Clandestinidade
Seis dias mais tarde, na noite em que Eric descobriu o que aconteceu com Edmund, ele foi para a Base Naval 5 desesperado para ir embora, mas ainda tinha trabalho a fazer e só haveria um voo pela manhã. Acabou achando bom, se chegasse com pouco tempo até a vinda de um avião, possivelmente a ansiedade o impediria de completar o serviço que se propunha a fazer.
Ele falou com Leon rapidamente, contou onde estava e garantiu que parte do trabalho estava feito, que só iria agregar alguns dados e voltar para a capital. Em seguida foi jantar, estava completamente sem apetite, mesmo assim se alimentou para recuperar o máximo de suas forças, seria mais uma madrugada de investigações em vídeos e não pretendia sair da frente dos computadores antes de ter todas as respostas que desejava. Depois Levi o levou para a central de segurança.
— Você parece nervoso — disse Levi.
— E estou, aquele porta-aviões está virado num... Não há como explicar. Nem nossa lixeira tem uma segurança tão falha. Como você não viu isso, Levi?
— Temos pouco pessoal faz uns anos, contei isso a você. Então cuidamos da nossa vigilância e confiamos no Bespalez para fazer a do porta-aviões.
— Foi bom eu ter vindo, a situação está terrível. Me mostre como acessar os arquivos dos vídeos de segurança do R-801.
— Eu não sei fazer isso, mas deixarei você com quem sabe.
Já chegavam à sala mediana e silenciosa em que operava a central de segurança. Um homem estava lá, olhando atento para as inúmeras janelas nos monitores. Eric já sentiu a diferença ali, no porta-aviões, os monitores ocupavam uma parte do Centro de Controle e quase não via guardas em frente às telas.
— Obrigado, tentarei ser rápido.
— Leve o tempo que precisar, vai ser bom, nós não temos alguém para revisar os arquivos do porta-aviões. Até me deixe reforçar o pedido de mais homens, estamos precisando, com urgência, e não só nesse setor.
— Você enviou um pedido para a sede do governo?
— Sim, como manda o protocolo, mas já faz meses e não veio ninguém.
— Vou providenciar isso assim que chegar à capital.
— Eu agradeço e, se precisar de mais alguma coisa, em qualquer horário, me chame.
Eric sorriu. — Chamarei.
Ele não tinha intenção de chamar e começou a trabalhar, apressado. Ali era bem diferente do porta-aviões, não tinha tanta iluminação, barulho ou gente, o homem que o recebeu mostrou como acessar os arquivos e o deixou trabalhar sozinho. Exatamente como Eric queria. Confiava em Levi, até com sua vida, contudo, não acreditava que outra pessoa pudesse ser tão confiável quanto ele.
Comparado ao trabalho que os arquivos do porta-aviões deram, aquele foi fácil de examinar, estavam em primorosa ordem. Procurou a agenda dos cargueiros e para onde iam depois da entrega. Aqueles que abasteciam os porta-aviões não eram os mesmos que abasteciam a base — outra irregularidade —, mas as rotas estavam todas ali. Eram tantas, de tantas aeronaves, que teria dificuldades se não estivessem organizadas com seus números, datas e horários correspondentes. Logo achou o que levou Edmund e onde pousou. Memorizou, apagou o histórico de pesquisa e passou para os arquivos de imagens — também caprichosamente organizados.
Havia milhares de arquivos, digitou o número de identificação do R-801, puxou um papel onde tinha anotado a série identificadora dos aparelhos de vigilância que deveriam existir no interior do depósito principal, a reproduziu no teclado e nada. Não havia sequer um arquivo do armazém nos últimos quinze anos. Encontrou um antigo, em preto e branco, mas não serviu; o local ainda guardava ferragens para descarte e bufou, frustrado.
A ausência de imagens confirmava as suas suspeitas: algo realmente acontecia lá dentro e tinha de encontrar uma pista do que. Não podia ser coincidência que Leon mandou averiguar o depósito e agora descobriu que foi ali que o major se escondeu.
