Spa
De manhã, Danielle decidiu que estava cansada de ficar presa em casa, se arrumou cedo, pegou sua autorização para trânsito externo e saiu, pouco preocupada em esconder o estigma de seu casamento marcado no rosto, maquiagem alguma, entre as que tinha, era capaz de fazer isso de qualquer maneira.
O marido estava jogado no sofá, dormindo e fedendo como um porco, a moça imaginou que ele passou a noite em uma orgia qualquer, talvez a que ele ia sempre. Por ela, Dimitri viveria lá para lhe dar sossego. Danielle tinha certeza que o esposo já a teria matado de pancada se cogitasse que ela tomava medidas para não pegar doenças dele, ou pior, medidas contraceptivas. Engravidar daquele homem que tanto odiava, seria pior do que tudo o que ele já lhe fez, todas precauções proibidas havia anos e todas adquiridas clandestinamente no Spa para onde estava indo, por isso era um de seus segredos mais bem guardados, ou prejudicaria até o estabelecimento, seu refúgio. Ela não sabia onde conseguiam os medicamentos e nem queria saber, para Danielle bastava que funcionavam.
Danielle pretendia passar o dia lá, era o único lugar da cidade em que se sentia segura e acolhida, desejava não ver Dimitri por aquele dia e por nenhum mais, se possível. Ela queria tanto que o marido não fosse covarde demais para se aventurar em missões e morrer em uma delas, mas ele sempre inventava uma desculpa para mandar outros em seu lugar.
O Spa era uma instalação suntuosa, localizada no centro da cidade, arquitetada geometricamente em azul e branco, exclusivo para mulheres, onde cada metro foi projetado para o conforto das clientes. Inúmeras especulações eram feitas sobre o misterioso dono da empresa, as frequentadoras acreditavam ser o marechal, o que explicava o fato de ele jamais ter se revelado. Mas Danielle não acreditava que homem algum teria a capacidade de assimilar o gênero feminino com tamanha eficiência para planejar um lugar tão bem personalizado.
Danielle atravessou o portal de entrada, aspirando devagar o perfume da essência do dia, pitanga, sempre havia uma fragrância diferente ali e até os cheiros a acalmavam.
— Bom dia, senhora Novakohut, não esperávamos vê-la aqui hoje. — falou a recepcionista.
— Eu não marquei hora — respondeu Danielle. — Tem uma vaga para mim? Nem que seja para ficar sentada olhando o lustre.
A mulher sorriu. — Sempre temos vaga para você.
Aquela era Monique, a administradora do Spa, Danielle a via todas as vezes que vinha até ali, pois ela fazia o serviço de recepcionista quando era necessário, de copeira, de eletricista, de auxiliar das esteticistas, aonde quer que fosse preciso, ela estava. O que Danielle não sabia, mas saberia se pensasse um pouco no assunto, é que Monique, e as demais profissionais, tinham conhecimento das agressões que ela sofria em casa, a terapeuta porque ela contou, a médica por dedução e as esteticistas porque viam os seus hematomas e perderam as contas de quantas vezes Danielle “caiu com a cabeça contra uma maçaneta”, por isso, cada vez que ela chegava ao Spa, com ou sem hora marcada, Monique arrumava um jeito de preencher o dia inteiro da moça com atividades, nem que tivesse que inventar alguma.
Ela própria estava sentada ao lado da poltrona da manicure, esperando pela cliente ilustre quando ela voltou do vestiário em um roupão macio e chinelos felpudos.
— Você vai fazer as minhas unhas? — perguntou Danielle, já com um sorriso emoldurando a fisionomia muito mais serena do que quando chegou.
— Vou, se você quiser — respondeu Monique.
— É claro que quero, não temos muitas oportunidades para conversar.
Monique não deu sinais de que percebeu a marca em seu rosto, olhou para ela como olhava sempre, apesar de ter sido a primeira coisa que notou. Fazia muito tempo que Danielle não aparecia assim, todo o seu corpo chegava escoriado com frequência, mas o rosto não, ele vinha sendo poupado e Monique conseguia imaginar o porquê.
— Já te contei que eu era manicure e pedicure antes de ser contratada por esse Spa? — falou Monique.
Danielle sentou-se. — Não! — respondeu enquanto se ajeitava confortavelmente.
