, que estava piorando tudo, atrasando tudo, e que aqueles rádios velhos como fósseis que resgatou dos depósitos e garantiu a inviolabilidade para o marechal, nem poderiam ser classificados como opção para as comunicações, quanto mais, solução. Mas respirou profundamente para impedir sua língua de falar o que não devia e obter paciência.
— Senhor... — Edmund disse devagar. — Não importa quanta competência tenhamos, com recursos tão escassos somos incapazes de obter êxito em qualquer empreendimento.
— Ou você que não sabe mexer com o sistema atual.
— É um sistema muito simples, senhor.
Aquelas palavras ofenderam Dimitri mais do que qualquer outra, pois ele agigantou o seu empenho no estabelecimento do projeto e enfatizou o quão complexo era para valorizar os próprios esforços diante do tio. Ouvir dizer que era simples, foi demais para seus ouvidos.
— Descubra onde está o nosso destacamento, agora!
— Senhor, coronel, com todo respeito, mas precisamos lembrar também que o terreno para onde foram enviados é difícil, tem pouca visibilidade nessa chuva e os soldados são humanos, não máquinas. Pode ser até que tenham boas notícias e que a demora seja por terem encontrado evidências importantes.
— Para o seu bem, espero que sim! Na próxima vez, tenha respostas para me dar, não lamentações.
Dimitri saiu, enlouquecido, não poderia continuar desprovido de informações que satisfizessem ao marechal e nada funcionava como ele queria. Aqueles dias estavam estressantes e só viu uma solução cabível: descansar em seu luxuoso escritório, pouco o usava porque acreditava que seria temporário, por isso não investiu nele. Trouxe duas obras de arte, para ostentar suas riquezas, uma fotografia dele com a esposa, para passar a imagem de homem de família, e material de papelaria de marcas inalcançáveis para aqueles de patentes inferiores. Quanto mais pudesse impor a sua superioridade aos subalternos melhor para tornar o seu dia feliz. Trancou-se na sala, retirou o telefone do gancho, o casaco e os sapatos, depois jogou-se pesado no estofado macio. Só entrava ali para dormir e costumava acordar renovado já no horário do expediente terminar.
Edmund tentou contato com o pelotão desaparecido por todas as vias conhecidas. Parou, pensando em criar uma nova, mas descartou a ideia porque a tentativa deixaria o sistema ainda mais vulnerável.
No dia seguinte, voltou cedo, preocupado. E, após as atualizações dos fracassados esforços noturnos de comunicação, tomou outra decisão.
— Teremos que usar os drones de reconhecimento — ele falou a Henry Wolsh, seu assistente de maior confiança.
— Mas ainda não levamos nenhum deles tão longe — o rapaz respondeu. — São tão pequenos e leves que seria mais prudente usar os drones de ataque agora e deixar os de reconhecimento para testar em terreno mais próximo.
— Teremos sérios problemas se usarmos os drones de ataque sem autorização.
— Teremos problemas se usarmos esses também.
— Esses temos permissão irrestrita para testes, é só eu dizer que estamos aproveitando a chuva para testar, além disso os drones de ataque não têm sistema de mapeamento e quero mapear detalhadamente os caminhos em torno para registrar cada mínima atividade. Se houver alguém naquela região, eles irão sinalizar. Não podemos arriscar perder mais homens em outra missão.
— Está bem — disse Wolsh, contrariado. — Vou conectá-los aos drones e aviso quando estiverem prontos.
— Estarei com o terminal de controle pronto também. Obrigado.
O rapaz saiu e Edmund se debruçou sobre os braços. Estava cansado e irritado por Dimitri não lhe dar liberdade para desempenhar suas funções e, ao mesmo tempo, exigir resoluções eficientes; por ser obrigado a trabalhar com ele e não mais com o general Handersen, um homem por quem preservava profunda admiração, e acima de tudo, pela falta de atenção que seus avisos recebiam. Não entendia como Dimitri podia ser tão indiferente a prevenção se o Ás de Paus havia se tornado uma ameaça real. Ele ouviu incontáveis histórias sobre a má vontade que o coronel tinha de trabalhar, mas se recusava a acreditar que Dimitri arriscaria tanto apenas por preguiça de cumprir o que era de sua competência.