Apagou, então, o número identificador e optou pela busca geral das transmissões internas na data e hora em que presenciou as câmeras do corredor em frente serem movidas, continuou sem ver arquivo algum, mas apareceu uma via para os canais das câmeras internas, isso era novo, e clicou na pasta. Todas os canais abriram ao mesmo tempo, em estáticas telas chumbo tedioso, mas úteis, assim nem o cansaço o impediria de detectar até o mínimo movimento.
E, de repente, sem falhas, distorções ou interferências, cerca de vinte imagens apareceram de uma só vez, todas mostravam o depósito nitidamente, em infravermelho, um recurso jamais aprovado para o porta-aviões ou demais setores da marinha.
O contra-almirante guardou a informação em seus arquivos mentais e se aproximou, duas vezes mais atento. Não demorou para as luzes do depósito acenderem e os carregadores entrarem, olhou o horário, pouco além de seis horas, o avião cargueiro tinha chegado. Observou o movimento deles outra vez, detectou rápido o ponto cego onde iam buscar os carrinhos e nenhum sinal do major. Era óbvio que ele se escondeu ali.
— Esse garoto é um gênio! — murmurou.
— Senhor? — perguntou o soldado que lhe fazia companhia.
— Não é nada, só pensei alto.
Eric esqueceu que não estava sozinho e repreendeu-se, precisava tomar cuidado. Aquele homem estava de costas à sua frente, mas uma distração poderia resultar em alguém mais entrar e perceber sua pesquisa, o que poderia torná-lo um alvo como parecia ter se tornado o major.
Os vídeos prosseguiram, os trabalhos na organização dos estoques começaram, indício de que o avião já tinha partido, e o contra-almirante se decepcionou, não havia nada suspeito ali e não conseguiu comprovar que Edmund esteve naquele lugar. Cruzou os braços e recostou-se na cadeira, pensativo. Uma coisa o incomodava, só podia ter sido o major quem enviou aquelas imagens, mas por que ele faria aquilo? Não queria mostrar a si próprio, estava claro, então qual era o objetivo?
A resposta veio de imediato: ele queria mostrar outra coisa. E olhou novamente para as telas. Seis estavam em evidência; poderia ser um sinal ou um delírio de sua mente esgotada, mas decidiu seguir por esse caminho e se concentrou nas seis imagens. Três exibiam a mesma porta — de uma sala interna, em diferentes ângulos —; as demais foram fixadas em duas partes do corredor entre as estantes e a porta principal. Não era um delírio. Havia algo ali, e dedicou um rápido olhar panorâmico pelas demais imagens para confirmar.
As outras saídas apareciam nitidamente, assim como os caminhos até cada uma. Não tinha mais dúvida de que o major estava tentando fazer uma revelação e pensou ter entendido o que era. Lembrou-se que viu dois marinheiros e um oficial saindo daquele depósito com artigos suspeitos nos arquivos do porta-aviões.
Esperançoso, digitou o horário em que os testemunhou entrando no espaço e ali estavam. Agora dava para vê-los em sequência: da entrada, para a passagem entre as estantes e para a sala interna. O oficial abriu o recinto e o trio encheu os carrinhos com aquelas caixas, depois saíram em animada conversa. Pelo que Eric pôde ver, enquanto a porta ficou aberta, o lugar estava abarrotado de fardos e caixas de igual teor.
Eric sorriu, mais uma vez fascinado pela perspicácia de Edmund, e puxou o compartimento na lateral inferior do computador. Pegou um cartão de memória, copiou os arquivos e avançou. Devia ter mais. Talvez alguma gravação que mostrasse o que aquelas embalagens continham.
Pela primeira vez em dias, ele estava empolgado, o que o impulsionou aprofundar a investigação. Todavia o cansaço começava a maltratar, massageou os olhos na vã tentativa de fazê-los recobrar as forças, mas as pálpebras se recusaram a abrir, teve que forçá-las e, de tempo em tempo, piscava para cair em novo esforço para que reabrissem. A cada poucos segundos precisava voltar algumas cenas por receio de ter perdido uma ação importante.
