Escola Federativa Patriotas do Futuro
Na manhã seguinte, outro carro esperava por Verbena no portão, antes que ela pensasse em tirar um de sua garagem, depois percebeu que seria um erro dirigir, poderia passar a sensação de independência, atributo nada bem-visto e ela precisava agradar. Arrumou-se, então, no seu uniforme militar impecável, ajeitou os cabelos em um coque apertado e o cobriu com um bibico.
Desceu tranquila, olhando para o vidro estilhaçado por uma pedra na noite anterior, não se deu ao trabalho de limpar nada quando desceu para ver o que houve, apenas o de pegar a pedra e ler o bilhete enrolado nela. Poucas palavras: “Impura. O seu lugar não é aqui”. Ela guardou o papel e olhou pelo buraco que a janela se tornou, dois soldados corriam para verificar a procedência do barulho, mas Verbena desconfiava da capacidade deles. A precisão do arremesso sugeria que a pedra foi atirada de perto, o que levantava duas possibilidades: alguém entrou no pátio e fez o trabalho ali dentro e nenhum deles viu, ou um deles fez o serviço. De uma maneira ou de outra, não eram confiáveis.
Verbena terminou de descer as escadas pensando nisso; deu outra olhada através da abertura e viu as costas de um guarda ainda vigiando o gramado além, e foi para a cozinha. Degustou lentamente uma xícara de café puro, depois preparou o seu desjejum tragando outra, havia tempo de sobra para aproveitar a refeição.
O tenente-coronel Molls era quem aguardava no carro enviado para buscá-la e não parecia entediado ou chateado pela demora, e Verbena nem sabia quanto tempo ele esteve ali antes de ela tê-lo visto. Embora o rapaz tenha se colocado em continência séria para a sua passagem, conservava uma expressão leve, ao oposto dos soldados pelos quais passou, novos ela notou de primeira, nenhum dos que conseguiu ver era o mesmo da noite anterior.
— Bom dia — cumprimentou Verbena, após retribuir a continência e ele apressou-se em abrir a porta traseira.
— Bom dia, senhorita Koch.
Verbena, não esperava ser respondida, esperava antes que militar algum lhe dirigisse uma palavra sequer, e entrou no carro, contente por isso. Ele entrou em seguida e mais ninguém o acompanhou. Sua impressão inicial estava correta, seria só ela e o tenente-coronel, então.
— Não sei se a senhorita se lembra de mim, eu sou o tenente-coronel Adam Serquit Molls. Recebi a honra de cuidar da sua segurança — ele acomodou-se explicando.
— Honra?
— Sim. Uma das maiores.
Ela não sabia se era verdade; não via como ser reduzido a babá de uma adulta poderia ser meramente satisfatório, menos ainda uma honra.
— Eu me lembro do senhor, é um prazer revê-lo.
— O prazer é todo meu — ele respondeu. — Eu nunca vi uma educadora profissional, acho que acompanhá-la será uma forma de viver a história enquanto ela acontece.
Isso Verbena sabia que era verdade, mulheres foram banidas do magistério fazia mais tempo do que ela e ele tinham de existência.
— Obrigada — ela respondeu.
Adam era diferente dos demais subalternos com quem Verbena se comunicou, o tenente-coronel parecia receptivo, comunicativo, corajoso e imprudente, deu sinais de que gostava de falar e falou abertamente como esquecido de que dialogava com uma estranha. Verbena ainda não podia determinar se era só com ela, mas notou que despertava o interesse do rapaz e isso poderia ser explorado.
E eles conversaram no decorrer do caminho para a escola, vários quarteirões a direita do primeiro batalhão, com pessoas andando pelas calçadas permitidas aos populares, aquele era um dos muitos horários de troca de turno nos diversos ofícios que mantinham o centro funcionando durante as vinte e quatro horas de um dia, então havia movimento constante na região até o toque de recolher, mas eles paravam na posição de honra ao soberano.
— Por que as pessoas estão fazendo a reverência do marechal? — perguntou Verbena.
Adam olhou para os transeuntes. — A população mostra respeito ao carro oficial do marechal, mesmo quando ele não está dentro.
— Interessante — falou Verbena e um estrondo no vidro traseiro os sobressaltou, seguido do estridente grito de “vadia”. Adam parou.
