Domadora de Abutres Ás de Paus · Capítulo 15 de 33
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Domadora de Abutres

Quando Verbena chegou à sede do governo, foi surpreendida com o pedido de correção do discurso do marechal, ela quis recusar, mas Leon foi tão gentil no pedido que pegou o papel e se afastou para ler em paz, era um discurso surpreendentemente curto, direto e simples, ela não viu erros e devolveu com apenas uma observação.

— Seria interessante mencionar o aumento da atividade militar nas ruas e dar um motivo coerente para isso — aconselhou.

— Não falamos sobre aumento da atividade militar — respondeu Leon.

— Mas imagino que vai haver, foi a sugestão do coronel, e podemos usar o pronunciamento para justificar.

— Hum... Bem pensado. Vamos incluir, obrigado senhorita Koch, não estamos acostumados a lidar com civis.

— Que bom que pude ajudar.

Leon sorriu e seguiu na direção de uma das muitas salas adjacentes, voltou cinco minutos depois e colocou o discurso no lugar que Zunik ocuparia.

O pronunciamento foi diferente do que Verbena pensou. Antecipou algo pomposo como era o costumeiro, cheio de apoiadores posicionados às costas do marechal com cabeças prontas para assentir em concordância. Mas foi apenas ela, o marechal, Dimitri e Leon. Todos muito sérios sentados atrás de uma mesa envernizada, com um fundo mosaico e uma câmera pequena, operada por uma só pessoa.

Era lógico, considerando que a maioria da população não tinha acesso a televisores e veriam pelos telões instalados nas ruas ou em comunicados impressos colados nos muros. Mesmo assim, pareceu atípico para a professora.

Dimitri resmungou quando foi afastado para que ela ficasse do lado esquerdo de Zunik, com Leon do lado direito, só sobrava o lado esquerdo de Verbena para ele. Ela sentou-se, quieta, ereta, altiva e atenta. Zunik começou o discurso, sua voz grossa preencheu o ambiente e tudo o mais pareceu silenciar ao som de suas palavras ásperas.

Ele iniciou cortês, falando das “boas notícias” sobre a reestruturação do sistema de distribuição de alimentos e de entrega dos produtos de exportação, que estava inserindo a exemplo dos modelos modernizados que viu em sua recente viagem ao exterior; deixou subentendido que saiu do país para isso e não para negociar armamento, como de fato foi.

Em uma fala estoica, enfatizou o interesse exclusivo de melhorar a vida da população, o que foi usado como justificativa para as supostas reformas que ele afirmou estarem ocorrendo nos mercados e armazéns. Aclamou sua preocupação com a segurança dos cidadãos e comunicou a troca das câmeras por novas, de última geração, afim de assegurar a proteção dos moradores. Prosseguiu garantindo que, até a instalação de cada uma, mais soldados cuidariam das ruas.

Aos poucos, Zunik foi adotando uma postura mais severa ao falar do novo toque de recolher e do rigor da lei para quem fosse pego sem permissão após o horário; das novas identificações que seriam impostas aos trabalhadores noturnos e diurnos e sobre as revistas diárias que passariam para duas em vez de uma nos residentes do segundo anel, três nos residentes do terceiro anel e quantas mais a guarda desejasse fazer em ambos os anéis. Ele terminou elogiando o povo próspero e reforçando o poderio da nação. Mas reclamou da necessidade de dar satisfações à população depois que a transmissão acabou.

Para animar Zunik, Leon entregou a ele o relatório das buscas pelos carros fortes, ele o recebeu minutos antes do pronunciamento e esperou até que terminassem para mostrar.

— Só um? — questionou o marechal.

— Sim e esse foi adquirido à custa de muito esforço — respondeu Leon.

— Pegue Dimitri, mostre que você serve para alguma coisa!

Dimitri pegou o documento e saiu da sala, sabia o que fazer, colocar em prática o plano que achava ordinário, de uma reles civil, incapacitada.