Lidar com Dimitri vinha se tornando um desafio maior do que podia suportar. Mas não podia perder o dia remoendo essa amargura e foi para a sala de controle, conectou o sistema operacional, deixou os demais rapazes cuidando da monitoria das câmeras dos drones e seguiu para o hangar. Atuaria por lá; gostava do lugar porque ficava longe de Dimitri e da possibilidade de ele entrar, gritando, sempre que quisesse. O hangar ficava ali, dentro do primeiro batalhão das forças armadas, mas a sete quilômetros de distância da sede, ele sabia que o coronel não se prestaria a ir até lá, por isso o escolheu como futura base de tecnologia do exército.
Quando Edmund chegou, tudo estava pronto como o prometido, e ele precisou apenas sentar-se em frente aos controles e começar. Projetou os drones para ultrapassarem as fronteiras do país sem serem detectados por potenciais inimigos, então, realmente aproveitaria para avaliar os limites geográficos de funcionamento do aparelho.
— Não é melhor mandar só um? — perguntou Wolsh. — Será só uma observação, se falhar, não comprometemos outro.
— Preciso ser rápido, com dois dá para abranger uma extensão maior em metade do tempo e trazê-los antes de alguém perceber que eu os usei. Prefiro dar explicações depois a parar, na metade, para isso.
— Está bem. O seis e o oito são os que apresentam melhor funcionamento.
Edmund os acionou e imediatamente os números correspondentes acenderam na tela do monitor. Os aparelhos responderam aos seu toque nos controles e subiram devagar com um discreto zumbido, ultra silencioso comparados aos adquiridos pelo exército até então. Pequenas máquinas de superfície reflexiva móvel para que refletisse o ambiente ao redor e passasse tão despercebido quanto fosse possível.
Foi com satisfação que Edmund guiou um deles para fora e Wolsh guiou o outro. Os viram ganhar altura pelas câmeras, em linha reta, invisível contra o céu nublado e com ausência de qualquer trepidação, deixando claro a disposição circular da cidade, apesar da chuva.
A região central ficou nítida na tela, revelando o brilho metálico dos edifícios governamentais e empresariais sob a chuva, como o núcleo resplandecente de uma célula revestida por três camadas. A suntuosa primeira camada, o circundava como um anel precioso, repleto de moradias dos importantes membros da sociedade. Em seguida, o segundo bairro, outro anel, que abraçava o primeiro, ocupado exclusivamente pelos trabalhadores e soldados que prestavam serviço aos moradores do primeiro anel, ao próprio governo, e movimentavam o setor industrial, todo em cinza variando apenas pelos seus diversos tons insossos.
O terceiro anel, um pouco mais vasto, estava quase invisível pela cortina da água que descia constante, mas ainda dava para distinguir o tom amarronzado do bairro, era formado por trabalhadores braçais, alojados em zona estratégica para que ficassem próximos das fábricas, frigoríficos e abatedouros, nos quais trabalhavam, ao mesmo tempo em que ficavam distantes daqueles que compunham a elite, para que não os incomodassem com suas presenças. Perdiam pouco, em condição de vida, para os ocupantes do, nunca mencionado, quarto e último anel, agora oculto àquela altitude do equipamento.
O major já pensava em fazer o teste nos drones em um clima como aquele, então o girou para verificar o alcance das câmeras sob a chuva, parou alguns segundos quando ela focalizou a futura sede do governo em seus estágios finais de construção, depois preparou-se para enviar o aparelho ao destino que desejava, livres de controle humano. Eles dispararam, rápidos como nenhum outro que testaram. Edmund e Wolsh observaram atentos o trajeto escolhido como melhor pelo computador interno das máquinas.
— Estava louco para experimentar os controles manuais — confessou Edmund.
— Eu ainda não confio nos controles automáticos, dão muito erro.
— Quando chegar lá, voltamos para o manual, você vai para o norte e circula em sentido horário a dez mil pés, eu para o sul e circularei em anti-horário, a quinze mil pés, quero terminar isso o quanto antes.
Não levou vinte minutos para que os drones alcançassem à pedreira Cesno, a chuva tinha ficado para trás, e nem precisaram terminar o primeiro giro para que ambos notassem que não havia soldado algum ali.
— Isso não pode estar certo — observou Edmund, não existia sinais que indicassem a ida de um destacamento inteiro até o local.
— É bem estranho — comentou Wolsh. — Eu esperava que os sensores de movimento não pegassem muita coisa nesse aguaceiro, mas os de calor também não registraram nada desde os últimos quilômetros do terceiro anel.
— Talvez já tenham voltado. Vamos terminar a leitura e trazê-los manualmente, quero verificar a estrada para ter certeza de que os sensores não falharam.