— Está tudo bem, estamos em um veículo seguro, os vidros são blindados — ele se apressou em dizer, mas parecia mais alarmado do que Verbena.
— Foi uma pedra — ela respondeu.
— Eu peço desculpas, senhorita Koch, esta ação não é comum.
— Talvez seja para mim.
— Por que diz isso?
— Porque outra dessas quebrou uma das minhas janelas noite passada.
— Alguém fez isso? No coração do primeiro anel? — estranhou Adam.
— Sim.
— Eu já ouvi falar de alguma insurgência no segundo anel, mas no primeiro, nunca. Nem mesmo na rua, como agora.
Verbena olhou pela janela, o caminho para a escola passava pela fronteira do primeiro anel, dava para ver algumas moradias do segundo bairro dali.
— Parece que as pessoas são corajosas por aqui.
— Isso não vai se repetir, vou providenciar uma rota alternativa para o colégio e mais guardas para a sua casa hoje mesmo.
— Não se preocupe, tenente-coronel, eu fui bem cuidada pelos que estão lá.
— Vou pedir para usar um carro com vidros escuros amanhã. O marechal gosta de vidros transparentes para que o povo o veja, mas talvez você não goste.
— Se o marechal gosta de ser visto, eu não me importarei por ser vista também.
Adam religou o motor do carro e seguiu viagem por algumas quadras, em silêncio, a observando por vezes pelo retrovisor. Ela lhe pareceu incomodada e ele imaginou que fosse pelo que escutaram quando a pedra atingiu o alvo. Os vidros podiam ser blindados, mas não eram a prova de som, e a palavra entrou claramente em seus ouvidos.
— Eles andam indóceis por causa da situação atual, professora, por isso a chamaram assim. São como crianças, não entendem que estamos defendendo e cuidando deles, mas que há tempos escassos até para nós.
— Você quer dizer o que com escassos?
— Que precisamos racionar alimentos e água.
Verbena lembrou-se da festa opulenta da noite anterior.
— Há fome aqui?
— Estamos saindo do período de seca e os estoques já estavam baixos. Agora, com a perda dos navios novos, nem a nossa principal exportação está disponível.
— Ouvi dizer que eram navios de guerra.
— E ouviu certo, mas toda a frota foi levada para que não fique suscetível a novos ataques, inclusive os cargueiros.
— Entendo.
— É uma pena que o povo não entenda.
— Como essa pessoa chegou aqui? — perguntou Verbena, apontado o vidro que recebeu o impacto.
— Como assim?
— Vi o nível de segurança que existe entre os anéis, não tem como passar sem rigorosa inspeção, mesmo depois da verificação dos documentos e, se era alguém do perfil que o senhor sugeriu, duvido que fosse dessa região
Adam pensou, por um segundo. — Eu não sei, é possível que seja um trabalhador, farei a verificação. De qualquer maneira, não é algo com o que deva se preocupar, senhorita Koch, como eu disse, são semelhantes a crianças, portanto, não oferecem perigo. Talvez uma professora possa ensinar que estamos cuidando deles e que também fazemos sacrifícios.
Ela viu que foi literalmente uma criança a autora do ataque e não uma pertencente ao segundo anel ou estaria usando o chumbo característico da região. Aquela usava roupas em cores livres somente no primeiro anel e isso a fez questionar mais facetas do tenente-coronel: Será que ele justificou a transgressão porque viu a criança? Ou não viu, supôs de onde era e intercedeu do mesmo jeito? Talvez seu novo acompanhante fosse realmente imprudente, ou a testava, pois tanto o ataque ao veículo quanto a defesa do atacante eram suscetíveis de punição severa, e ela possuía a autoridade para puni-los no mais alto rigor da lei, fato que Verbena tinha suspeitas de que ele sabia. A moça chegou à conclusão de que precisava decifrá-lo o quanto antes.
O complexo estudantil não passava de uma instalação tipicamente militar, em cinza como as demais, com raras variações de tonalidade, quase tudo naquela cidade era cinza ou marrom, a porção artística de Verbena não se acostumaria fácil com a ausência de cores.