Ele se dirigiu ao campo de treinamento e aos recrutas jovens novamente. Agrupou os garotos, incumbiu o sargento, de quem não se preocupou em saber o nome, de comandar a tarefa e instruiu sobre o sinal que deveria enviar quando estivessem prontos no local identificado, depois voltou para a sede do governo e se plantou diante do rádio, no quartel general improvisado, dessa vez, cercado por técnicos e operadores mais habilitados do que ele para cuidar do setor.

Dimitri não se importou com as companhias, o que interessava era ficar longe dos olhos de Zunik, à espera de alguma notícia satisfatória, no fundo torcia para que o plano desse errado e ele nunca mais arriscasse montar uma estratégia baseada na ideia de Verbena ou de qualquer pessoa como ela. Por outro lado, um sucesso naquela missão poderia fazê-lo esquecer de reunir os soldados que foram, com Edmund, procurar os desaparecidos recentemente resgatados.

O contra-almirante Lorenzini passou a tarde tentando contatar o porta-aviões, pretendia cumprir as ordens do marechal o quanto antes, ele tinha completa consciência da sua condição de contra-almirante figurativo, em constante vigilância e que nunca poderia tomar uma decisão sem que antes fosse aprovada.

Por isso, Eric procurava excelência, agilidade e rapidez em tudo o que fazia. Mesmo assim desconfiava que Zunik o tivesse encarregado da supervisão das frotas ali, na capital, para afastá-lo da central de comando da marinha de maneira sutil, uma vez que Eric Lorenzini conseguiu uma notória lealdade de seus comandados diretos.

Esse era um dos motivos porque Eric sempre ia à capital tenso, porém, daquela vez, viajou atemorizado também. A convocação foi diferente, não recebeu informações sobre a finalidade do chamado, apenas a ordem para levar dados sobre os gastos gerais relacionados a perda dos navios de guerra. Relatórios que poderiam ser obtidos por qualquer um, em qualquer lugar, não precisavam dele para entregá-los.

Foi uma surpresa intrigante ver uma mulher afro-indígena sentada entre os chefes maiores do país e um leve conforto descobrir, pela boca do general, as funções dela e sua crescente importância nos moldes do novo governo de Zunik. Podia ser que a convocação dele não fosse razão de preocupações.

Eric pensava nisso enquanto ouvia os sons irritantes do rádio. Para seu desassossego, não conseguiu contato com o porta-aviões naquele dia e, à noite, decidiu chamar o capitão Levi Bronielsken, seu velho amigo, padrinho de casamento e da filha, e também comandante da Base Naval 5, instalação mais próxima do porta-aviões, o que foi fácil e rápido, ele obteve sucesso na primeira tentativa.

— Eu fiquei sabendo do problema no porta-aviões quando o major Zinekolski chegou aqui — explicou o capitão. — Estranhei porque nem da chegada dele eu fui informado e quando falei com o Bespalez, ele disse que tinha recebido ordens diretas do coronel Novakohut.

— E eu só fiquei sabendo desse acontecimento ontem. Mas, até onde me lembro, eu é que respondo pelo R-801.

— E também por essa base.

— Correto.

— Tem mais umas coisas que você precisa saber.

— O que?

— O porta-aviões se moveu, sem autorização, várias vezes alguns dias atrás e eu só recebi alguma explicação porque insisti todas as vezes que percebi, mesmo assim falaram comigo apenas duas vezes.

— E qual foi a explicação.

— Informaram que houve problemas técnicos e se moveram para escapar da zona magnética.

Toda a região estava sobre uma área de instabilidade magnética. Insignificante para os rádios antigos, mas determinante para as vias de comunicações mais utilizadas. Mesmo assim não era tão intenso que os pudesse isolar completamente como tentavam fazer crer.

— E que coisas mais?