— Eu era, aprendi com a minha mãe. Mas tive muitas dificuldades, aí quando cresci o bastante para assumir a profissão, não havia mais cursos de especialização aqui e precisava viajar para estudar.
Monique não perdia a atenção no que fazia, enquanto falava, mergulhou as mãos de Danielle em deliciosa água aquecida e se arrastou em sua cadeira com rodinhas silenciosas na direção dos pés da moça.
— Para fora do país?
— Sim, e eu não conseguia bancar as viagens. Por sorte, abriu esse Spa e ganhamos aqui todos os cursos que precisamos.
— Sorte minha também.
— Que bom ouvir isso. — Uma voz disse ao lado, e as duas olharam para a poltrona vizinha, era Verbena, como os assentos ficavam dispostos em círculos unidos pela parte superior, Danielle não reparou que tinha alguém ali. — Me desculpem por ouvir a conversa, sou nova aqui e estou experimentando as maravilhas desse Spa pela primeira vez.
— Podia ouvir, não era segredo — respondeu Monique.
Verbena sorriu, mas não como Danielle, não havia como ignorar quem era aquela mulher e ela estava louca para conhecê-la. Foi um custo controlar as emoções, mas Monique ajudou, apertando um dos pés dela em uma massagem tão relaxante que pareceu amolecer até seus sentidos.
— Eu tive uma semana tão estressante, precisava disso, é uma pena que não posso passar o dia — falou Verbena.
— A escola não é boa? — perguntou Monique.
— É muito boa, os alunos são ótimos e estou adorando ensiná-los, mas combater os desafios agregados é desgastante.
— Você está no lugar certo para curar desgastes — falou Danielle.
Verbena olhou para a moça. — Você é Danielle Novakohut, certo?
— Sim. Como sabe?
— Ouvi falar de você.
— A Verbena já conheceu a Ilde — explicou Monique.
Danielle abriu o maior dos sorrisos. — Ah, claro! — entendeu. — É um enorme prazer conhecer você.
— O prazer é meu.
— Soube que a Ilde se dispôs a atualizar a professora sobre a dinâmica formal daqui, talvez você possa ajudar — falou Monique.
— Eu não sei nem como me mover entre as pessoas dessa cidade — reforçou Verbena.
— É estranho retornar depois de passar muito tempo longe, não é? Vemos coisas que não víamos antes.
— Eu fui criada na fazendo do meu pai, então não tenho nem referências antigas.
— Havia gado na sua fazenda?
— Sim.
— Somos iguais, se você sabia como lidar com eles, saberá como lidar conosco.
Verbena e Monique gargalharam, mas em seguida baixaram os volumes dos risos para não atrapalhar o relaxamento das demais clientes.
— Vou me lembrar disso.
— A Danielle se formou em contabilidade, estudou em Londres por mais da metade da vida e voltou de lá, com um diploma.
— Verdade? E onde você trabalha?
— Em lugar nenhum. Meus pais quiseram me matar quando voltei com diploma de contabilidade em vez de culinária.
— Por que?
— Fui preparada para ser uma esposa.
O desgosto na voz de Danielle foi tão grande que Verbena teve o impulso de dar os pêsames à moça.
— Eu fiz uma proposta de trabalho para a Danielle — falou Monique —, mas o marido é inflexível em relação a ela trabalhar e, sem a autorização dele, é impossível legalmente.
— Seria humilhante para a posição que ele ocupa — resmungou Danielle.
Dessa vez quase escapou um “sinto muito” da boca de Verbena.
— Mas você gostaria? — perguntou.
— Não — respondeu Danielle, embora sua postura e feições gritassem o contrário.
— Estamos em um ambiente seguro, Danielle — avisou Monique. — E ela é uma professora.
Um micro sorriso limpou a expressão desgostosa do rosto da moça. — Eu adoraria trabalhar! — cochichou.
— Entendo.
Verbena recostou-se em sua poltrona, o assunto parecia encerrado, mas após um breve silêncio, Danielle olhou para ela novamente.
— Por isso me perdoe se eu sinto uma inveja enorme de você agora.
Os lábios de Verbena também estamparam um sorriso passageiro e ela aproximou o corpo da poltrona vizinha — Não sinta — disse em voz ainda mais baixa. — O capitão Ziger quer me ver como pano de chão e já tentou tudo o que imaginou para tornar a minha permanência breve desde o primeiro dia.