Havia seis blocos com centenas de discentes uniformizados e educados com todo o poder do dinheiro que os pais podiam pagar, em um ensino rigoroso e integral. Verbena achou curioso a ausência de soldados no interior do colégio, mas não externou sua constatação, pois Adam a conduziu direto à sala do diretor e era nele que precisava se concentrar.
O homem, de farta barba grisalha, levantou um olhar soberbo, em seguida pôs-se na posição de sentido para Adam, não para ela. Aquele era outro oficial que Verbena se lembrava, a observando exatamente daquele jeito no dia do pronunciamento do marechal, depois o viu cochichar com Dimitri enquanto a analisavam, isentos de pudores. O capitão era alto e forte, em pé, parecia ainda maior e, apesar da idade, ela o consideraria um oponente perigoso, se não fosse o odor etílico que impregnava o ar do gabinete.
— À vontade, senhor — falou gentilmente, Adam.
Verbena não se moveu, ao contrário, manteve a cabeça alta e o olhar firme no diretor. Seu pai fez questão de torná-la professora e injetou tantos investimentos em seu aperfeiçoamento para que ela não tivesse que se curvar.
— Então esta é a jovem que encantou o marechal e também a esposa do general, semana passada — afirmou o homem de voz grossa e inexplicavelmente reconfortante, enquanto voltava a se sentar, não tinha nem a menor intensão de respeitar a posição dela.
— Senhorita Koch — falou Adam —, esse é o capitão Zig... Quero dizer: O capitão Nicolas Amadeo Ziger.
Verbena passou o olhar pela plaquinha de identificação do diretor. Estava escrito: Capitão Ziger. Ela compreendeu que, para ela, seria sempre capitão Ziger e nunca capitão Zig.
— É uma satisfação conhecê-lo, capitão — cumprimentou.
— Hum!! — Ele resmungou, carrancudo. — Sentem-se, eu já estou com a sua documentação, o seu histórico e contrato, só preciso que assine e vá conhecer os alunos.
Verbena e Adam sentaram, observando-o colocar os papéis sobre a mesa e ela pegou a própria caneta, leu folha por folha e as assinou, o salário seria generoso e seu único dever, na instituição, era igual aos dos outros docentes: ensinar o que fosse permitido.
O capitão pegou os documentos de volta e começou a puxar outros.
— Aqui está a chave do seu armário, a sua agenda, o seu estatuto, regras da escola, de vestimenta e de comportamento.
A última não estava anexada à agenda como o restante, eram folhas de papel comum, recém impressas, uma nítida adaptação exclusiva para ela. Verbena segurou o riso, não estava preocupada, Ziger podia ser desconhecido, mas sua ficha não era, ela memorizou o relatório detalhado do homem antes mesmo de vê-lo pela primeira vez, desse modo sabia como seria recebida por ele.
— Obrigada — ela respondeu.
— Não esqueça de onde você está, senhoria Koch, eu não me importo com quem tenha sido o seu pai e nem que isso tenha garantido privilégios sobre pessoas mais qualificadas para entrar na minha escola.
— E você nunca mais esqueça de mostrar o devido respeito.
Ziger congelou. Dimitri disse que Verbena era uma gazela assustada, não esperava nada além de: “Sim, senhor.”, “Às suas ordens, senhor” ou “Como quiser, senhor”. E ela ainda se levantou e saiu sem sua dispensa, com o olhar sobre os papéis como se ele não fosse ninguém.
Adam a seguiu nitidamente satisfeito, não morria de amores pelo capitão. Em primeiro lugar porque o achava preguiçoso e acomodado; em segundo lugar porque o viu expor os subordinados às mais abusivas humilhações diversas vezes; em terceiro lugar porque ele tinha diploma de professor, apesar de não ter cursado graduação alguma, e todo o corpo militar sabia disso. Mas nunca o viu escrachar seu desrespeito a superiores e achou um ultraje o homem sequer disfarçar que se posicionou de acordo com o protocolo apenas para ele, sabendo quem era a sua acompanhante, já que ele próprio avisou que a levaria até ali pela manhã.
Adam notou que se tratava de uma provocação, Ziger só mostrava deferência ao marechal e, algumas vezes, a Dimitri; aos demais reservava posições de sentido malfeitas, quando fazia. Em hipótese alguma uma ostentosa como a que tinha acabado de executar.