— Isso é bem estranho, tenho recebido alertas de ataque ao porta-aviões, um hoje inclusive, depois silêncio e até agora não sei o que está acontecendo, só sei que não há ataque porque o Bespalez disse que estavam passando por algum tipo de treinamento, não explicou qual e desconheço treinamentos como este.

— E você tem notícias do major Zinekolski?

— Nenhuma desde que ele pediu um helicóptero três dias atrás e depois cancelou.

— Ele disse por que queria o helicóptero?

— Para vir à base e voltar à capital. O general Handersen deu ordens urgentes para que ele voltasse.

— Certo. Obrigado, Levi! Nos comunicaremos em breve, espere o meu contato.

— Entendido.

Entretanto, Eric não pretendia fazer outra chamada ou novas tentativas de contato com o porta-aviões. Ele foi falar com o marechal, mas não o encontrou, apenas Leon estava na sede do governo, o que ele viu como sorte porque preferia falar com ele.

— Entre, contra-almirante, estou me organizando um pouco, não sou acostumado a ficar aqui — falou Leon quando Eric bateu em sua porta.

Leon não tinha assistente ou secretário, não via necessidade de ter um, ainda mais porque, excetuando os comandados de Edmund, precisava ser cabo ou sargento para ser assistente, não mais e nunca menos, e ele achava um desperdício treinar militares para aquele serviço quando poderiam distribuir o cargo para outras pessoas da população.

— Senhor, eu gostaria de pedir permissão para ir ao R-801.

— Então tivemos um pensamento gêmeo, eu também tenho pensado em ir para lá. Acredito que há ocorrências que precisam de investigação naquele porta-aviões e o major é um amigo, me preocupo que algo possa ter acontecido a ele.

— Eu também. Soube que o major Zinekolski quis sair de lá quando o senhor chamou, mas cancelou o helicóptero que pediu e não se sabe mais dele desde então.

Leon ofegou, a descoberta que Edmund informou, no recado, tinha potencial para colocar a vida dele em risco e, imaginar que podia ter sido o último ato do rapaz, fez o coração de Leon acelerar a tal ponto que podia senti-lo pressionar suas costelas.

— Eu não sabia disso — confessou. — Você tem minha permissão, mas tome muito cuidado lá.

— Pode deixar, general, eu tomarei.

— Gostaria que me fizesse um favor também.

— É claro.

— Estou em dúvida sobre algumas atividades do R-801 e preciso que investigue, mais especificamente o depósito principal.

— Atividades de que tipo?

— Creio que desvio e venda de equipamentos e armas militares.

— Não... Senhor... Eu não acredito que esteja acontecendo uma ação dessa natureza.

— Por isso estou pedindo que investigue, mas precisa ser discreto, o mais sigiloso possível. Se conseguir, não conte a ninguém.

— Não sei como fazer isso sem contar a alguém.

— Acho que as câmeras de segurança podem ajudar. E, caso encontre alguma coisa, evite mostrar que você viu, temo pela vida do major, não quero arriscar a sua também.

— Certo... Vou tentar.

— Se encontrar algo suspeito, volte e reporte a mim. Tomarei as providências cabíveis.

Eric saiu da sede do governo mais preocupado do que quando chegou e, na manhã seguinte, pegou o primeiro avião disponível para a Base Naval 5. Foi determinado a voltar com o major ou com respostas.

O dia nasceu com Dimitri esperando, e nenhum sinal veio do agrupamento designados para atocaiar o carro forte, estava demorando mais do que o esperado, já pensava em ir embora quando ouviu o chiado do rádio, em seguida duas tentativas de comunicação supostamente falhas, era o sinal, quem ouvisse pensaria que estavam tentando se comunicar e não conseguiam.

