Coerção Ás de Paus · Capítulo 6 de 33
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Coerção

Ziger estava sentado na última carteira do centro da sala seguinte que Verbena entrou, ele queria vê-la ruir e supôs que seria naquela aula, a de artes para a qual ela não havia se preparado. O capitão estava certo de que seria tão fácil rechaçar Verbena que não previa nem o esforço de falar para alcançar o seu objetivo, afinal, era uma mulher, ele tinha certeza que bastaria a pressão de sua presença e talvez o trabalho de um olhar hostil para amedrontá-la e fazer com que corresse para a sua casa, aos prantos.

— Bom dia, alunos — disse Verbena e sorriu para o capitão, depois apresentou-se, falou da pergunta única, da chamada, apresentou Adam e olhou novamente para o homem de aparência cruel. — E, para quem não conhece, aquele é o capitão Ziger, ele está aqui para dar um exemplo do que é respeito aos superiores.

Ziger entendeu a insinuação e inflou o peito com o olhar apertado para intimidá-la. Verbena tomou aquilo como um convite para testar os limites da dignidade dele, e alargou o sorriso — nunca era tarde para ensinar um déspota a arcar com as consequências das próprias escolhas.

Desde jovem ela entendeu que pessoas com o ego tão grande quanto o de Ziger detestavam ser apresentadas à própria estupidez, então era isso que ela faria. Primeiro Verbena pediu que ele fizesse uma atividade irrisória de artes, consciente de que o homem não conseguiria. Ele resistiu, contudo, um olhar de Adam bastou para que Ziger optasse por obedecer. Diante da evidenciação de sua incapacidade, ela o forçou a realizar uma nova, notoriamente simples. Ele não conseguiu outra vez, e o sorriso maldoso dela o encolerizou. Na terceira tarefa, o capitão se irritou e saiu da sala.

A postura de Verbena mudou imediatamente, sua expressão divertida sumiu e ela voltou à seriedade apropriada.

— Como devem saber — ela começou, tal como seria se não houvesse o inconveniente com Ziger —, eu também ministrarei outras disciplinas para vocês, será a turma em que mais estarei presente, então quero que saibam que não exijo menos do que excelência dos meus alunos e que as próximas aulas de artes terão um conteúdo condizente com o nível de aprendizado de vocês. Agora, alguém poderia me informar quando foi a última aula de artes que tiveram e o que aprenderam até lá?

— Professora! — um garoto chamou e levantou-se em seguida.

— Sim?

— Se eu perguntar o que devemos fazer com essa folha de papel, vale para a minha pergunta única?

— Isso já é uma pergunta, não? — e ela mostrou um sorriso amigável após o silêncio assustado do menino. — Não vale. Nenhuma pergunta pertinente a aula valerá para aquela pergunta e quero que saibam, desde hoje, que vocês devem questionar cada aspecto do aprendizado até que compreendam o que eu estiver ensinando. Entenderam?

— Sim, senhora!

— E não precisam fazer nada com este papel, isso era para o capitão Ziger se mexer um pouco. Agora aproveite, que já estamos conversando, e me diga em que ponto da aula vocês pararam.

— Nós nunca tivemos aulas de artes, professora.

A resposta surpreendeu Verbena, ela acreditou que tinha lido tudo sobre a escola e seus membros, mas parecia que não. Ainda assim conseguiu dar uma aula decente, os alunos daquela turma não tinham tanto medo de dialogar, desse modo detectou a facilidade de aprendizado deles e descobriu que alguns traziam conhecimentos prévios de casa.

Ziger não apareceu mais. Saiu com raiva por fracassar na tentativa de aterrorizar Verbena e ofendido por ter servido de mero assistente, isso ele notou, mas nem de longe percebeu que Verbena debochava dele, quase desconfiou quando ela o tratou como um garotinho de quatro anos, mas escolheu acreditar que era um método feminino de ensinar. Precisaria de um nível intelectual que Ziger não tinha para entender a manobra.

— Imunda! — ele bradou fechando a porta de seu gabinete com um estrondo. — Pensa que é quem?