O tenente-coronel podia compreender o frágil ponto de vista do capitão, o homem sempre abusou da reforçada certeza na superioridade do sexo e Verbena era uma ameaça do sexo oposto, demais para o ego dele. Mas, uma perspectiva não podia ser motivo para desacato e estava à beira de repreendê-lo, quando percebeu que Ziger ficou mais ofendido pelo que ela disse do que por qualquer castigo que pudesse receber e isso lhe bastou.
O armário de Verbena estava abarrotado de coisas socadas de maneira descuidada, ela teria que dedicar um tempo extra a ele, a moça imaginou que o seu antecessor tinha um armário para cada matéria lecionada e que reuniram tudo e jogaram em um só depois da verificação forçada pela prisão do homem.
— Senhorita Koch! — Verbena ouviu e virou-se, era uma mulher enfim, ela pensou que não encontraria nenhuma no trabalho e sentiu-se levemente aliviada. — O capitão Ziger me pediu para entregar isso a você.
“Ziger”, mais uma que não tinha permissão para chamá-lo de Zig.
— O que é isso? — perguntou Verbena, olhando para os quarenta centímetros de pastas empilhadas nas mãos da secretária.
— O material de artes.
— Eu lecionarei artes também?
— Sim. O capitão não informou?
— Não. — E ela se virou para Adam com um riso zombeteiro. — Acho que ele não gosta de mim.
Adam teve um conceito diferente de Verbena. Na noite anterior, a professora pareceu frágil, dependente e carente de personalidade. Quando soube que ela lecionaria ali, o primeiro pensamento foi que a moça teria de lidar com Ziger e supôs que ele a arrasaria com facilidade. Mas agora Verbena parecia se divertir com o capitão, parecia até apreciar a experiência, e Adam teve a clara visão de que o homem não teria a menor chance contra ela.
— Como é o seu nome? — perguntou Verbena à secretária.
— É Asafe, senhora.
Verbena se inclinou um pouco para encontrar o olhar baixo da mulher. — Asafe, você poderia me indicar o que pertence a cada disciplina?
— É claro, professora. O professor Narciso separava as matérias por cor, o que estiver com capa azul é de História e o que estiver com capa amarela é de Língua inglesa.
Verbena sorriu. — Muito obrigada.
— Posso ajudar com mais alguma coisa?
— Você poderia olhar para mim. — Asafe hesitou, depois levantou a cabeça devagar, havia um abatimento profundo em seu rosto. — Assim está melhor, prefiro que fale comigo desse jeito, se não se importar.
A secretária concordou com um aceno vacilante. — Algo mais?
— Não, obrigada.
E a mulher voltou para a secretaria. Adam continuou a observar Verbena, enquanto ela foleava a primeira pasta, a professora era capaz de migrar da dureza, para a diversão e para a gentileza em poucos minutos. Ele começava a desconfiar que ela o surpreenderia a cada minuto que passasse em sua companhia.
A primeira turma de Verbena foi dos mais velhos, vinte e seis garotos e duas garotas, todos no auge de seus dezessete anos. Eles se levantaram eretos, com os ombros para trás, peitos estufados, mão direita na testa e abdomens contraídos, dentro uniformes alinhados. As meninas tinham os cabelos presos e rostos limpos, os meninos tinham cortes curtos e rostos estoicos.
— Bom dia! Meu nome é Verbena Koch, eu darei a vocês lições de história, literatura e línguas e, acabo de saber, que também de artes, então passaremos muito tempo juntos. — Verbena virou-se para Adam, em pé ao lado da porta. — Este é o tenente-coronel Molls, ele cuidará de nós por um tempo e estou certa de que me ajudará em algumas aulas. — Uma menção de sorriso moldou o rosto da moça e ela voltou-se aos adolescentes. — Podem sentar!
Todos sentaram-se em sintonia quase perfeita e ela se acomodou em sua cadeira.
— Cada um de vocês terá o direito de me fazer uma pergunta fora do conteúdo, e apenas uma daqui até o fim do ano, escolham com cuidado porque, quem reivindicar esse direito, me dará o direito de fazer uma pergunta de igual teor, em qualquer momento que eu desejar. Entenderam?
— Sim, senhora! — responderam forte e claro.