— Não me parece que tem vestígios de que alguém passou por lá.
— Tive a mesma impressão. Analisaremos as gravações com mais calma depois.
Eles desaceleraram os veículos aéreos e retornaram, armazenando imagens do caminho por onde Dimitri informou que os soldados foram, não havia nada ali também e intencionavam fazê-los voar pelos arredores da cidade, na tentativa de descobrir algo promissor, mas a chuva se intensificou à medida que se aproximaram, impossibilitando a visão da superfície, e não quiseram adicionar riscos aos equipamentos novos.
No início da tarde, então, Wolsh e Edmund pousaram os drones novamente no interior do hangar, Edmund salvou as informações da viagem em seu Palm Toot — o computador portátil do qual nunca se separava — e correu, empolgado, para o galpão junto de seu assistente. Eles haviam feito poucas anotações sobre mudanças necessárias, o que pontuava o sucesso do novo equipamento, mesmo assim queriam testar todos os outros ainda naquele dia, mas Edmund não veria os testes, precisava voltar e colocar a equipe para ajudá-lo a estudar as imagens que fizeram. Quando entregasse o relatório, queria que o serviço estivesse perfeito.
Edmund deixou os seus técnicos comemorando e voltou rápido para a sede do governo, odiava ter que ficar de um a lugar a outro, por sua vontade, montaria todos os laboratórios ali, em volta do hangar, mas enquanto isso não acontecesse, teria de continuar fazendo diversas viagens durante o dia e perdendo tempo precioso em cada uma delas.
A semana avançou e Dimitri andava intratável por conta da abertura da nova fábrica de armamento pessoal, ele queria agradar Zunik a todo custo e Dimitri faria qualquer coisa para cair diariamente nas graças dele. Por esse motivo aceitou entrevistar a nova professora, uma incumbência que considerou muito abaixo de seu cargo, ainda mais se tratando do absurdo de ser uma mulher. Mas o tio vinha se preocupando com a imagem projetada na comunidade internacional nos últimos tempos e ela foi escolhida como candidata para retratar a figura que ajudaria nessa imagem.
No final, acabou ficando curioso para conhecer a filha do general Jesus Honório Koch, sobre como seria a pessoa que supostamente era a mais qualificada para aquilo que o marechal precisava e o que a tornava tão especial para merecer o cargo de professora, posição de mais alto prestígio entre os não militares dentro do território nacional.
Ele entendeu assim que a viu, e as insígnias que ela trazia sobre o peito, sobrepujando a militar com brilho e beleza: broches no formato de penas, em ouro, com tons diferentes para simbolizar cada títulos acadêmico. Zunik nunca fez segredo do quanto queria ter um profissional com aqueles atributos sob seu comando. O símbolo exclusivo dos educadores, ninguém tinha sequer uma das almejadas penas em toda Novanação, sete era uma afronta, e retorceu os lábios diante de tamanha ostentação, mas ela fez a reverência exclusiva do marechal para ele e o desagrado diminuiu.
— Saiba, senhorita...? — perguntou sem sequer dispensá-la da posição de respeito. Ela saiu assim mesmo.
— Verbena Koch, senhor — respondeu a moça.
— Saiba, senhorita Koch, que não aprovo a sua presença aqui. Mulheres têm que se ater às funções femininas em Novanação, e isso não inclui diplomas, mesmo os trazidos de fora.
A professora, em pé, tensa, diante do temido coronel Dimitri Novakohut, sentado altivo atrás de uma pesada mesa de mogno, mantinha os ombros para baixo e o olhar humilde, não encarava o homem à sua frente. Ele, por outro lado a analisava, desgostoso, desdenhoso e cruel.
— Nesse caso peço suas desculpas, senhor. Recebi a ordem do marechal para vir e apenas a obedeci — respondeu Verbena.
— Por que acha que merece a vaga?
— Sou capacitada para o ofício, meu currículo supera os de meus concorrentes, sou também militar e, por isso, de maior confiança, jamais faria o que o professor anterior fez.
— Sabe o que o professor fez para perder o cargo?
— Sei. O meu sobrenome me oferece o privilégio de receber notícias precisas.
— Então também tem conhecimento sobre o trabalho da Divisão de Repressão a Crimes contra a Ordem?
— Tenho, sim senhor.
Dimitri deixou escapar um sorriso. — Que bom! Assim não preciso explicar que eles têm permissão para executar quem interfere na ordem correta das coisas e você está longe de ser a ordem correta, portanto não terá a sorte de passar pelo julgamento do marechal como o professor teve, eles cuidarão de infrações suas e agirão a um deslize que tiver — ameaçou.