Mesmo assim não foi capaz de ignorar o brusco desaparecimento das imagens. Elas sumiram tão repentinamente como apareceram. Todas as telas do depósito ficaram pretas, o cronômetro parou e se acusou de ter estragado alguma coisa, estava quase pedindo ajuda quando reparou que o restante continuava funcionando. A transmissão é que tinha sido cortada.
Rapidamente anotou o horário em que as imagens pararam de ser transmitidas: Dezoito horas e dezesseis minutos da noite anterior. Ele acabava de conversar com o capitão Bespalez neste horário e fechou as janelas para tentar se conectar, em tempo real, com a vigilância do porta-aviões, não conseguiu nenhum mísero sinal. Pensou um pouco e digitou o número de identificação das câmeras do corredor, em frente ao depósito, tinha anotado a identificação de cada setor que o interessava antes de sair do R-801.
A transmissão estava tão morta quanto as demais e buscou a data e a hora em que viu os pacotes suspeitos serem levados do depósito, selecionou os arquivos das três câmeras que sabia focalizar o corredor e a porta, e lá estavam as imagens, como Eric se lembrava, gravou uma cópia delas também e procurou as demais câmeras. Apesar de saber que tudo estava bem no porta-aviões, uma vez que ainda estava lá quando a transmissão foi cortada, ele resolveu verificar se estavam seguros. Nada lá havia mudado, os marinheiros cuidavam dos seus afazeres e a paz predominava na embarcação. Era hora de parar.
Eric deu o comando para liberar os cartões em que gravou os arquivos e se esticou longa e dolorosamente, olhando para o canto inferior direito da tela, onde acenderia o alerta se houvesse perigo e sorriu novamente. Lembrou-se que leu, nos arquivos de Edmund, que ele projetou o sistema quando ainda era graduando e foi esse sistema que alertou para as supostas aproximações hostis no porta-aviões dias antes.
Não imaginava como, mas estava certo de que os alertas tinham sido feitos por Edmund e decidiu conferir, só por curiosidade. Clicou no ícone e nem precisou pesquisar, estava lá o histórico dos últimos alertas, com data, horário e descrição, quase gargalhou quando viu. Bespalez foi feito de bobo enquanto o major fugia.
A janela de liberação dos cartões subiu, tirando Eric do pensamento cômico e olhou o relógio, passava um pouco de três horas e o avião chegaria às oito. Teria um bom tempo para descansar. Pegou os cartões, deletou o registro de pesquisa e armazenamento, e foi dormir, contente por levar a resolução do caso, mas incerto sobre como abordaria o assunto com o marechal.
Depois de um dia como aquele, Verbena queria poder descansar, Adam também, apesar de ser segunda-feira e ambos terem direito ao domingo de folga garantido por suas posições. A sensação era a de que estavam na última sexta-feira do mês, carregada das cargas mensais. No entanto os dois precisaram ir ao Bloco B do primeiro batalhão — onde ficava o primeiro cárcere para prisioneiros internos — e prestar esclarecimentos sobre o acontecimento na escola.
Ziger estava lá, um andar abaixo, caminhando em sua cela como um animal selvagem enjaulado, raramente sentiu tanto ódio na vida e talvez nunca sentisse outra vez. Pensou que ia para a detenção Alfa, onde tinha parceiros, mas foi trazido para aquele lugar, onde ficou isolado. Só podia supor que fosse por causa da ilusória patente de Verbena, ele jamais a reconheceria e ela teria de pagar pelo que estava passando, desejava fazer da professora o seu melhor trabalho e nunca iriam encontrar os seus restos.
A entrevista durou quarenta minutos, o marechal ouviu cada palavra, em silêncio, junto de seus assessores mais próximos. Leon apareceu no meio e saiu com eles, tentando entender melhor o que houve e o que os assessores faziam no interrogatório, geralmente Dimitri acompanhava aquele tipo de procedimento.
— Eu não consigo entender — falou Leon enquanto caminhavam para a saída —, desde que apareceu, o Ás de Paus só destrói, agora ele deu livros? Não faz sentido.