— O capitão Ziger é o maior escroto das forças armadas, só mantém a posição porque batalhou ao lado do marechal.
Monique apertou com mais ímpeto o pé de Danielle e riu.
— Tem certeza que pode falar essa palavra, madame?
— É tão bom poder dizer em voz alta.
E mais risos.
— Estou feliz por ter vindo, eu precisava rir um pouco — falou Verbena.
— Quando puder passar o dia, experimente, você sairá outra mulher — incentivou Danielle.
— Não me tente.
— Por que você não vem para a nossa noite de beleza? Começaremos hoje, às vinte horas, e terminaremos amanhã às oito.
Danielle animou-se. — Teremos uma noite da beleza hoje?
— Sim.
— Como eu não sabia?
— Eu iria ligar para você, mas como você veio até aqui, estou falando pessoalmente.
— O que é uma noite da beleza? — perguntou Verbena.
— Eu gosto de chamar de noite de restauração mental — respondeu Danielle. — É uma noite inteira dedicada a nós. Meditamos, recebemos massagens, terapias, dormimos com música tranquila, mas preferimos ficar conversando. É como uma festa do pijama para adultas. Venha, por favor!
— A Ilde virá — acrescentou Monique.
— Seria bom rever a Ilde em um ambiente livre de tensões.
— Por que livre de tensões? — perguntou Danielle.
— Porque nos conhecemos na festa de inauguração da fábrica e tivemos que sair correndo pelo perigo de ataque. Nem pudemos conversar muito.
— Que ataque?
— O Ás de Paus destruiu a fábrica de armas — sussurrou Monique — Não fui ver, mas ouvi dizer que o que não desmoronou, derreteu.
Só então Danielle entendeu o duradouro mau-humor de Dimitri e tocou o braço de Monique.
— Eu virei para a noite da beleza — disse como se sua vaga dependesse disso.
— Que bom, será maravilhoso ter você aqui — falou Monique.
E Danielle virou-se para Verbena. — Você vai conhecer uma Ilde bem diferente, ela não é uma pessoa, é um evento.
— Nesse caso, não tem como eu recusar. Deixarei as minhas aulas do período matutino preparadas e sairei daqui para o colégio pela manhã.
— Você vai adorar!
— Eu acredito que vou.
O tenente-coronel esperava por Verbena na frente do Spa, e sorriu ao vê-la, parecia um sorriso genuíno e ela ainda não o compreendia, por isso resolveu questionar diretamente assim que sentou-se no banco de trás.
— Eu tenho uma dúvida, tenente-coronel Molls — começou.
— Pode me chamar pelo meu nome, se quiser.
Verbena pensou por um instante. — Senhor Molls.
— Já é melhor. Qual é a sua dúvida?
— O senhor parece gostar de andar comigo, como um motorista. Não acha uma posição incompatível com a sua patente?
— Não. É mesmo uma honra cuidar da sua segurança, eu me candidatei para esta função — ele respondeu.
Adam optou por omitir que Leon pediu que ele se voluntariasse, uma vez que o major Saturno foi o único a se apresentar para o serviço e ele cultivava uma fama ruim com mulheres como Verbena. Adam não sabia se os boatos eram verídicos, mas não se surpreenderia se fossem, por isso também achou prudente prevenir, e recebeu feliz a nova incumbência.
— Qualquer um pode fazer o trabalho.
— Não acredito que possa. A sua segurança é de suma importância, não só para o marechal.
— E por que esse nível de cuidado?
— Porque a senhorita é professora.
— Não explica o motivo de um tenente-coronel, à duas patentes do grande marechal, decidir virar acompanhante por tempo indeterminado.
— Eu tenho interesses pessoais nisso.
O olhar de Verbena exigiu esclarecimento imediato.
— A minha mãe era professora e a minha irmã ainda é — ele disse, então. — As duas muito boas, mas minha mãe nunca pôde atuar na docência e minha irmã só atua porque mora na Europa, já que aqui, não tem o direito de trabalhar, nem teve o de estudar. — Os músculos dos lábios de Adam se contraíram e uma leve ruga nublou sua testa, o tema era delicado, Verbena percebeu que havia situações em que o rapaz se tornava fácil de ler. — Para mim, a existência de uma professora agora faz com que outras possam ser e, quem sabe, a minha irmã possa voltar — ele concluiu.
