Capitães em Queda
Naquela noite, Verbena chegou em casa mais exausta do que o costumeiro, a reunião extraordinária esgotou seus estoques de energia e queria apenas dormir. Mesmo assim parou na porta, havia algo errado, olhou em volta devagar e, sem pensar muito, soltou a bolsa e o material escolar na mesinha da entrada, atravessou a sala na direção da poltrona do pai, sentou-se nela, a virou para a lareira e relaxou a espera.
Não levou cinco minutos até ouvir os passos atrás de si e girou; seu riso abriu quando enxergou o rosto transtornado de Ziger.
— Olá, capitão — cumprimentou Verbena.
— Olá, professorinha.
O cheiro de álcool alcançou Verbena ao mesmo tempo que a voz de Ziger.
— A que devo a sua visita?
— Está feliz, babuína impura?
— Acho que não tem como ser uma babuína impura, todos os babuínos são primatas puros.
O lábio superior do capitão tremeu em repulsa e ele colocou as mãos nas costas, ereto e firme como se não estivesse bêbado.
— Você se acha a rainha da inteligência, não é?
E ele começou a caminhar na frente dela, rondando a presa, confiante em sua vantagem.
— A cadeia lhe fez bem, sabia?
— Oh, você é engraçada também, ouvi falar que era. Todo mundo comentou sobre o seu esplendor no jantar privado do marechal.
— Fui a convidada de honra — provocou Verbena. Era mentira, mas o olhar dele deu valor à lorota; ela sabia o quanto aquilo estava corroendo Ziger, e tranquilamente recostou a cabeça sobre o punho e o cotovelo no braço alto da poltrona antiga.
— De honra? — E ele riu, despreocupado com quem poderia ouvir. O que confirmou para Verbena que sua segurança particular falhou e que os soldados mais próximos eram leais a Ziger. Afinal o capitão era perturbado, não estúpido a ponto de comprometer a própria segurança.
— Como você entrou na minha casa?
Ziger continuou rindo, mergulhado na sensação de poder que a pergunta trouxe, não perderia isso contando que o deixaram entrar sem esforço algum.
— Você está dormindo com as forças armadas inteira, não é, imunda? Não tem merecimento, mas foi convidada para o jantar mesmo assim... Uma ninguém... Nem militar é.
— Na verdade, eu sou militar.
— Você não é! — gritou Ziger. — Foi convidada porque é uma desgraçada de uma prostituta.
— E você não foi, apesar de ter passado o dia se dedicando ao caso dos carros fortes. Deve ter ficado dolorido por trabalhar um pouco.
— O que você sabe sobre trabalhar, garota do mato? — cuspiu Ziger, literalmente.
— Sei sobre o seu trabalho. Fez carreira como torturador, oh... perdão, perquiridor, era assim que as pessoas preferiam chamar. — E ela riu. — Vamos embelezar o impossível de ser embelezado.
— É a profissão mais ilustre da nação.
— Sei que você acredita nisso. Porque amava o serviço e adorava torturas psicológicas como a que está tentando fazer comigo agora, era o seu estilo de preliminares, motivo pelo qual não quis deixar de ser capitão. Em uma posição superior não poderia mais chefiar a Divisão de Repressão a Crimes contra a Ordem, portanto não poderia mais machucar as pessoas em nome do país. A ironia é que você foi transferido do cargo que adora do mesmo jeito, para um que odeia; não subiu de posto, na esperança de voltar, e não ganhou um convite para o jantar privado do marechal porque não ocupa um posto superior.
— E você acha que ocupa?
— Eu ocupo. E você, doce capitão? Sabe qual é a sua posição?
— Cala a sua boca! Você não devia ter o direito de falar.
Um lado da boca de Verbena subiu num sorriso debochado.
— Sua posição é de um rebaixado, inapto, inútil. Já deveria ter se aposentado, mas não se aposentou porque quer voltar à ativa, só que a sua função não é mais necessária e você caiu no ostracismo.