E ele jogou-se em sua poltrona, com a mão já cursando o caminho que tão bem conhecia, a gaveta mais alta de sua mesa, e pegou uma garrafa de conhaque de dentro dela. Era assim que pretendia passar o restante do dia, esgotando a garrafa de sua bebida favorita, trancado na sala do diretor para que ninguém mais o incomodasse.

Na primeira dose ele decidiu que teria de encurralar Verbena sozinha, e o indício de um sorriso moldou seu rosto enquanto imaginava que ela não teria tanta coragem longe do tenente-coronel. Terminou de abrir o sorriso quando pensou que Adam não passaria a vida cuidando dela, por isso não demoraria para ter a chance de mostrar a Verbena quem mandava na escola.

Verbena almoçou no refeitório com os demais professores e funcionários do setor administrativo, todos em um silêncio sepulcral, cada um evitava até mesmo olhar para o outro. Adam a deixou nesse horário, mas estava lá novamente quando ela voltou ao trabalho e a levou para casa ao término do expediente, sempre receptivo e cheio de assuntos, mas aquietou-se no último quilômetro.

— Tenha uma boa noite, senhorita Koch.

— Obrigada! Tenha uma boa noite também, tenente-coronel Molls.

— É... Senhorita Koch!

— Sim? — ela respondeu, tinha se comunicado dessa maneira tantas vezes naquele dia que esqueceu que não falava mais com os discentes.

— Por que quis saber de onde aquele rapaz, do terceiro ano, descendia?

— Porque o primeiro sobrenome dele é peruano, do tipo indígena.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Desconfiei que era algo do tipo. O que a senhorita pretende fazer?

— Vou relatar.

Adam pensou por um instante e Verbena esperou, notou que ele tinha mais a dizer.

— A senhorita poderia manter isso entre nós por enquanto? — pediu, então.

— Por que?

— Porque é uma coisa muito séria e eu gostaria de verificar melhor antes de informar. Pode ser uma simples coincidência, uma questão de forma de escrita talvez, e não quero causar problemas para uma família inteira só por uma palavra mal escrita. Nós, militares, não temos o costume de pesquisar e, às vezes, basta uma suspeita para tomarmos medidas enérgicas demais.

— Menos você, pelo que estou vendo.

— Não. Eu não sou o único que gosta de fazer o serviço bem-feito, mas fico feliz que tenha notado a minha boa vontade. Por isso, peço a oportunidade de averiguar.

— Está bem, darei a você o tempo necessário para fazer a verificação. Mas, se ele tiver uma ascendência mal ocultada, o coronel Novakohut precisará saber.

— Eu a informarei e a senhorita decidirá o que fazer.

Verbena saiu do carro. Mais uma vez pensativa sobre a atitude de Adam, ele claramente tentava se conectar a ela como um amigo para descobrir algo podre sobre sua vida. Dimitri avisou que ela seria vigiada, então colocar um informante tão perto era esperado, era esperado também que qualquer um deles a subestimasse o bastante para acreditar que não perceberia, mas um tenente-coronel pedir prudência para um garoto pertencente ao povo e não às forças armadas, era surpreendente.

Verbena sabia, de antemão, que Adam vinha de uma família de professores, que os pais tinham morrido havia alguns anos, que era o mais novo de cinco irmãos e só a mais velha era mulher, não era casado, não tinha filhos e era responsável pelos canis do exército até se tornar major. Nenhuma informação que a fizesse entender porque ele agiria daquela maneira, fato tão intrigante quanto sua alegria por servi-la e muito mais perigoso também. Ele defendeu populares duas vezes e, não só pareceu sincero, como ficou claro que tinha ciência de que agia contra as regras ao baixar o tom de voz em ambas as vezes. E, mais que isso, esconder algo, como a ascendência de uma pessoa, possivelmente vinda de país inimigo, era crime sem perdão, indiferente da patente que carregasse.

Naquela noite Verbena decidiu que precisaria investigar até que ponto Adam seria capaz de ir para cumprir o dever e até que ponto ele seria capaz de não ir.