O combinado era esperar mais trinta minutos e Dimitri enviar, pelo mesmo rádio, a ordem para um pelotão se dirigir até o local como se tivessem acabado de rastrear o veículo, e assim foi feito. Àquela altura dos acontecimentos até ele começava a acreditar que o Ás de Paus poderia ouvir e suspirou, pensativo, agora era só esperar e ele não aguentava mais esperar. Então se levantou e foi para a sua sala, se tinha que exercitar a paciência, seria deitado confortavelmente.

Horas depois o general procurava por ele. Leon sempre trabalhou muito, mas não como naquela semana, corria de um lado a outro, dando ordens, reposicionando militares e líderes de governo, recebendo e enviando documentos e tudo o mais que aparecesse, sua lombar doía como nunca e sentia uma falta absurda do décimo segundo batalhão, seu lugar de serviço antes de Zunik exigir sua transferência para a sede do governo. Para piorar, Dimitri, pessoa acostumada com os deveres internos, havia desaparecido, e agora estava também preocupado com o contra-almirante.

Com tantas responsabilidades, Leon recebeu tarde a informação de qual unidade foi enviada para a campanha. Por isso tinha que falar com o coronel antes de Zunik, o marechal já fervia de raiva pelo vexame que Dimitri fez o exército passar, se descobrisse o que ele tinha feito agora, poderia revogar o seu cargo.

O homem foi primeiro à sala de Dimitri, viu a porta fechada e o assistente não sabia o paradeiro dele, pois não estava em sua mesa quando Dimitri entrou. Depois certificou-se de que o rapaz não havia saído do prédio e procurou pelos diversos departamentos até voltar àquela sala, o assistente não estava lá dessa vez e decidiu olhar o interior por si só.

— Eu avisarei se mais alguma coisa mudar, Orton — dizia Dimitri ao telefone quando Leon entrou, o coronel levou um susto tão grande que o aparelho escapou de sua mão e ele fez malabarismos para que não caísse.

— Posso saber por que não bateu antes de entrar? — rosnou Dimitri.

— Eu bati — respondeu Leon.

Dimitri devolveu o telefone ao suporte, de cara feia.

— O que você quer?

— Saber o motivo de você ter mandado novatos para a missão.

— Mandei porque quem decide isso sou eu.

— Por que essa fixação pelos recém alistados, Dimitri?

— Não é óbvio? São dispensáveis e facilmente substituíveis.

— E mais suscetíveis ao descuido também.

— E daí?

— Dimitri, você já está por um fio com o seu tio, se houver falhas hoje em consequência de um erro seu, não existirá perdão.

— Falhas para esse plano infantil? Por favor, Leon.

— Não cabe a nós julgar isso.

— É? Então cabe a quem?

— Ao marechal!

— E à senhorita Koch, parece.

Leon suspirou, apertou os olhos com uma das mãos e voltou-se a Dimitri.

— Dimitri. Tem alguma coisa que você queira me contar?

— Não!

Nervoso, Dimitri levantou-se e andou para a saída.

— Você sabe que pode contar comigo, garoto. Se tiver algo incomodando, pode falar.

— Tenho trabalho a fazer, me dê licença.

E Dimitri saiu, apressado, para o seu refúgio no Centro de Operações, queria estar lá quando as notícias chegassem e acreditava que não demoraria, mas demorou tanto quanto o primeiro grupo, a noite já caía quando o sargento chamou.

— Por que demorou tanto? — esbravejou Dimitri.

— Desculpe, senhor, tivemos problemas.

— Que problemas?

— Encontramos o carro forte que foi rastreado, em um galpão protegido. Houve resistência, um segundo grupo de homens armados estava à espreita e atacou também, mas conseguimos afugentá-los e havia mais três carros fortes, recuperamos quatro, ao todo. Acabamos agora de revistar o local e não achamos mais nada, o galpão só guardava os carros.

O sargento tomou cuidado com o que dizia, por rádio, e Dimitri entendeu, queria saber mais, mas teria de esperar.

— Tem como trazer os carros?

— Tem. Eles estão preparados para viagem, provavelmente longa, parece que frustramos um grande transporte.