— Professora Koch! — chamou uma das meninas, uma linda e alta garota de olhos verdes e cabelos acinzentados.
— Sim?
— A senhora quer saber onde paramos em história? Era a aula que teríamos agora.
— Sim. Como você se chama?
— Keith, senhora.
— Obrigada, Keith, vou entender essa pergunta como uma gentileza e não como a sua pergunta única.
A menina assentiu e sentou-se outra vez, rígida como se sua coluna não tivesse a capacidade de dobrar, ao mesmo tempo Verbena notou Ziger apoiando-se no batente da porta, com os braços cruzados e o olhar nela.
— Vou querer saber exatamente onde vocês pararam, assim que conhecê-los adequadamente — Verbena respondeu, e o silêncio tornou a apoderar-se da sala, os adolescentes mal se moviam, aquilo era mais que disciplina, era medo. — Interessante. Ninguém tem outra dúvida? Uma curiosidade, talvez?
Verbena presumiu que nenhum daqueles jovens viu uma pessoa de etnia extinta no território nacional. E estava certa, a maioria só ouviu falar da identidade étnica quando foram preparados para a chegada da professora. Mas, o preparo que devia suprimir as dúvidas, acendeu a curiosidade, e a imaginação dos alunos atiçou o desejo de saberem muito mais sobre a mulher, só não a enchiam de perguntas porque temiam que a concessão do direito fosse algum tipo de armadilha. Até que um menino se manifestou, tímido.
— Sim? — se dispôs Verbena.
— Eu tenho uma pergunta — o garoto falou.
— E pensou bem nela? Você não vai querer desperdiçar porque eu não responderei outra desse tipo.
— Pensei.
— Então faça.
— A senhora é uma... é... quero dizer...
— Mestiça?
— Sim.
— Eu sou — respondeu Verbena.
— Mas como... — começou outra menina, de súbito.
— Vou poupá-la de perder a sua pergunta — interrompeu Verbena, afinal ela só queria que um deles desse o primeiro passo para dar coragem aos outros. — Como é o seu nome?
— Christine.
— Christine e todos os demais. Eu estou aqui, entre vocês, porque o marechal é um homem bom, porque o que falam sobre ele é mentira, ele aceita a todos nós como iguais e sou a prova de que não há repúdio, nem banimento de pessoas como eu. — Adam sorriu, satisfeito pelo que ouviu e Ziger também, mas por outro motivo, ele entendeu que os questionamentos vinham da rejeição. — O meu nome deriva de uma flor, abundante nas terras do meu pai e não de culturas proibidas — ela continuou — e sou completamente qualificada para dar aulas a vocês e a qualquer pessoa que mostrar vontade de aprender o que tenho a ensinar.
Eles sabiam que ela era qualificada, quando o vice-diretor veio explicar sobre Verbena, explicou também sobre as insígnias que ela carregava e não conseguiu disfarçar a alegria que sentia por ter uma profissional assim na instituição, o que gerou maior ansiedade do que a própria professora em dados momentos daquela semana.
— Professora! — chamou outro garoto. — Eu gostaria de fazer a minha pergunta.
— Pode fazer.
Ele se levantou. — As penas. A senhora cursou todas essas disciplinas mesmo?
Verbena mostrou o seu primeiro sorriso direcionado aos alunos. — Sim, me arrependo por não ter cursado mais. Então aceitem o conselho de nunca deixar passar nenhuma oportunidade de estudar.
Ziger fechou o rosto em uma careta, os alunos não deviam ser incentivados a estudar mais do que o período escolar, eles precisavam se alistar ou ingressar na Divisão de Repressão a Crimes contra a Ordem, e não sair pelo mundo a procura de conhecimento.
— Nós também podemos ter penas assim? — impressionou-se o garoto.
Verbena o encarou com a cabeça pendendo para a lateral, ele entendeu que a professora não responderia e sentou-se, depois ela se voltou aos demais.
— Alguém quer usar a sua pergunta única para obter esta resposta? — perguntou.
Ninguém quis renunciar a regalia, apesar de os olhares ávidos denunciarem o quanto queriam saber.
— Professora! — chamou Adam com a mão levantada. — Eu posso usar a minha pergunta única?