— Talvez ele quisesse mostrar poder. Me parece que o Ás de Paus adora mostrar que pode fazer o impossível — supôs Adam.
— Que poder há em acrescentar livros a uma biblioteca?
— Livros fazem pensar, general. E o que há de mais perigoso do que pensar? — respondeu Verbena.
— Me desculpe, senhorita Koch, você é professora de literatura e eu falei uma besteira dessas, sem me explicar. Concordo com o poder dos livros. O que eu quis dizer, de maneira tão desastrada, é que este não é o modus operandi dele, todas as ações dessa célula terrorista são violentas, quase sempre com explosivos e fogo. Não vejo como introduzir livros proibidos em uma biblioteca pode ajudar na guerra que ele iniciou conosco.
— Talvez ele não seja exatamente como pensamos.
Adam e Leon silenciaram-se por instantes, depois Adam olhou para Leon.
— Será que isso é possível? — perguntou.
— Acho que, no que concerne ao Ás de Paus, tudo é possível.
— Ainda bem que a professora Koch encontrou os livros rápido, então. Pode ser que tenha atrapalhado algum plano maior.
Verbena os encarou com uma ruga amedrontada no centro da testa. — Isso pode me tornar um alvo?
— Não sei — respondeu Leon. — Talvez ninguém saiba no momento, só peço para que tome cuidado redobrado, nunca use outro carro senão os nossos blindados e que o Adam só saia de perto de você quando a senhorita assim desejar. Mas aconselho que não deseje.
Verbena baixou a cabeça em nítido desespero.
— Eu estarei sempre com a senhorita, fique tranquila. Também pedirei mais segurança em sua casa e na escola — apressou-se Adam.
— Peço novamente minhas desculpas, senhorita Koch, mas não posso mentir, muito menos para um superior — esclareceu Leon. — Há sempre perigo maior para os membros mais importantes do nosso país e isso se aplica a você. Agora, que achou algo que talvez fosse para ficar escondido mais um pouco, o perigo aumentou, mas a senhorita tem a minha palavra de que a protegeremos com todos os nossos recursos, mesmo assim, se tiver medo e quiser se afastar, ninguém a julgará.
Verbena tornou a encarar Leon. — Todos precisamos fazer a nossa parte pela pátria e eu não vou deixar de cumprir o meu dever por medo.
Leon sorriu para ela. — É assim que se fala, comandante.
Adam também sorriu e a moça até tentou retribuir o sorriso, mas não conseguiu disfarçar o temor.
— Adam, você acha que o Zig está envolvido nisso? — questionou Leon.
— Prefiro acreditar que não, mas ele está ensandecido desde que conheceu a senhorita Koch.
— Eu soube, mas será que ele chegaria a esse extremo?
— Não conheço o capitão tão bem para dizer que sim ou que não. Mas, se ele fez, não foi para prejudicar a professora porque ninguém mexeu naquelas caixas recentemente, isso eu garanto.
Leon assentiu, pensativo. — Eu abrirei uma investigação sobre o Zig — disse. — Enquanto isso, tomem cuidado.
— Tomaremos, senhor. Obrigado — falou Adam.
— Senhorita Koch, não quer jantar em minha casa? Terei de ficar aqui, provavelmente por horas, e sei que a Ilde adorará ter a sua companhia para a refeição.
Verbena sorriu. — Eu também adoraria a companhia dela para o jantar, mas tenho trabalho a fazer, então preciso ir para casa.
— É uma pena, saiba que é bem-vinda lá sempre que quiser.
— Eu agradeço.
— Senhor! — chamou Adam. — Se há acúmulo de trabalho, posso voltar para cá depois de deixar a professora Koch em casa.
— Acabamos de falar sobre deixá-la sozinha, Adam.
— Ela não me quer lá à noite.
— Eu o proibi de passar a noite vigiando minha casa, na verdade — acudiu Verbena em um tom mais divertido. — Acho abuso demais que os serviços de um tenente-coronel sejam tão grandemente desperdiçados comigo quando tenho tantos guardas à minha disposição.
— Não são desperdiçados, senhorita Koch. Você foi atacada, dentro da sua casa, à noite.