— Estou ciente disso, e aceitarei o meu fardo se cometer um erro.
Dimitri a estudou, ela ganhou alguns pontos em sua resposta, ainda assim ele não conseguia perdoar a cor de sua pele acobreada, os lábios grossos, os cabelos intensamente castanhos, em onda sobre os ombros, os olhos quase negros, os quadris largos e a cintura fina, visível mesmo sob a farda, as características de uma mistura genética que ele considerava repugnante, não índia como imaginou, apesar de nunca ter visto uma, nem negra, nem coisa alguma. Ele acreditou que a moça seria mais digna de estar em sua frente se correspondesse a apenas uma etnia, não a mistura de várias.
— O que você é, senhorita Koch? — perguntou genuinamente curioso.
— Me perdoe, vossa excelência, mas não compreendi essa pergunta.
Dimitri bufou com os olhos para o alto. — Me disseram que você era índia, mas acho que não é, depois me disseram que você era negra, mas isso você também não é. Então o que é?
— Nos Estados Unidos me chamam de latina.
— Eu sou latino! Você, com certeza, não é.
— Sou nascida aqui, meu senhor, na América Latina. Por isso o julgamento dos estadunidenses estava correto. Mas para que o senhor entenda melhor, minha mãe, pelo que sei, era cafuza: filha de uma pessoa indígena com uma pessoa negra. E eu sou a mistura dessa mulher com o meu pai.
Dimitri nunca ouviu a palavra “cafuza”, nunca sequer imaginou a mistura indígena com a negra, não deixou transparecer sua surpresa, mas a curiosidade se intensificou.
— E como se alistou em nosso exército.
— Da maneira tradicional, senhor.
— Mulheres não são permitidas no serviço militar e você não seria mesmo que fosse homem.
— Pessoas como eu eram permitidas na época do meu alistamento, principalmente em Vitorel.
— Hum! Uma das nossas colônias, rebatizada em memória do meu bisavô, Vitório Ismael Novakohut, por isso mesmo ninguém a teria aceitado se a vissem.
— Muitos, do meu tipo, foram recrutados para a proteção das fronteiras de Vitorel quando a extração de petróleo começou e, assim que a ordem de expansão do alistamento veio, meu pai exigiu que eu servisse para compensar a minha ascendência.
Dimitri não sabia daquilo, na ocasião ele era um adolescente mimado demais para ouvir falar sobre assuntos do gênero e não daria qualquer importância se ouvisse. Agora, porém, gostou de saber e, apesar de não aprovar Verbena como um soldado oficial, aceitou o motivo que a levou a ser um, e virou-se para a pintura de dois metros de altura a sua esquerda.
— Reconhece esta pintura? — ele perguntou e a encarou novamente.
— Sim, senhor. Mas não esperava vê-la aqui, pensei que estivesse na sala do general.
Verbena identificava muito bem a pintura, era um retrato do seu pai, feito por ela como presente, Dimitri é que desconhecia a informação.
— Logo eu serei general — ele respondeu.
— Que coisa maravilhosa, meus parabéns.
Ele desviou o olhar azedo do rosto dela e voltou-se ao quadro do antigo general.
— Ele foi o meu mentor, o homem mais condecorado e valoroso depois do marechal. Foi implacável com gente da sua classe, não entendo por que ele a adotou.
— Eu não sou adotada, senhor. Sou filha biológica dele como disse anteriormente, a mulher que me trouxe ao mundo o enganou e engravidou. Depois que nasci, ele a levou para onde devia ir, mas não pôde permitir que alguém, de seu próprio sangue, fosse criada entre imundos, as leis divinas não permitem que se dê as costas para os seus, e me criou da maneira correta, nos bons costumes e me ensinou qual é o meu lugar.
— E qual é o seu lugar?
— Abaixo de Deus, do marechal, dele e de você, senhor. Devo obediência e gratidão.
— Deve, de fato. E, para que nunca esqueça, você é adotada, sim. Não importa que o general tenha dado parte da sua genética a você, a partir do momento em que foi concebida desse jeito, você não é filha dele. Portanto, é adotada. Entendeu?
Verbena assentiu. — Como queira, vossa excelência.
Dimitri estava adorando ser chamado de “vossa excelência”, nunca o chamaram daquela maneira.