Dimitri se animou, isso queria dizer que recuperaram algo, talvez bens valiosos.

— Então deixem guarda reforçada no galpão e voltem com os carros.

— Entendido.

O coronel recostou-se na cadeira, planejando o que diria ao tio. A princípio desejava que desse tudo errado, mas agora estava feliz que deu certo, tirar fosse o que fosse do Ás de Paus era muito bom.

Na manhã seguinte, os carros fortes chegaram, atulhados de fortunas extraídas do Imperial Bank e Zunik viu, na ínfima vitória, a oportunidade de acalmar os investidores e apoiadores de maior importância. Assim marcou um jantar, aquela noite, na casa de Leon.

Apesar de sua falta de ânimo por conta da preocupação com Edmund, Leon não pôde recusar. Ele procurou falar com o contra-almirante com a frequência necessária para que todos soubessem que ele estava vigiando Eric, era a sua forma de protegê-lo dos perigos de seguir os passos do major, mas não foi o bastante para afastar as inquietações.

Ilde, no entanto, ficou em êxtase. Amava um agito na mesma proporção que odiava a calmaria e, uma hora depois de ter sido avisada, a casa fervilhava com os preparativos, ao anoitecer estava perfeitamente apresentável para a chegada dos convidados ilustres.

Danielle, Dimitri, Adam e Verbena foram os primeiros, e Ilde as puxou para perto. Queria apresentar Verbena às outras esposas, na intenção de recrutá-las como aliadas na missão de arrumar um marido para a professora e sua beleza exótica. A aposta inicial das novas casamenteiras foi Adam. Tão óbvio para Verbena que nem precisava ouvir os escrachados elogios e exaltações das qualidades do rapaz para perceber suas pretensões, apesar de Ilde tê-lo descartado mais uma vez. Verbena terminou conversando com Sônia, a única que ria dos esforços das demais esposas em vez de tentar empurrá-la para um futuro casamento.

A casa encheu, Zunik almejava exibir o feito como algo grande, por isso convidou os ministros e alguns argentários para contar sobre os últimos acontecimentos, exaltou o desempenho de Dimitri, com orgulho, e Dimitri se deleitou, Leon também, gostava da alegria que o reconhecimento do marechal causava no coronel.

Os ministros, porém, não estavam muito felizes, parte de seus bens foram roubados, alguns milhões recuperados não era o suficiente para repor as perdas de todos, e o seguro não bastava para colocar a maioria das riquezas de volta nos cofres. Um dos ministros, era proprietário da metade dos armazéns e cuidava do comércio exterior, ele foi apenas comunicado dos ocorridos e continuava cego em relação às providências tomadas, mas ninguém tinha coragem de perguntar ao marechal o que seria feito.

Quando Zunik percebeu que eles encontraram um assunto que levaria ao que mais foi roubado do banco, mandou chamar Verbena, sabendo o quanto se distrairiam com ela e, talvez, não retornassem ao tema.

Adam estava ali, ao lado do marechal, ouvindo os aranzéis dos ministros. Não gostava deles, sentia-se repelido por aqueles homens e queria ficar sempre tão longe quando fosse possível das autoridades. Por isso se ofereceu para buscar Verbena.

O rapaz os admirava pela dedicação religiosa que tinham com os Centros de Cura. Os ministros os financiavam e se mantinham presentes em visitas coletivas quinzenais aos locais. Os Centros recebiam-nos num sistema de rodízio para que, cada um deles, pudesse voltar no intervalo de quarenta e cinco dias, onde eram recebidos com pompa e deferência. O tenente-coronel se apegava a essa generosidade para repudiar seus sentimentos em relação a eles. Mas não tinha poder sobre as sensações e não conseguiu controlar a sensação boa de se afastar do grupo. Assim avisou Verbena e não a acompanhou de volta.