— E, por isso, decidiu me escoltar?
— Por isso e porque estava curioso. Queria ver o que a senhorita tinha, de diferente, para ser aceita assim e até ser chamada para a companhia dos mais altos membros do corpo militar. Apesar da sua tarefa como símbolo e exemplo, eu não esperava tanto. Talvez a senhorita não saiba, mas aqui, nem as esposas podem subir no palco dos líderes.
— Eu não sabia mesmo.
— Naquele dia eu decidi que precisava descobrir por que a senhorita pôde, mas quando vi as suas insígnias, entendi. Aqui não tem ninguém tão graduado assim, acho que não tem no país inteiro, então a sua imagem é muito mais importante do que era para ser. É alguém a ser ostentada.
— Sua irmã é professora de que?
— De técnicas forense em uma faculdade na França.
— Então ela tem penas como as minhas. Pelo menos duas.
Adam assentiu, cauteloso, obviamente não gostava de revelar aquela informação; Verbena suspeitou que fosse por proteção.
— Eu acredito em você, senhor Molls.
— Que bom... Quero dizer... Já que estamos conversando sinceramente eu tenho que contar uma coisa.
— O que?
— O meu superior deu ordens para que eu vigiasse os seus atos.
Pouca coisa surpreendia Verbena, e Adam conseguiu o feito mais uma vez. Nenhum soldado contava sobre uma missão para o alvo da missão em parte alguma do planeta.
— Eu gostaria de ser alguém que gozasse de completa confiança, mas fico feliz por ser da sua, senhor Molls. Obrigada por me informar.
— Não há de que. Essa informação felizmente não era sigilosa, por isso pude transmitir, em outra condição eu teria que atuar de um jeito que não gosto — ele falou, como se lesse os pensamentos dela.
— Mesmo assim, eu agradeço.
Verbena sorriu, a confiança dele era promissora. Mas ainda o analisaria melhor para esclarecer se o rapaz era seguro com um segredo ou o entregaria para qualquer pessoa que ganhasse um pouco de sua confiança.
— Podemos ir agora? Ou a senhorita vai se atrasar.
— Podemos sim.
Ele deu partida no carro, depois pegou uma pasta no banco ao seu lado e entregou para Verbena.
— Aqui estão os dados do garoto com sobrenome peruano. Não encontramos nada anormal, ele é de uma ótima família. O sobrenome aparece no Peru séculos atrás, mas ao longo dos anos aparece em outros países e com muitas variações. A senhorita vai perceber que verificamos a árvore genealógica dos Willka e Heinrich tão longe quanto foi possível, não conseguimos determinar exatamente de onde vieram, mas tudo indica que sejam naturais da Alemanha.
— Interessante — disse Verbena, folheando o documento. — Vocês têm um sistema de pesquisa abrangente.
— O melhor. A verificação de nomes de famílias é minuciosa, o major Zinekolski cuida da nossa tecnologia e é muito bom nisso, a equipe dele nunca para de trabalhar e tem acesso a uma rede internacional que nem os outros membros do exército tem.
— E o que fazem quando encontram alguém ilegal?
— Devolvemos ao local de origem. A maior parte dos casos é de pessoas do terceiro anel tentando migrar para o segundo.
— Hum... Bom.
— Ainda vai querer relatar?
— Acho que tenho o dever de informar.
— Se a senhorita quiser, eu informo. Terei que ver o general de qualquer maneira hoje.
— Eu ficarei muito grata.
Adam sorriu pelo retrovisor e logo em seguida parou na frente do colégio, não era longe, ela poderia ir a pé se desejasse.
Quando a noite chegou, Dimitri encontrou o bilhete de Danielle, dizendo onde estava e explicando que não podia faltar ao evento, já que todas as damas da sociedade estariam lá, inclusive Ilde, e sua falta faria com que fizessem perguntas.
Eles não tinham empregados noturnos, a moça temia que testemunhassem os acessos de Dimitri e, nisso, ele não se opôs. Por essa razão não precisava fingir se importar, para ele Danielle só servia como sustento de sua aparência de bom cidadão e fazia isso muito bem. Era linda, jovem e de boa família, o problema dela se resumia a não gerar novos Novakohuts e seu tio o pressionava por herdeiros. Começava a pensar que a esposa, embora dez anos mais jovem do que ele, tivesse sido um negócio ruim.