— Foi só uma pedra, senhor, nada com o que eu deva realmente me preocupar.
— Mas agora as coisas mudaram. Mantém a decisão assim mesmo?
Verbena hesitou por um instante, mas sustentou o olhar em Leon. — Sim — confirmou. — Os homens que me vigiam são capacitados e as câmeras novas já foram instaladas na minha rua.
— Nesse caso, então, Adam — falou Leon e parou em frente ao elevador, os outros pararam com ele. — Vá para casa e descanse para que esteja em plena forma amanhã. Não se preocupe, não temos trabalho acumulado, só faremos a seleção da moradia do contra-almirante e fiquei incumbido de trazer exemplares para o marechal avaliar, então não poderei sair daqui enquanto uma decisão não for tomada.
— Não há um setor para determinar habitação e profissão da população? — perguntou Verbena.
— Há, mas essa o marechal quer selecionar, já que se trata de um contra-almirante que também é herói da nação.
— Oh, entendo. Me permite uma sugestão?
— Suas sugestões também são bem-vindas.
— Tem uma casa, em frente à minha, que está vazia, pelo que sei faz anos. É o lugar perfeito para um contra-almirante que também é herói.
— Mas é no primeiro anel.
— Por essa razão suspeito que o marechal pode gostar. É o bairro dos escolhidos dele e, por isso, o mais vigiado da cidade. O que constitui dois pré-requisitos importantes: segurança e oportunidade de solidificar a imagem do marechal.
Leon franziu a testa. Será que Verbena sabia o que ele não queria pronunciar? Possivelmente, considerando a menção à solidificação da imagem do marechal. Porém, ela evidentemente não sabia que o primeiro anel não era uma opção porque o marechal jamais permitiria colocar alguém como ele, e a família, lá.
Verbena, que era filha de um dos membros mais proeminentes do exército e veio para desempenhar duas funções de extrema importância, quase não ganhou autorização para ocupar a própria casa, uma pessoa como o contra-almirante mal teria permissão para passar pelo bairro se não fosse obrigado a trabalhar na sede do governo. Por outro lado, Zunik queria vigilância para o contra-almirante, não pelos motivos que acreditava supor Verbena, mas uma vigilância completa que só o primeiro anel poderia oferecer.
Leon quis sorrir, era uma maravilhosa ideia, a empregaria para tentar dar ao contra-almirante um lar melhor, achava que ele merecia algo assim.
— Vou levar a sua sugestão ao marechal. Obrigado, senhorita Koch.
— Não há de que, estou aqui para servir.
Leon assentiu com um sorriso.
— Agora tenho que retornar ao dever. Obrigado pelos esclarecimentos e tenham uma boa noite.
— Boa noite, senhor — respondeu Adam.
— Boa noite — falou Verbena.
Com o desenrolar dos últimos acontecimentos, Leon não estava inclinado a acreditar em ninguém e cada detalhe era importante, por isso foi conversar um pouco com a professora e o tenente-coronel, para assim confirmar o que já imaginava, eles não cometeram as falhas características de quem mente, era certo que aconteceu o que disseram. Mas como? E por quê? As dúvidas rodaram em sua mente pelo restante da noite.
Adam deixou Verbena em casa como o prometido, mas não foi descansar como o determinado. Ele preferiu fazer algo que não pôde fazer desde que assumiu o novo posto como guardião dela e foi para casa, encheu a camionete de roupas, calçados, cobertores, caixas de papelão e tanta comida quanto foi possível em cada centímetro afora o banco do motorista, cobriu e, no banco ao seu lado colocou um saco de ração canina para ocultar os mantimentos que escondeu atrás. Em seguida foi ao oitavo batalhão, na fronteira sul do quarto anel, uma região frequentemente esquecida, como a população que a ocupava.
Era cedo ainda, chegou antes de o sol se pôr, e visitou os canis longe das vistas do major Saturno, responsável pelo batalhão. Adam não queria encontrá-lo, ele era mais um homem que o tenente-coronel desprezava, contudo, não sentia culpa pelo sentimento nesse caso. Saturno era notoriamente asqueroso.