— Senhores, essa e a senhorita Koch, imagino que saibam de quem ela é filha — apresentou Zunik quando ela se juntou a eles. — Essa jovem herdou a competência e o talento do pai, foi graças a ela que recuperamos os carros fortes e ela também é responsável por descobrirmos o desmanche daquele naipe do demônio.

Verbena sorriu para aqueles senhores arrogantes, soberbos e fora de forma, todos a encararam com nojo indisfarçável.

— É um prazer conhecê-los — falou Verbena, voltando ao modo formal de diálogo, esses homens nem a ouviriam de outra forma. — Soube maravilhas sobre vocês.

— Como o que, por exemplo? — perguntou Diógenes Pompeo, ministro de desenvolvimento.

— Que sem a sua sagacidade nas estratégias de desenvolvimento nacional, já teríamos sucumbido ao desastre há anos. Assim como, sem os serviços impecáveis do senhor Sanderson, nossas relações exteriores poderiam se abalar pela conduta desse... — Verbena contorceu os lábios em asco — Ás de Paus, já que perdemos parte do que estava vendido e que precisávamos entregar nos próximos dias.

Sanderson sorriu, comprado pelo elogio.

— Mas confesso que minha paixão é a agricultura — continuou Verbena, virando-se para o mais carrancudo dos ministros. — Como o senhor conseguiu aquecer o mercado no ano passado, depois da queda nas exportações?

— Com muito trabalho, senhorita Koch — ele respondeu com as rugas nos cantos dos olhos contraindo em um prenúncio de sorriso, não demoraria a ser mais um seduzido pelos encantos de Verbena, eram todos muito vaidosos, e Dimitri viu que não suportaria, pegou uma taça de vinho e se afastou a procura de convidados que não lhe dessem ânsia de vômito.

— Saiba que o senhor fez uma empresária do ramo muito contente — Foi a última coisa que Dimitri ouviu Verbena dizer e receber os risos enfeitiçados dos ministros como resposta. O coronel percebeu que o assunto passaria dele para ela quando Zunik pediu para chamá-la, o marechal queria exibir a joia preciosa que tinha em seu poder.

— Dimitri!

Ele virou-se, era Zunik e ele olhou para o círculo de conversa do qual tinha acabado de sair. Verbena dominava os poucos homens que Dimitri respeitava, como macacos amestrado. Eles, justamente eles, dialogavam como se estivessem cegos para os genes evidentes dela, jamais imaginou que os ministros a aceitariam algum dia, menos ainda tão rápido. E Leon, rindo por algo que a moça disse, não oferecia nenhuma surpresa.

— Senhor?

Zunik sorriu para não atrair atenção indesejada.

— A perícia me entregou o relatório sobre os carros fortes esta tarde.

— Que bom, foi rápido — surpreendeu-se Dimitri.

Até para os padrões do exército, aquilo era rápido demais.

— Isso porque as únicas digitais encontradas eram bem conhecidas.

— De quem?

— Suas e daquele sargento mal saído dos cueiros que você mandou na missão. Ele contou que entrou no primeiro carro que achou e verificou um dos malotes, foi onde encontraram as digitais dele, mas as suas estavam nos quatro veículos — Zunik murmurou. — O que você aprendeu na escola, Dimitri? Como vasculhou os carros sem luvas? O sargentinho ainda tem a desculpa de que nunca frequentou uma escola, mas você!

— Eu não vasculhei nada.

— Então como as suas digitais estavam lá?

Zunik esqueceu de disfarçar e uma veia grossa se formou em sua testa, apenas por um segundo e soltou o ar devagar enquanto sorria novamente.

— Eu não sei — respondeu Dimitri.

— Você nunca sabe. Daqui para frente você vai refazer os cursos para militar e vai participar ativamente das operações até eu achar que está pronto. Será assim ou perderá o seu cargo e vai patrulhar como um soldado comum. Entendeu?

— Entendi, senhor.