Ele foi parando sua caminhada enquanto ouvia. Estava confuso. Gostava de se deleitar com as pessoas implorando por suas vidas e propondo acordos em troca da integridade física. Imaginou Verbena fazendo aquilo de diversas maneiras, a queria humilhada antes de começar o trabalho real.
Ela era estranha, parecia se divertir, supôs que fosse pela inocência de ter crescido longe da realidade. Por isso andou ruidoso na direção dela, apoiou-se nos braços da poltrona e aproximou seu rosto o suficiente para fazer as narinas de Verbena arderem, ainda que ela tenha colado as costas no encosto da poltrona e a cabeça o mais longe possível do hálito tóxico do homem. Para sua infelicidade o móvel era alto demais para que pudesse aumentar a distância.
— Eu mandei calar a boca! — ele urrou, crente de que isso a assustaria.
— O que foi, Zig? Não gosta de ser torturado? Parece que é verdade o que dizem: torturadores são covardes e não aguentam experimentar de seus próprios atos. Ou talvez você simplesmente não saiba o que é ostracismo, me desculpe. É exilado, banido, excluído.
Ela deu ênfase na última palavra e a pronunciou lentamente, saboreando cada sílaba, enquanto escorregava a mão sob o estofado, onde guardou uma de suas muitas armas de fogo.
— Perspicaz da sua parte perceber que está abaixo de uma prostituta — acrescentou.
— Você não imagina o que provocou, indiazinha criada como princesa, não sabe o que é dor, mas vou ensinar e bem devagar. Você vai implorar para morrer...
Ela cruzou uma perna sobre a outra e as mãos sobre o colo para esconder o seu trunfo, não era a melhor arma que possuía, mas era a única que cabia naquela poltrona. — E vai me rasgar do cóccix à nuca com um gancho de fabricação própria, sei — interrompeu.
Ziger levantou e recuou. — Como...?
— Eu sei? Sei muita coisa, Zig.
Por um momento Ziger não soube o que fazer e recuou mais um passo. — Você colocou aqueles livros nas caixas — entendeu.
— Como exatamente eu fiz isso?
— Eu não sei! — o homem berrou.
— Se não sabe, como pode me acusar?
O capitão riu. — Isso não importa, você vai confessar antes do fim e vou provar para quem quiser ver o vídeo das suas últimas horas.
— Ou você vai ter uma temporada longa na cadeia... — cochichou Verbena, em seguida descruzou as pernas, agarrou os braços da poltrona e começou um choro desesperado em meio a palavras indecifráveis. Seus ombros contraíram e os olhos arregalaram com um pavor que não existia segundos antes, tudo tão repentino que confundiu Ziger mais do que em qualquer circunstância na qual esteve.
Enquanto ele tentava reorganizar os pensamentos, foi jogado ao chão com a força do corpo de Adam e estava imobilizado antes que pudesse lutar.
— Senhorita Koch, você está bem? — perguntou Adam.
Verbena se debruçou sobre as pernas, entregue as lágrimas. Vê-la daquele jeito, tão vulnerável, tão assustada, fez tremer os músculos mais profundos do corpo de Adam e o impulso de machucar Ziger retornou.
— O que você fez, Zig? — perguntou. — Atacar um superior é acabar com a própria vida.
Perplexo, Ziger virou a cabeça para vê-la, tentando entender se aquilo era real, não podia estar tão alcoolizado que delirava sobre uma mudança drástica como aquela, e apertou os olhos para se certificar de que não estava em uma alucinação.
— Essa vadia não é um superior, nem gente ela é. Suja, escória da humanidade! — ele esbravejou.
— Fica quieto — repreendeu Adam —, você está piorando a sua condição.
Por um lapso de momento, Adam afrouxou o aperto e Ziger aproveitou, se virou e o chutou.