Mas como diria que Zunik escolheu mal quando optou por fazer dela a esposa do sobrinho e, com isso, a progenitora da próxima geração da família? Se fosse dado opções a Dimitri, talvez tivesse escolhido ela também e o que lhe restava era insistir com Danielle noites após noites.
Mas, naquele momento ele não queria pensar nela, a sua falta o deixou até mais tranquilo para aprontar-se. Havia marcado um encontro no qual pretendia permanecer até o sol raiar e era apenas nisso que queria pensar depois daquele dia infernal.
Danielle foi a primeira a chegar ao Spa. Não demorou quarenta minutos para ir à sua casa, pegar os pertences básicos para passar a noite, reforçar a maquiagem, escrever o bilhete endereçado a Dimitri e voltar animada. Ela amava aqueles eventos, eram os únicos encontros sociais que podia participar por si só, se divertir e relaxar verdadeiramente, vivenciava paz neles, pois dividia horas com pessoas que gostava, que gostavam dela e com as quais se sentia livre.
Ilde chegou logo em seguida, agitando as conhecidas e desconhecidas, já com vinho circulando em seu sangue, mas o álcool pareceu evaporar de imediato de seu corpo quando viu Danielle, e sua expressão se transformou de uma forma jamais vista por outra pessoa senão Leon e a própria Danielle e, em todas as vezes, foi por causa da moça.
— Ilde... — ela tentou dizer.
— Não! — cortou Ilde. — Você não vai me impedir dessa vez.
Danielle pegou o punho de Ilde. — Eu só quero conversar, vamos para um lugar mais calmo, por favor.
— Nem pensar, você vai tentar me convencer a não fazer o que prometi, e nunca deixo de cumprir as minhas promessas.
Ilde tentou ajudar Danielle de maneira pacífica, pediu para Leon orientar Dimitri e ele o fez algumas vezes, insistiu e argumentou também, o que só piorou a situação de Danielle. Então, na última vez que Dimitri bateu nela, Ilde prometeu que daria um tiro nas genitálias dele e outro no meio da testa, se isso voltasse a acontecer. Por essa razão, Danielle nunca mais deixou que Ilde soubesse das ocorrências.
— Justamente por isso quero conversar — falou Danielle e seus olhos se inundaram de lágrimas, o que abrandou a raiva de Ilde e a fez ouvir. — Você é tudo o que tenho e essa noite é o que vai me dar forças para superar os últimos... dias. Por favor, não tire isso de mim ou não terei mais nada e nem motivos para viver. Nem o Leon pode salvar você de um ato desse.
Danielle sabia que Ilde faria o que prometeu, sobretudo depois da terceira taça de vinho e aquilo a apavorava.
— Isso só seria necessário se alguém descobrisse.
— Por favor, Ilde.
— Eu desconfiei que o seu sumiço repentino tinha relação com ele. Você mentiu para mim e também fingiu que não estava em casa quando eu estive lá, não foi?
Em resposta, Danielle apertou a mão de Ilde com ambas as mãos, congeladas de terror, implorando em seu íntimo para que a amiga a ouvisse. Mas foram as lágrimas que começaram a escorrer por seu rosto que arrefeceram o ímpeto da mulher.
— Vamos achar outro lugar para conversar, ninguém tem que ver você chorar.
Após uma longa conversa, Danielle contou parte do que houve para o seu rosto mostrar um hematoma visível por baixo da grossa base. Em verdade disse apenas que o marido lhe deu um tapa e omitiu o restante, se Ilde soubesse de tudo, ela jamais conseguiria segurá-la, depois pediu para que a mulher a ajudasse a ter uma noite tão maravilhosa que a fizesse esquecer de seus infortúnios. Funcionou, Ilde retomou sua máscara de futilidade e focou seus esforços nisso, mas não esqueceu.
Verbena foi a última a chegar, estava muito diferente com os cabelos soltos e roupas comuns. Ela entrou inalando a deliciosa fragrância de maracujá, recebeu sua taça de champanhe e seu cronograma e, antes que pudesse andar muito, Danielle e Ilde surgiram de seus dois lados.