A segunda feira seguinte veio cinzenta, anunciando chuva desde o alvorecer, para Verbena o clima pedia bons livros, o que foi a oportunidade perfeita para começar a estimular o gosto pela literatura nos alunos. Ela já havia se familiarizado com eles e percebeu que não tinham o hábito de ler, não porque não queriam, mas porque não podiam. Livros eram produtos de consumo restrito, a maioria não tinha sequer exemplares em casa. Por isso foi mais cedo à escola e pediu para usar os trancafiados na biblioteca desde a inspeção de Ziger, ela pensou em exigir ou simplesmente pegar as chaves e abrir, contudo, preferiu evitar conceder à Ziger mais um motivo para atrapalhar o seu serviço. Ele não respondeu ao pedido e não entregou a chave, mas para Adam ele entregou, e Verbena seguiu o plano.

Adam e dois zeladores a ajudaram a levar as caixas de livros para as classes, Verbena estava contente, ansiava por aquele momento, pois já passava do tempo de testar a disposição de seus alunos para a leitura. Depois ela foi para o pátio e ficou observando as atividades pré-aulas, viu os alunos cantarem o hino em um coro harmonioso, olhando para a bandeira, em seguida se virarem para a grande fotografia do marechal, com o punho direito serrado sobre o ombro esquerdo para proferir o juramento:

O marechal é a salvação

O marechal é a lei

Juramos lealdade ao marechal

Juramos obediência aos ensinamentos do marechal

Juramos obediência à vontade do marechal

Ao final Verbena acompanhou os adolescentes a sala de aula, em silêncio, ouvindo a chuva volumosa que havia começado pouco antes e, ao entrar, parou atrás da caixa de papelão colocada no canto oposto da porta, contendo setenta e dois livros, assim dizia o número impresso na lateral.

— Essa caixa ficará aqui — ela anunciou assim que os alunos se acomodaram. — Como sei que não preciso ensinar vocês a apreciar uma boa leitura, vou só dizer qual será a tarefa que precisarão executar com eles. A turma terá dois meses para ler cinco exemplares, a escolha é livre e, se quiserem trocar entre si, podem trocar, o importante é que leiam cinco diferentes e escrevam um relatório sobre cada um deles. No tempo que escolherem, desde que não extrapolem a data final. Não aceitarei menos do que cinco relatórios no término desse bimestre, porém, receberão crédito extra por cada relatório suplementar que me entregarem. Entendido?

A resposta em coro foi imediata. Ziger já estava ali, ouvindo seu recado quando ela terminou e a ouviu repetir as mesmas palavras em cada turma do primeiro, segundo e terceiro ano do ensino médio.

— Muito bem, Dimitri. Você terá uma semana para descobrir onde foi parar um destacamento inteiro dos nossos homens — falou Zunik.

Fazia pouco mais de uma semana que não conseguiam qualquer resposta para as perdas que tiveram e o mau humor do marechal subiu a níveis nunca antes alcançados.

— Mas, senhor, o major... — tentou falar Dimitri.

— Eu não quero saber de desculpas, você é o coronel, dê um jeito e faça o que tem de fazer. Quando eu voltar de viagem, quero respostas conclusivas.

— Sim, senhor!

Dimitri não quis contar que Edmund já tinha entregado um relatório, dizendo que não encontraram nada, nem por ar, se contasse precisaria dizer também que só sabia o que o major falou, porque não leu uma linha do relatório, muito menos se preocupou em ver algum dos vídeos, pois era certo que Zunik faria perguntas sobre o conteúdo do relatório, talvez ele até percebesse que Dimitri se esqueceu que Edmund pediu permissão para investigar outras regiões, determinadas vezes parecia que o tio lia os seus pensamentos. E queria baixar a cabeça para esconder os vestígios do seu descaso com o assunto, mas não ousaria fazer esse gesto na frente de Zunik, uma vez que ele interpretaria como fraqueza ou culpa, e respirou devagar para manter o rosto frio, foi um alívio quando o viu se virar para o general.

— Leon — falou Zunik —, você irá comigo, mas quero que esteja de volta a tempo de fiscalizar o serviço do meu estimado sobrinho aqui.