Mas Dimitri não entendeu, entrou em um dos carros, porém, não tocou em nada e não merecia aquele castigo.

— E nem pense em sair daqui antes de o jantar acabar. Para todos os efeitos, você é o meu orgulho e vai se especializar mais para continuar sendo.

Ir embora era exatamente o que ele pensou em fazer.

O jantar transcorreu bem depois disso, Dimitri não conseguiu disfarçar o desgosto, sua desculpa era a de que ainda estava preocupado em recuperar o restante do que foi roubado e os menos íntimos acreditaram.

— Não se preocupe, rapaz — acalmou o ministro da economia. — Já elaborei uma estratégia para contornar esse problema.

O homem estava com o ego inflado pela meia hora de conversa com Verbena e já tinha traçado inúmeras estratégias antes de a refeição ser servida. Dimitri deu um sorriso apagado em resposta, os ministros estavam dóceis como gatinhos, ele não sabia que Verbena deu um jeito de tranquilizá-los e impulsioná-los a trabalhar como fazia com seus alunos difíceis, mas Zunik e Leon sabiam, eles testemunharam suas manobras verbais com cada um deles até que estivessem prontos para fazer o que o marechal pedisse com um sorriso largo.

Quando foi se despedir, Zunik segurou ambas as mãos de Verbena. — Senhorita Koch, você tem a minha mais profunda gratidão — falou.

— Pelo que, senhor?

— Amansou os meus ministros como uma exímia domadora de cavalos.

Verbena riu. — Não fiz nada que excedesse a minha obrigação.

— Apenas aceite o agradecimento, senhorita Koch — aconselhou Leon, e Ilde sorria para ela em incentivo.

— Eu sei reconhecer o bom trabalho quando vejo um — acrescentou Zunik, e Dimitri, doído pelas palavras duras do marechal mais cedo, virou o rosto para Danielle a tempo de flagrar o seu sorriso direcionado a Verbena.

Ele não quis acreditar que até ela foi fisgada por aquela mulher e, no fundo, o coronel sabia que Verbena foi útil, pois nunca viu os ministros tão dóceis e ávidos por demostrar serviço. Desejava que sua esposa tivesse feito aquilo para ter uma parte do reconhecimento, mas julgava que ela não tinha a capacidade para tal feito. Dimitri só não percebia que ele era o culpado, uma vez que dava permissão para Danielle falar apenas com mulheres, as exceções eram Leon e Zunik e, se pudesse, não permitiria que ela conversasse nem com eles, se pudesse um pouco mais vetaria as demais mulheres também, especialmente Ilde e Verbena.

— Então, não há de que. Fiz o que achei melhor para contribuir; depois de um dia como o de hoje, era o mínimo que eu podia fazer.

— E ainda é humilde, você viu Leon? Você, herdeira do clã Koch, contribuiu mais em um mês do que a maioria dos meus homens na vida inteira.

— Estou aqui para servir.

Cansado daquilo, Dimitri deu um sorriso debochado. — Marechal. General — ele chamou, propositalmente pelas patentes, ali em um ambiente íntimo, para deixar claro a sua indignação e o recado foi bem compreendido. — Precisamos ir.

— Todos nós precisamos — respondeu Zunik. — Boa noite, Leon. Senhora Ilde, foi um dos melhores jantares em que já estive, só perdeu para o seu jantar de Páscoa.

Ilde sorriu. — É gentileza sua, vossa excelência.

A mulher foi diplomática, mas seu coração quase saltou pela boca. Para ela, um elogio vindo do marechal era o equivalente a chegar ao céu.

— Não precisa me chamar assim, você é da família. — E ele se virou para o general. — Descanse amanhã, Leon. Nos veremos segunda.

— Obrigado, senhor.

Leon realmente precisava de descanso. Não dormia fazia dias, seu corpo doía das solas dos pés ao pescoço, e sentia saudades de Ilde. Aquele pequeno descanso era o agrado perfeito.

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