Adam caiu, de joelhos, e ganhou um soco que cravou sua bochecha no chão, o capitão levantou e correu para Verbena, que se jogou contra a poltrona com um grito, mas Adam segurou um dos pés dele e o fez se espatifar de bruços, em segundos o tenente-coronel o imobilizou outra vez e o amarrou com os cadarços de suas botas, para que pudesse acudir Verbena. Tomada pelo desespero, ela desabou nos braços de Adam. Dessa vez, ele a abraçou de volta, segurando sua cabeça e seus ombros para acalmá-la.
— Ele iria me torturar, meu Deus... Ele disse... disse...
E ela enterrou o rosto no ombro de Adam, em prantos.
— Está tudo bem agora, você está segura.
— Eu não sei o que teria acontecido se você não tivesse chegado — ela falou. — Pensei que tivesse ido embora.
— Sempre faço uma ronda extra antes de ir. Estranhei a ausência de guardas no pátio e resolvi voltar.
— Você é um ótimo soldado, senhor Molls.
— Mentirosa! — rosnou Ziger e se debateu, quase sangrando os punhos. — Maldita mentirosa!
— Por que você fez isso, Zig? Acabou com a sua carreira e foi por nada.
Ziger começou a rir, descontrolado, se sacudia com as gargalhadas.
— Ela está enganando você, deve estar enganando a todos.
— Senhorita Verbena, você tem um telefone, certo?
Verbena assentiu e afastou-se do abraço de Adam, apontando para a cozinha.
— No final do corredor, à direita.
— Fique aqui e, se ouvir alguma coisa, me chame — falou Adam e correu para a cozinha, os soluços de Verbena foram os únicos sons que permaneceram, além dos risos de Ziger.
— Tenho que admitir — disse ele —, você é boa. Trabalha para quem?
— Para a nação — ela respondeu, firme, e agachou-se ao lado de Ziger, puxou um lenço de papel, que ele não viu de onde surgiu, e enfiou a mão no bolso interno dele, rapidamente tirou o primeiro objeto que encontrou, envolto no lenço, um belo isqueiro antigo.
— O que você quer? Precisa de um troféu?
— Agora, eu só preciso que você fique preso.
Verbena tinha planos para Ziger, mas precisou formular outro quando ele apareceu em sua frente, depois foi obrigada a mudá-lo rápido quando viu Adam entrando silencioso na casa. Então, prisão teria de bastar.
— Você é igual a mim — disse Ziger e Verbena o ignorou.
Quando Adam voltou, ela já estava afastada do capitão, perto da porta, suspirando e chorando outra vez, com os olhos atentos sobre o prisioneiro, contudo nitidamente mais calma.
— Já estão vindo — ele anunciou.
Em minutos os carros de polícia pararam em frente ao portão. Nenhum dos soldados que devia vigiar a casa reapareceu.
— Polícia comum? — resmungou Ziger.
— Não confio em soldados no momento — respondeu Adam ao tempo em que o puxava, pelo braço, para colocá-lo em pé, e Ziger voltou-se a Verbena.
— Você, pelo menos, é filha do general Koch mesmo?
Uma grossa lágrima escorreu pela bochecha de Verbena e ela escondeu o rosto em um chumaço de lenços descartáveis, dominada pelo choro novamente.
Sem aviso, os helicópteros, levando a equipe de investigação enviada por Leon, pousaram no porta-aviões R-801, nas primeiras horas da manhã do dia seguinte. Eles comunicaram que iriam pousar quando já tinham chegado, nem sequer passaram pela Base Naval antes.
Bespalez sentia-se tão confiante na cobertura dada por Dimitri que não desconfiou do objetivo da visita, por isso não enfrentou a chuva gelada daquele dia para recepcioná-los. Só ao ser chamado para conversar com o grupo é que se preocupou. Era uma grande equipe, e o oficial no comando não pediu permissão, apenas apresentou-se e comunicou que estavam ali para investigar as atividades do porta-aviões.
— Mas meus relatórios estão em dia — ele respondeu.
— Então não haverá problemas em fornecer cópias para que possamos conferir — respondeu o primeiro-tenente Adrian Kirst.