Apesar dos defeitos, Saturno desempenhava um bom serviço. Nunca havia problemas na região, ajudava o fato de a população dali ter sido tão reduzida que restaram apenas os que ocupavam um raio de vinte quilômetros a frente do batalhão. Mesmo assim, havia mérito em tudo permanecer organizado, os soldados serem eficientes e os cães tão bem cuidados quanto os cavalos.
Visitar os animais era o que confortava Adam em qualquer situação, no entanto, esse não era o objetivo real naquela noite. Ele esperou até que escurecesse, despediu-se dos rapazes que tomavam conta do local e saiu, não rumo ao segundo anel, mas ao único ponto vulnerável da enorme cerca que separava o terceiro do quarto anel. Passagem criada por ele anos antes, no período em que passou ali, treinando os cães e os soldados para lidarem com eles.
Adam notou as condições deploráveis em que as pessoas viviam além da fronteira, despidos de qualquer dignidade, trocando tudo por alimento, por isso, quando percebeu um extenso espaço desprovido de câmeras na estrada de acesso ao batalhão, reprimiu o impulso de informar a falha, justamente em uma zona desabitada, e formulou o plano de abrir um caminho oculto para dar, ao menos, alguns pães a quem pudesse.
Ele sabia que era errado, sabia até o quanto era errado, sempre foi proibido alimentar, vestir, abrigar ou empregar pessoas do quarto anel, sempre foi proibido até mesmo citá-las em contexto que não se referisse a utilização lucrativa delas, essa foi uma das primeiras coisas que aprendeu. Uma vez que fosse relegado ao triste destino de residir lá, nunca mais poderia voltar. As punições previstas eram severas a qualquer um que infringisse essas leis e não fosse o marechal, mas para Adam, era pior viver com a culpa de não fazer nada.
Não foi fácil encontrar a área certa, alguns locais contavam com moradias do terceiro anel ao alcance da visão, teria que ser uma visão muito boa, mas ainda assim era perigoso, as câmeras do muro foram posicionadas exatamente como mandava o protocolo, a disposição dos guardas também era adequada, contudo a construção não era.
A presença massiva de pássaros na região inviabilizava os alarmes e a eletricidade foi restringida ao arame superior quando animais ainda frequentavam aquelas terras e os soldados não queriam ficar procurando cadáveres eletrocutados a todo momento. Quando eles pararam de aparecer, o exército não se preocupou em eletrificar o restante do gradeamento. A reposição sairia cara e não havia necessidade, visto que o objetivo da construção era manter os moradores do quarto anel longe e eles ficavam longe.
Ao longo do tempo, Adam encontrou vários pontos bons para instalar o seu portão particular, mas só um que coincidia com a lacuna desprotegida da estrada, e a utilizou com uma frequência que o colocaria diante da pena mais rigorosa se fosse pego: a morte.
Com os anos Adam passou a nem pensar mais nisso, só na vergonha de encarar alguém que gostava, caso ficassem sabendo de sua transgressão e, naquela noite agiu como o costumeiro, entrou no descampado poeirento com as luzes apagadas, apesar de as câmeras não terem sido substituídas, a guarda ainda tinha olhos. Já tinha ido ao local quando o sol estava alto para verificar se não houve mudanças, por isso era capaz de se orientar apenas com a luz tênue da lua cheia por trás da barreira de poluição.
Ele estacionou a camionete perto da grade, tateou até encontrar a larga lona marrom, como o terreno que os rodeava, e jogou sobre o carro, debaixo dela ligou a lanterna de luz fria e testou a presença de eletricidade na cerca, se via sempre em posição de verificar, pois um simples vento poderia colocar um fio elétrico em contato com a grade, só depois trocou as roupas por uma que o disfarçava, arrancou o quadrado que serrou do muro, prendeu na lateral e começou a descarregar os suprimentos. Não podia ser visto, por isso levaria a noite toda para fracionar e distribuir entre os barracos mais próximos, mas iria embora feliz e menos culpado.