E Zunik saiu, deixando uma nova onda de alívio em Dimitri, ele teria um pouco mais de tempo. Assim foi para a central de controle tecnológico. Todos olharam para ele quando irrompeu pela porta, mas ninguém levantou ou mostrou honrarias, em vez disso voltaram às suas respectivas obrigações. Como Dimitri odiava a liberdade que aquele setor tinha.

— Major! — ele falou alto. — Quero respostas conclusivas e quero agora! Onde estão os homens do destacamento que foi enviado atrás daquele amaldiçoado Ás de Paus?

— Expliquei tudo no meu relatório, senhor — respondeu Edmund antes mesmo de alcançar o balcão da entrada.

— Eu quero saber de você! — urrou Dimitri.

— Não vimos nem os rastros deles, e nós verificamos as imagens tantas vezes que até as gravamos na memória. Me parece que não chegaram a sair da cidade, porque o local de onde o sinal do Ás de Paus foi enviado é deserto e não tinha sequer marcas de pneus lá, tudo o que posso assegurar é que o nosso destacamento nunca esteve naquele lugar e que cada recurso que temos está aplicado na descoberta do que aconteceu, mas...

— Estamos em temporada de chuva, as tempestades devem ter apagado os rastros! Raciocina um pouco, garoto.

— Como eu disse, é uma região desértica, chuva dificilmente chega lá, para ser mais preciso não chove no local a mais de cinco anos. Por isso eu e o tenente-coron...

— Eu não quero saber disso! — berrou Dimitri. — Vocês têm três dias. Até lá ninguém dorme, ninguém come e ninguém sai daqui. Se eu não tiver uma resposta satisfatória, ficarão aqui até morrer.

Dimitri saiu, batendo a porta atrás de si e foi para o escritório do marechal, gostava de usá-lo a sua vontade quando Zunik não estava, tanto quanto gostava de repetir as palavras dele sempre que estavam afastados. Dez minutos depois, o major bateu à porta, segurando os documentos que passou os últimos dias tentando fazer chegar ao coronel.

— Entra! — falou Dimitri.

Edmund abriu a porta. — Senhor.

— Não fui claro o suficiente com você?

— Foi, senhor...

— Excelência! Quantas vezes vou ter que ensinar?

— Perdão, excelência. Eu vim informar que eu e o tenente-coronel Molls organizamos um pelotão, com os homens e animais do nono batalhão, para investigar o desaparecimento dos nossos soldados...

— É? E esse pelotão foi enviado quando? — Dimitri interrompeu novamente, e Edmund desejou mandá-lo ficar quieto para que pudesse completar o que tinha a dizer.

— Não foi enviado. O senhor não permite a execução de ações desautorizadas e não tenho conseguido encontrá-lo para solicitar.

— Você teve semanas para pedir autorização.

— Eu pedi — pensou Edmund, mas optou por não dizer. — Também estamos investigando o incêndio da fábrica, a destruição dos navios e implementando o plano de contenção de danos que o senhor solicitou — explicou, devagar. — São trabalhos demorados porque operamos com recursos escassos. Talvez, se recebêssemos uma parte da verba que eu solicitei, poderíamos concluir o serviço mais rápido. As Andorinhas não contam nem com instrumentos de coleta suficiente, na falta do básico não há como fazer uma investigação minimamente satisfatória.

— Desculpas! Desculpas! E mais desculpas! Você veio aqui encher os meus ouvidos com pretextos para justificar a sua incompetência ou vai me explicar logo por que esse pelotão não foi enviado antes?

— Além da falta de autorização, esperávamos descobrir algo sem precisar enviar mais homens, não quero arriscar que desapareçam também.

— Temos homens o bastante para substituir qualquer um.

Passou pelos pensamentos de Edmund o porquê da aflição para achar os desaparecidos, se eram substituíveis.

— E eu tenho, como prioridade, mantê-los seguros — respondeu Edmund.

— E no que isso ajudou? Mandar seus brinquedos só serviu para perdermos tempo.