Bespalez olhou para as estrelas bordadas no peito da farda do primeiro-tenente e voltou o seu olhar ao rapaz. — Esse é meu navio e você não tem autoridade aqui. Volte quando tiver.
Calmamente Adrian abriu a pasta impermeável que trazia sob um dos braços, puxou a subpasta de dentro e estendeu para Bespalez.
— Isso me dá a autoridade que preciso sobre essa embarcação e sobre você. Está suspenso até que as investigações terminem e, se quer que terminemos rápido, irá colaborar ou aceitar a opção, que é prisão em sua cabine enquanto estivermos aqui.
Bespalez se arrepiou. Aquilo não podia ser bom, uma investigação pedida pelo general e autorizada pelo marechal era um sinal terrível de que estava com sérios problemas.
— Por que essa investigação foi solicitada? — ele perguntou.
— Não cabe a mim questionar, só executar a tarefa.
— Entendido. Preciso fazer umas ligações e logo depois disponibilizo os relatórios.
— Relatórios primeiro, ligações depois. E, agora, nos leve aos depósitos. Todos.
— Por que quer ver os depósitos?
— Porque começaremos por eles.
— É claro. É claro. Farei isso como pede, mas eu estava no meio de um serviço e tenho que terminar, é urgente.
— Não vejo problemas. Trouxemos as plantas do porta-aviões, podemos fazer isso por nossa conta.
— Almocem primeiro. Tenho certeza de que estão cansados e famintos, nosso refeitório fornece as melhores refeições do Atlântico Sul.
— Não estamos com fome e nem cansados. Agora nos dê licença, alguns dos meus homens o acompanharão enquanto termina o seu trabalho urgente.
Bespalez abriu a boca para responder, mas não conseguiu pensar em nada e nem houve oportunidade, os oficiais se afastaram sob sua vista assustada. Ele saiu correndo para a cabine particular e o telefone de contato direto com Dimitri, o capitão ligou inúmeras vezes e não foi atendido, naquele momento o coronel ainda dormia na barraca em que se enfiou depois de festejar, com os soldados, madrugada adentro.
Com raiva, Bespalez jogou o telefone sobre a cama. Fugir era a única opção. E, apressado, juntou o dinheiro de que dispunha na cabine, o dispositivo de registros de suas transações paralelas e o telefone em uma mochila. Mas antes de sair ligou para Levi, ele lhe devia, e muito; agora era a hora de pagar. Porém, quando abriu a porta para ir embora, um soldado esperava de cada lado.
— O que vocês querem? — ele perguntou.
— Ficaremos como o senhor até que conclua seus afazeres — respondeu um deles.
— Eu não preciso de vigia no meu próprio navio. Estão dispensados.
— Temos ordens superiores de não deixá-lo sozinho.
— Aqui quem manda sou eu e eu disse que estão dispensados!
Os rapazes continuaram imóveis e ele decidiu não esperar que se manifestassem. Bespalez estava confiante na fuga, com ou sem vigilância. Contudo, o plano se desenrolou diferente do que antecipou, havia soldados espalhados por toda a plataforma e não viu nenhum de seus subalternos. Estava sozinho.
Mesmo assim permanecia com a vantagem: ele conhecia a embarcação, os investigadores não. E seguiu pelos caminhos secretos, aqueles que usava no seu cauteloso sistema de tráfico. Foi fácil despistar os homens designados para acompanhá-lo e correu até o pequeno deque improvisado, havia uma lancha lá, sempre à disposição de sua vontade.
Bespalez arremessou a mochila dentro e pulou atrás, nesse instante ouviu o som inconfundível de armas sendo engatilhadas, quatro ao todo, e se virou devagar.
— Aonde está indo, capitão? — perguntou o primeiro-tenente.
— Tenho assuntos a tratar na base, não posso parar o meu trabalho por causa de vocês.
— Certo. Não pode mesmo... O que houve na base?
— Não que eu deva explicações, mas tivemos problemas com alguns cargueiros que chegaram lá.