Já passava de oito horas quando Leon e Ilde se levantaram e dez quando Leon entrou na sede do governo, o contra-almirante não tinha chegado e o general se preocupou. Eric avisou, no dia anterior, que cumpriu a ordem, com êxito, e que pretendia voltar pela manhã, porém, depois que descansou, percebeu que poderia executar melhor a missão se ficasse mais um dia. Tais palavras fizeram Leon entender que ele adquiriu novas evidências, só não podia dizer via rádio e concordou, um tanto tenso pela segurança do rapaz.
Quando o requerido dia terminou, tiveram mais uma conversa e Eric garantiu que estaria no primeiro voo de retorno. Aquele era o único dia, da semana, em que havia um saindo da Base Naval às cinco horas da manhã, portanto ele deveria estar ali. Por isso entrou em contato para entender o motivo da demora, a explicação não convenceu e duplicou a preocupação de Leon. Para seu alívio, Eric chegou pouco depois de meio dia e foi direto falar com ele, naquele momento o contra-almirante também não confiava em mais ninguém.
— Me desculpe pela demora, general — falou Eric ao entrar na sala. — O primeiro voo de hoje não pôde sair por problemas climáticos e tive que vir mais tarde.
— Então foi climático mesmo? Pensei que pudesse ser uma desculpa para que não saísse da base — falou Leon.
— Não. Foi uma tempestade, precisei ir de carro à cidade vizinha e vir de lá.
— E o que descobriu?
— Mais do que eu esperava. Existem pacotes não identificáveis manuseados no porta-aviões, vi pelas imagens, mas não sei para onde foram, por isso pedi para ficar ontem, pretendia investigar se passaram pela Base Naval. O capitão Bronielsken é de minha inteira confiança, mas a base é grande e ele é um só.
A testa de Leon enrugou, mas ele não se surpreendeu.
— Fez bem — respondeu. — E passaram?
— Não, senhor. Mas acho importante que haja mais investigação, até para que inocentes não sejam envolvidos no que quer que esteja acontecendo. O meu principal suspeito é o capitão Bespalez, ele insistiu que o major estava morto e nunca tentou procurá-lo, não sei se acredita mesmo nisso ou se só quis me fazer acreditar.
— Farei uma investigação minuciosa. E o Edmund?
Eric sorriu e pegou os dois pequenos cartões de memória de seu bolso.
— Foi ele quem nos deu as imagens dos pacotes, e muito mais — respondeu, entregando à Leon. Em seguida explicou o que havia neles e relatou tudo o que descobriu, ao final, os dois sorriam.
— Esse Edmund... Sempre achando um jeito criativo de resolver os contratempos — admirou Leon.
— O senhor acha que as caixas que ele nos mostrou são o produto do desvio?
— Eu tenho certeza que é. Recebi uma mensagem do major, creio que foi enviada antes de ele ter saído do porta-aviões e fico contente por saber que ele saiu vivo. O Edmund disse, na mensagem, o que tinha dentro das caixas e eram principalmente armas, por isso quis que fizesse a investigação em sigilo e não contei nem para você sobre o motivo, não podia dizer como sabia dessa informação ainda.
— Será que foi por isso que o major precisou fugir?
— Não sei, é possível. Vou mandar uma equipe minha fazer a varredura completa daquele porta-aviões agora mesmo e acabar com isso de uma vez.
— E eu vou para a Belerofonte, é a última parada conhecida do major. Quem sabe eu pegue o rastro dele lá.
— Não é necessário, contra-almirante, eu sei para onde ele está indo. Você tem que ficar aqui agora, precisamos mesmo reorganizar a nossa esquadra.
— Está bem, senhor.
— Tire o dia para descansar e amanhã para cuidar da sua nova moradia, depois você se preocupa com o trabalho.
— Farei isso o mais rápido possível. Obrigado, senhor.
Eric não podia dizer o quanto ficou feliz, a base aérea Belerofonte não era tão longe quanto a Base Naval 5 e o porta-aviões em que esteve, mas ainda era muito longe, e estava esgotado.
Ele saiu, então, do gabinete do general e foi descansar como Leon mandou.