— Os drones têm câmeras, sensor de calor e de movimento, pudemos ver, pelo alto, o que não podemos ver por terra e, se perdêssemos alguns deles, seria melhor do que perder mais vidas.

— Você é muito mole, major, não foi feito para o exército, nem deveria estar aqui.

— Tenho sua permissão para sair em missão, coronel Novakohut?

— Você vai sair do seu casulo para ir em uma missão?

Edmund precisou se controlar para não apontar a ironia do que estava ouvindo, uma vez que Dimitri nunca saía para nada que não fosse obrigado pelo marechal.

— Eu gostaria de fazer uma busca mais ampla, já que sabemos onde o destacamento não está — respondeu em vez do que desejava.

— Você nunca pode fazer só o que eu mando, não é?

Edmund o ignorou e continuou:

— O tenente-coronel não pode sair da cidade agora, mas...

— Ah, ele pode e ele vai!

— Mas o senhor deu ordem para que ele não deixasse a professora.

Dimitri pensou por um instante, tinha esquecido que deu esta ordem a Adam para que ele pudesse espionar Verbena a procura de alguma infração. — De fato... Então você e seus brinquedos terão que bastar.

— É uma equipe bastante eficiente, bastarão sem dúvidas.

— Se é assim, vá de uma vez, a autorização será enviada antes que termine de se preparar.

— Eu já trouxe as autorizações, elas só precisam ser assinadas e carimbadas.

— Hum... Me dê aqui!

Dimitri pegou as folhas de papel e começou a ler rapidamente a primeira.

— O senhor deseja ir para avaliar o nosso trabalho? — perguntou Edmund.

Dimitri levantou a cabeça e cravou o olhar no rosto de Edmund. — Está falando comigo?

Dessa vez Edmund não foi capaz de disfarçar e baixou a cabeça em meio a um longo suspiro. Dimitri adorou ver que ele começava a perder o controle, buscava um motivo para expulsar o major fazia anos.

— Vossa excelência deseja ir para avaliar o nosso trabalho?

O coronel abriu um sorriso perverso. — Você não acha que já tenho trabalho demais? Pensa que ainda tenho que servir de babá para incompetentes?

— Não, senh... excelência.

— Que bom para você, major.

E ele voltou para a leitura, escreveu no documento, assinou em seguida, carimbou e devolveu a Edmund, com o olhar já verificando a outra folha de papel.

— O que é isso?

— Se me permite, queria pedir novamente autorização para reformular o nosso sistema de comunicação.

— Quer que eu assine uma autorização baseada nas suas suspeitas de invasão? — desdenhou Dimitri.

— São suspeitas muito fortes — respondeu Edmund, incisivo, e Dimitri o encarou, ameaçador. — Excelência — emendou, não entendia a necessidade de ficar repetindo aquele termo para falar com ele, ter de repetir o termo: “senhor” incontáveis vezes já era incômodo, agora isso também. Seus homens nunca o chamavam daquele jeito e o respeitavam muito mais.

— Suspeitas infundadas, nada mais que fricote de um moleque querendo mostrar serviço.

— Não nos custará nada, até trará melhorias ao sistema.

— Custará a sua falta de empenho em fazer o que mandei. E não quero mais ouvir falar sobre isso, desapareça da minha frente e não volte mais se não tiver novidades que me deixem feliz.

Edmund assentiu. — Assim será feito — disse e saiu para não ser obrigado a acrescentar nenhuma palavra de respeito forçado, era seu protesto particular contra os desmandos de Dimitri.

O coronel considerava Edmund uma criança desprovida de motivos para ocupar o cargo que ocupava, não era de família importante, não fez um bom casamento e ainda o julgava arrogante por sua inteligência. O pouco trabalho que Dimitri fazia costumava ser minimizado pelo rapaz, porque ele achava fácil, simples, simplório, e queria dar um tiro na cabeça de Edmund cada vez que ele apontava a necessidade de melhorar um de seus feitos, o que eliminava o pouco que poderia reivindicar autoria.