— Moreschi, entre em contato com a base e pergunte o que houve — falou Adrian para um dos soldados e ele saiu em silêncio. — E o senhor, saia dessa lancha e nos acompanhe.
— Mas você está muito arrogante, tenentezinho. O coronel saberá dessa insubordinação e você pagará caro. Agora vá cuidar do seu serviço e me deixe cuidar do meu.
— Minhas ordens são superiores a ele, então saia dessa lancha ou estamos autorizados a atirar.
Com o ódio estampado no olhar, Bespalez voltou. Não pegou a mochila, na expectativa de que ninguém a tivesse notado, mas notaram e a apreenderam.
— Talvez você goste de saber que os seus parceiros estão cantando feito passarinhos no verão — informou Adrian, e o capitão o teria atacado, se não fosse a possibilidade de ser fuzilado ali mesmo.
Ele foi conduzido à frente do grupo até a cabine, onde ficou preso, teve seus bens confiscados e agora sabia o quanto estava encrencado. Não havia como escapar daquilo.
O dia mal tinha amanhecido e Zunik já estava em seu gabinete, assinando documentos que exigiam pressa, não queria deixar nada esperando por ele quando fosse ao oitavo batalhão, era longe demais para se preocupar em voltar logo. Ele preferia não ir, era um tempo longo a se desperdiçar, mas queria respostas que apenas eles poderiam dar e, na falta de Leon, Adam e Edmund, seus homens de maior confiança, ele próprio decidiu ir.
Depois de deixar uma lista de ordens à Dimitri e Leon para que reforçassem a segurança nos pontos de maior importância da cidade durante a sua ausência, Zunik tomou dois analgésicos para aliviar as dores que rachavam o seu crânio, mandou avisar Adam que o queria ali em seu retorno e saiu para o batalhão. No entanto, foi surpreendido por ele e Verbena, na recepção.
— Molls. Senhorita Koch. O que fazem aqui?
— Viemos reportar um ataque à vida da senhorita Koch — respondeu Adam.
Zunik virou-se para Verbena. — Um o quê? — questionou, chocado.
— O capitão Ziger invadiu a minha casa ontem, à noite, e ameaçou me matar, se o senhor Molls não tivesse me salvado, eu... não sei onde estaria agora — explicou Verbena.
E Zunik olhou novamente para Adam. — Como ele conseguiu entrar na casa da senhorita Koch? — questionou.
— À princípio pensei que tinham deixado o Zig entrar por ser capitão e diretor do colégio onde ela trabalha, mas não encontrei nenhum dos soldados que deveriam cuidar da segurança da senhorita Koch, nem depois do ocorrido. Suspeito que eram aliados dele.
— Ninguém aqui tem aliados, além de mim! — trovejou Zunik. — Onde está o Zig agora?
— Na delegacia central.
— Que bom, lidarei com isso depois. Já que está aqui, preste atenção: deixei ordens para que viesse à sede do governo depois de levar a senhorita Koch à escola, queria que monitorasse a segurança enquanto eu estiver fora, mas dadas as circunstâncias, prefiro que não saia do lado dela até que arranje uma equipe confiável para acompanhá-la. Mesmo assim, fique de prontidão. Estou indo encontrar o Saturno, no quarto anel, e posso precisar de você.
— Aconteceu algo grave, senhor? — perguntou Verbena.
— Não. Será só um serviço rápido, quase um exercício.
— Então me permita ir com o senhor, é minha obrigação acompanhá-lo no que for importante e creio que é importante o bastante para que o próprio marechal esteja presente.
— Senhorita Koch, isso não é trabalho para mulheres.
— Mas é trabalho para uma Koch e uma oportunidade para que os moradores do quarto anel me vejam ao seu lado e saibam da sua generosidade.
Zunik pensou por um instante, exibi-la à uma parte da população que se parecia com ela poderia fortalecer a ideia de que Zunik era o benfeitor por trás das doações. Em contrapartida, não a queria perto de Saturno.