— Mesmo criada pelo general Koch, você nem estaria na minha sala se meu major não mostrasse dados irrefutáveis de que alguém do seu tipo e sexo é necessário agora.
— Eu serei digna dessa honra.
— Você será vigiada, não queremos que outros iguais a você pensem que podem ter o que você tem, ou que podem andar sem identificações. Você nunca andará sem o símbolo da sua raça impura, só irá tirá-lo quando fotografar com um de seus comandantes ou com o marechal e ainda tenho esperanças de mudar isso.
— Sim, senhor.
Ambos tinham completa consciência de que não existia comandante acima dela, senão o próprio marechal, assim mesmo Verbena baixou o olhar, humilde como uma presa diante de um caçador e isso inflou a confiança e o ego do coronel.
— Você se opõe? — ele perguntou em tom de ameaça, estava adorando aquilo também.
— Sei da impureza que corre em minhas veias, não me orgulho dela, por isso me esterilizei aos dezesseis anos para que os genes de minha traiçoeira progenitora não vivam em mais ninguém. Assim sendo não me oponho, jamais me oporia.
Um indício de sorriso curvou o canto da boca de Dimitri, ela seria uma aquisição admissível para o andamento do sistema requerido pelo marechal, no mínimo o que ele pensava ser o sistema requerido pelo marechal, uma vez que Dimitri sequer entendia por que o tio precisava de alguém como Verbena.
— Muito bem, vejo mais do general Koch em você agora, ele a preparou bem. Você será testada, senhorita Koch, teremos uma transmissão, ao vivo, domingo, e você estará lá como um símbolo da nossa visão. Se for aprovada nessa função, assumirá também como docente, para ensinar o que está nos estatutos aprovados pelo marechal e nenhuma virgula além disso, entendeu?
Ela baixou a cabeça. — Sim, senhor.
— Mandarei buscá-la domingo por volta de quatorze horas, vista-se de acordo com o evento e, por Deus, prenda estes cabelos, nunca mais quero vê-los soltos. Talvez você não saiba, mas é desacato aparecer de cabelos soltos na presença de uma autoridade.
— Agora sei, e não esquecerei.
— E quanto as demais regras de vestimenta? Você sabe?
— Estou ciente de todas.
— Tem certeza? Posso mandar alguém enviar por escrito, imagino que saiba ler, já que fez faculdade.
Verbena reprimiu a vontade de rir e sustentou a aparência inexpressiva a tempo de manter a satisfação de Dimitri.
— A mulheres não é permitido o uso de calças — ela começou a recitar —, as saias na altura máxima da canela, variação de cores somente para as esposas e filhas dos militares das mais altas patentes, assim como sapatos com salto, joias, adereços e maquiagem, a exceção é concedida apenas pelo marechal, as demais devem usar o padrão tão gentilmente cedido por ele para cada anel condizente.
— Você, apesar de filha de militar, não terá os mesmos privilégios, mas terá o de usar o nosso uniforme, inclusive calças e estas bijuterias, levando em conta que não tem nenhuma medalha verdadeira — esclareceu Dimitri, apontando para as penas que adornavam a farda de Verbena.
Verbena sabia que nem todas as regras se aplicavam a ela, conhecia cada uma, assim como cada lei que regia o país e suas brechas escondidas; ela estava amparada por todas. As joias desdenhadas por Dimitri, representavam títulos que garantiam, ao portador, regalias que nenhuma outra mulher tinha, nem parte dos homens, ela podia andar pela rua sem uma autorização, por exemplo, e poderia sair depois do toque de recolher, se precisasse. A ela era dado o direito de ter propriedades, de exercer uma profissão e de dirigir, embora não houvesse um aval específico para a condução de carros nas diretrizes. Concessões concedidas porque jamais alguém se lembrou de especificar sexo em tais brechas. Ainda assim Verbena preferiu concordar
— Sim, senhor — disse.
— Ótimo, está dispensada.
Verbena saiu e Dimitri ficou pensativo. A professora chamava atenção, muito mais do que supôs, e sentiu um desconforto crescente no fundo da consciência, aquela mulher não podia ser maior do que ele ao lado do marechal, precisava garantir que ela não fosse aprovada.
Um estrondo distante cortou a sua linha de raciocínio — o segundo, percebeu de repente —, mas lembrava-se de não haver nenhum treinamento agendado para aquele dia e foi até a janela. Uma fumaça escura subia do cais em grossas camadas; logo em seguida, não apenas ouviu como viu a nova explosão, e correu para lá.