Dimitri sabia que não era proposital, fazia parte das funções do chefe do setor de inteligência nacional, mas o aborrecia da mesma maneira. Além de tudo, os insistentes pedidos de verbas representavam uma ameaça adicional para Dimitri, pois ele usou o montante para encomendar um carro novo, e as sobras para renovar o guarda-roupa.

O coronel era acostumado a ter tudo o que queria, na velocidade de seus desejos. A primeira vez que se viu contrariado foi ao ingressar no exército, achou um cúmulo ter de servir como soldado comum quando se alistou e inconcebível ter de escalar a hierarquia militar como todos os demais, só porque o tio dava mais valor à méritos do que ao sangue. Teve sorte por Leon gostar tanto dele que concedeu privilégios para subir como queria, na total ausência do esforço necessário. Quando Edmund chegou, convidado direto para o cargo de major por seus extraordinários talentos acadêmicos, Dimitri sentiu como uma ofensa pessoal.

Uma hora depois, o pelotão saiu, liderado por um major revoltado e destituído de esperanças de encontrar pistas, menos ainda alguma que pudesse agradar ao coronel, considerando que os rabiscos que ele fez sobre a autorização limitava as buscas ao único lugar que Edmund não pretendia ir. A pedreira Cesno.

Ele já não se sentia bom em missões presenciais, uma que não seria mais que um passeio, tendia a ser pior. Se sobressaía em frente aos computadores, cercado de pessoas que confiava, não isolado com soldados desconhecidos, treinados somente para trabalhos físicos, nas ruas. E, como se não bastasse, sem Wolsh, seu fiel e competente assistente, para ajudá-lo com os inúmeros imprevistos que certamente surgiriam.

O rapaz não era apenas um subalterno, era seu amigo, ganhou um cargo militar justamente para poder trabalhar com Edmund e nunca mais foi chamado pelo primeiro nome, assim se sentiria um militar verdadeiro, porém, não teve qualquer treinamento ou vivência militar, por isso o major não podia levá-lo em campanhas.

Longe dali, Danielle Beatrice Gassen Novakohut, a esposa de Dimitri, retirava lentamente a maquiagem feita, com afinco, para cobrir o roxo azulado no arco da bochecha, parecia mais azul naquele dia e não conseguiu cobri-lo completamente, aquele hematoma demoraria para sumir, sua pele era muito branca, pouca coisa não a marcava e uma pancada não era uma delas. “Ótimo.” Danielle pensou, Dimitri odiava quando ela ficava com marcas onde as pessoas poderiam ver. Pensar naquilo fazia seus olhos teimarem em arder e ela teimar em não os deixar chorar.

Após dar ordens para Edmund, Dimitri foi para a sua casa, e chegou numa revolta fora do comum, rugiu quando viu que a esposa não cobriu bem o hematoma e, por isso, jogou os pratos e tigelas que ela havia arrumado sobre a mesa de jantar para todos os lados, principalmente nela, suas roupas ainda mostravam as manchas do macarrão que fez do jeito que ele gostava.

O jantar rendeu tanto trabalho, sempre rendia e ela detestava cozinhar. Era estressante procurar pratos que melhor agradassem ao marido, por vezes preferia morrer a servi-lo e flertava com a ideia de morte cada vez que precisava satisfazer suas necessidades na cama. Embora ele tenha agido como um louco e arremessado a travessa de macarronada nela, Danielle se agarrava a pequena alegria de que Dimitri não subiria para o quarto dela naquela noite, ele amanheceria fumando na sala de estar.

Sua avó dizia que houve um tempo em que as mulheres não precisavam se prestar àquilo, eram donas de si, podiam fazer o que quisessem, quando quisessem. Trabalhavam e tinham plena escolha para satisfazer as próprias vontades, até para satisfazer e explorar a própria sexualidade, como era na Europa, onde viveu durante anos. Com frequência a moça se perguntava como o seu país chegou naquele ponto em que ela e as demais mulheres viviam para contentar aos homens, que se aprontaria para a bela festa de abertura da fábrica, para a qual foi particularmente convidada, e não iria porque o esposo não foi buscá-la e ela não podia afrontá-lo indo sozinha, pior que isso, ainda tinha que cozinhar para aquele homem como uma recompensa.