Mais um sorriso de Verbena, dessa vez, de surpresa. — É claro, tenente-coronel Molls.
— Esses alunos, que estão terminando o ciclo escolar, têm possibilidades de adquirir distintivos de títulos acadêmicos como os seus?
O sorriso de Verbena se alargou. — Sim — ela disse e se virou para os alunos novamente. — Todos vocês podem ter quantas penas quiserem, até mais que as minhas. Seus pais têm recursos suficientes para mandá-los estudar em qualquer parte do mundo, então só depende da vontade de vocês e deles. Mas, preciso alertá-los, não é fácil conquistar uma vaga em faculdades como estas e menos ainda para mestrado e doutorado, exige disciplina e dedicação constante.
Os alunos não aguentaram em suas posturas rígidas e se entreolhavam empolgados, nunca foram informados de que tinham liberdade para estudar depois da escola, sobretudo as meninas. Eles sabiam que os garotos poderiam se formar em uma das universidades necessárias para o exército, como o magistério, o ministério pastoral militar, tecnologia e ciências, com extensão para genoma humano nos Centros de Cura, mas todas ali mesmo, na capital, e nada que alcançasse a glória de uma pena daquelas.
— A senhora nos ensinará o que é preciso para conseguir vaga em uma faculdade dessas? — perguntou outro menino, tão extasiado que esqueceu de pedir permissão para falar, ela o observou por um segundo antes de responder, Verbena não o conhecia, mas ele tinha traços familiares.
— Vou tentar, se vocês quiserem aprender. Posso até dar uma carta de recomendação caso alguém alcance média suficiente para se candidatar.
O garoto abriu o maior dos sorrisos e pareceu ainda mais familiar. Verbena tinha certeza de que nenhum deles poderia sorrir daquele jeito para professores, ela leu no regulamento da instituição, no entanto, na qualidade de educadora, não havia como considerar punir um aluno por ele exprimir tanta alegria em saber que poderia estudar. Adam também parecia contente, já Ziger ostentava feições de quem penalizaria a turma inteira, por isso Verbena decidiu encerrar o assunto.
— Agora eu preciso fazer a chamada de vocês — disse e pegou a pasta encadernada que deixou sobre a mesa enquanto conversava com os alunos. — Isso aqui é um livro de chamadas — explicou. — Era assim que se registrava a presença dos alunos muito tempo antes de vocês nascerem, ele funciona de maneira física, eu falo o nome de cada um e o aluno condizente se identifica para eu saber que está presente. Sei que vocês se registram digitalmente na entrada, mas nesses primeiros dias de aula eu farei também essa chamada para conhecê-los e memorizar os seus nomes.
Até aquilo foi excitante para eles e Verbena começou a chamar, em seguida olhava para os rostos de quem atendia, cada discente ansiava por ouvir o seu nome.
— Antony Góes Handersen! — Ela pronunciou, o garoto levantou-se em posição de sentido, como os demais, e ela entendeu porque o achou familiar, ele era filho de Ilde e Leon. — Não esperava vê-lo nessa turma, você não deveria estar no segundo ano?
— Não, senhora, farei dezessete anos em alguns meses — ele respondeu.
— Ah, engano meu.
E Verbena voltou para a chamada. Os nomes foram avançando e avançando com nada, além da atenção necessária, até encontrar um nome que a fez parar, reler e depois chamar em voz alta.
— André Willka Heinrich! — ela falou e outro garoto levantou, era o autor da pergunta sobre a sua ascendência. Verbena o estudou, era um rapaz comum, de cabelos e olhos castanhos, pele clara e semblante padrão. — Vou fazer a minha pergunta para você, tudo bem?
— Pode fazer, professora.
— A sua família descende de onde? Inclusive avós, se souber.
— Eu e meus pais somos do sul. Meus avós, não sei.
— Local exato.
— Da cidade de Nova Esperança.
Verbena fez um aceno — nem positivo, nem negativo — com a cabeça e retornou à chamada. A seguir, começou a aula. Precisou ministrar duas consecutivas, e Ziger não teve a paciência necessária para assistir tudo. Ao final, ela deixou a turma, contente, e Ziger já tinha relatado a Dimitri que Verbena plantou nos alunos ideias de continuidade dos estudos após a formatura escolar.