— Mesmo em uma ação simples, pode haver perigo — ele avisou.
— Não terei medo algum, se estiver ao seu lado.
Adam a observou por um instante e baixou a cabeça, Verbena era tão diferente diante do marechal que, em certas ocasiões, não sabia em qual versão da moça confiar.
— Só precisarei de alguns minutos para contatar o colégio e avisar que não retornarei hoje — acrescentou Verbena.
— Você não deve explicações a ninguém.
— Mas gostaria de fazer, do mesmo jeito, se não se importar.
— Está bem, venha comigo, terá tempo de fazer isso enquanto nos equipamos. Molls, venha também, agora você será mais necessário conosco.
Adam assentiu e os seguiu para o carro. Durante o demorado percurso, Zunik os inteirou sobre a última descoberta e que pretendia fazer uma varredura no bairro para ver se o Ás de Paus estava escondido lá.
— Mas, senhor, o último anel é desprovido de tudo, a região norte é deserta. O que o Ás de Paus iria querer com o local? — perguntou Adam.
— É o que vou descobrir hoje. Não é coincidência que ele tenha incendiado o Diamante e distribuído comida no mesmo lugar. Se estiver atuando de lá, o acharemos e desmantelaremos o grupo.
— E os moradores?
— O que tem eles?
— Não serão atingidos no fogo cruzado?
— Se eles têm valor para o Ás de Paus, são vantagens para mim.
— Não corremos o risco de isso ser outra distração? — perguntou Verbena.
— Ah, eu acho que é, mas não me importo. O quarto anel precisa da minha atenção faz tempo, esse é o sinal para que eu pare de procrastinar.
Adam desviou o olhar e silenciou-se pelo restante do percurso, se restringindo a observar o vulto da paisagem pela janela, Zunik deu andamento a conversa com Verbena, instruindo sobre o planejamento que fez com Saturno na tarde anterior.
Quando chegaram, Verbena não pôde deixar de observar a peculiaridade: todos os bairros eram cercados por segurança, o formato circular favorecia a guarda, mas aquele era separado por um muro alto e maciço. Havia um Centro de Cura ativo de um lado, um inativo do outro, o oitavo batalhão entre eles e o nono batalhão no oposto, vigiando uma das duas únicas rodovias da capital, além disso sabia que uma delegacia ficava à distância de alguns quilômetros dali, pouco antes da outra rodovia. Seis zonas protegidas, conectadas por muro duplo eletrificado.
Saturno se aproximou, à frente de soldados ávidos por mostrar devoção. Parou diante dos três, firme na reverência ao marechal, mas com olhar hipnotizado em Verbena.
— Major! — bradou Zunik, incomodado — Já conhece Verbena Koch? Meu soldado mais valioso.
— É claro. Olá, professora, é um prazer revê-la — cumprimentou Saturno.
Verbena apenas assentiu.
— Acho que não preciso lembrá-lo de que a segurança dela é de primordial importância.
— Não precisa, senhor.
— Major! — chamou Adam. — Como estão os canis?
— O que quer com cães agora, Molls? — quis saber Zunik.
— Se estiverem em boas condições, poderemos levá-los. Com farejadores experientes talvez nem precisemos entrar em conflito.
— Temos os melhores cães aqui, no oitavo — se exibiu Saturno. — E estão prontos para o trabalho.
— O serviço deles torna a missão precisa, assim atacaremos só onde for necessário, poupando munição, tempo e homens — reforçou Adam.
— Vá — falou Zunik —, você tem uma hora.
— Senhor — chamou Verbena. — Se não precisa de mim agora, vou entrar em contato com a escola.
Zunik fez um aceno positivo e Verbena foi, com Adam, assim como dois soldados, que saíram da formação após um sinal de Saturno para acompanhá-los.
— Como estão os preparativos, Saturno?
— Tudo pronto, só esperávamos a sua chegada.
— Então coloque os homens em posição, entraremos em ação assim que o Molls preparar os cachorros.