Na noite da festa, Danielle ficou com o vestido luxuoso, os sapatos requintados, a maquiagem elaborada e o penteado sofisticado como uma forma de revelia muito bem compreendida por Dimitri, ela teve um breve deleite ao ver o habitual olhar azedo do marido percorrer o seu corpo, primorosamente vestido, antes de explodir em um ódio desproporcional e descontar a raiva em cada parte que pôde atingir do corpo da moça, ele estava descontrolado de tal maneira que esqueceu de evitar o rosto dela.

Danielle passou a semana escondida em casa por conta das dores, se ela não se exercitasse com tanta disciplina, justamente para tentar evitar que Dimitri a machucasse demais, teria costelas quebradas. Mas, naquela noite, ganhou o hematoma que estava sarando com lentidão em seu rosto.

Cada vez que era agredida, física, mental e sexualmente pelo marido, Danielle pensava no que adiantou ter crescido tão obediente, seus pais a criaram para ser a futura esposa de Dimitri, ela foi escolhida logo depois que nasceu, estudou fora porque a esposa de um líder não podia ter menos no currículo e, enquanto os colegas usavam drogas escondido dos pais, ela cursava contabilidade, fingindo cursar moda em paralelo com a culinária paga por eles, e arrependia-se por não ter sido rebelde, previsto o futuro que teria e, quando os pais chamaram para se casar com Dimitri, ter ficado em Londres, preferia passar fome nas ruas geladas da cidade do que viver como vivia. Mas, fazia anos que tinha se conformado com o destino que não evitou, e esperava paciente pelo dia em que tudo terminaria para ela.

Um andar abaixo, Dimitri fumou um cigarro atrás do outro, perdido em pensamentos tão tempestuosos que nem se lembrava mais do surto que teve minutos antes. Ora ou outra jogava uma bituca contra a parede, a sua frente, e a deixava fumegando sobre o tapete branco.

O Ás de Paus parecia estar em todos os lugares, observando com olhos grandes demais, tolhendo tudo o que Dimitri conseguia concretizar: ele negociou os navios novos, o Ás de Paus afundou, ele reestruturou as antenas de comunicação para que pudesse dominar as informações que chegassem e saíssem num raio de quinhentos mil quilômetros — Zunik deu tapinhas em suas costas e elogiou o seu empenho —, o Ás de Paus derrubou o sinal, o raptou e o criptografou fazendo-os perder até mesmo o controle que já tinham, agora queimou a fábrica pela qual trabalhou com real esmero.

O coronel não imaginava o que não daria para ter uma vaga ideia de como ele conseguiu incendiar o prédio, depois de Dimitri ter dobrado a guarda. Como ninguém viu o que estava acontecendo para impedir? Ele decidiu ali que cada homem, em vigília, no local seria interrogado novamente no dia seguinte e alguém teria que dar alguma informação útil ou pagariam caro pela falha. Ele sabia que o Ás de Paus jamais pararia desde a sua aparição, por isso aumentou o número de soldados nas instalações importantes da região, não adiantou nada, ele achou formas de destruir o que quis destruir.

Dimitri sonhava em capturá-lo. Se ele o pegasse, Zunik o transformaria no seu homem de maior confiança, talvez inventasse uma posição especial para ele, melhor do que professora titulada, melhor do que general condecorado. O coronel odiava a sua patente, via como baixa demais para o único herdeiro do líder maior, mas estava certo de que o tio não deixaria o posto para ele se não fizesse algo grande, Zunik sequer deu o cargo de general quando Jesus H. Koch morreu só porque ele ainda era o tenente-coronel e o marechal se importava mais com hierarquia do que com descendência. Dimitri ainda tinha que fazer o gesto de reverência ao marechal e ver uma mulher, desconhecida, desobrigada de tal exigência.

E o coronel andou pela sala, pelos aposentos inferiores, quebrou coisas, bebeu e saiu para a casa noturna secreta que ele fingia não existir, mas passava grande parte das noites, se fartando com sexo, drogas e álcool, depois passava o dia fingindo repudiar e caçar lugares como aqueles.

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