— Deixa eu ver se você está com a gente — falou Ilde tentando olhar o cronograma de Verbena.
Verbena percebeu, no mesmo instante, a falta de pompa e floreios na fala da mulher, suas madeixas douradas soltas até os ombros e as roupas elegantes, porém, tão largas que não faziam justiça ao seu corpo bem delineado, mas eram a imagem do conforto, e sorriu, o Spa atuava mesmo como um lugar seguro.
— Você deixou a professora no nosso grupo, não é Monique? — perguntou Danielle.
Monique se virou, estava orientando outra cliente próxima.
— Em algumas atividades — respondeu. — Não esqueçam que é a primeira vez da Verbena no Spa e vocês são péssimas companhias.
Ilde levou uma mão ao colo. — Eu? Péssima companhia? — brincou.
O volume de voz dela não mudou nada.
— Sim. Vocês duas conversam quando têm que meditar, contam histórias na hora das terapias e riem quando precisam se concentrar, fora que terminam a noite bêbadas.
— Monique, o que a professora vai pensar de nós? — falou Danielle, mas ria, cumplice.
— Podem me chamar de Verbena, aqui eu não sou professora — pediu Verbena.
— Pois bem, Verbena. Me deixe te mostrar como as coisas funcionam por aqui — disse Ilde, já havia muitas taças de champanhe, acrescidas ao vinho, no comando do comportamento dela, mas a conduziu firme sobre os saltos altos até o meio do hall de entrada.
— Sejam bem-vindas! — falou uma moça de longos cachos dourados e sotaque estadunidense, o que interrompeu os planos de Ilde. — Às novas convidadas, meu nome é Maeve, sou a organizadora de eventos do Spa e organizei a noite de hoje. Primeiro iremos ao coquetel servido no salão, depois falaremos um pouco de saúde da mulher, em seguida cada uma seguirá o cronograma que recebeu na entrada. Por favor, se dirijam ao salão e relaxem.
Ilde puxou Verbena na direção indicada e dedicou o coquetel a apresentação dela a mulher por mulher presente no local, inclusive as funcionárias. À Verbena só coube cumprimentar e resistir a insistência para que bebesse até que chegaram àquela que Ilde deixou por último, pois era a companhia com quem pretendia ficar.
— Verbena, essa é a Sônia Zinekolski, a estupenda esposa do major mais adorável e fofo da região — falou Ilde, atiçando o riso de Sônia.
— É um prazer conhecer a esposa do “major mais adorável e fofo da região” — cumprimentou Verbena.
— A Ilde é um exagero, ele não tem nada de fofo, mas é adorável — respondeu Sônia.
No entanto Ilde não exagerou na descrição de Sônia, estupenda era a palavra apropriada para classificá-la. A mulher tinha longos cabelos de ébano, lábios vermelhos como nenhuma outra usava, grandes olhos esverdeados e um corpo escultural ao longo de um metro e setenta de altura, jamais passaria despercebida em qualquer lugar que fosse, não importaria a quantidade de gente que estivesse em volta.
— Eu já conheço você — continuou Sônia. — Você estava na festa da fábrica queimada, não tivemos a oportunidade de conversar na ocasião.
— Infelizmente não tivemos oportunidade de nada naquela noite.
— E por que precisamos lembrar daquela noite, se temos uma ótima aqui e agora? — perguntou Ilde.
— Você está certa, me desculpe — respondeu Sônia.
— Sônia, querida. Você sabe se o major Saturno já se casou?
— Não sei. Por quê?
— Porque ele é um homem viúvo, sem filhos, com boa colocação no exército e ainda tem idade para dar um bom marido para a Verbena.
Sônia soltou um riso perplexo, enquanto Verbena baixou a sua taça de água saborizada.
— Você está louca, Ilde? A moça mal chegou, e você já quer arrumar marido para ela? E logo o Saturno?
— Qual é o problema?
— Não quer apresentar o Zig também?
Verbena riu, imaginando Ziger ouvindo uma mulher pronunciar o seu apelido. Ainda mais uma fora dos padrões como Sônia.
— Ai, que nojo! — repudiou Ilde e olhou novamente para Verbena. — Acho que o major Saturno é um pouco velho para você, imagino que tenha uns quarenta e cinco anos, mas nada impede que se conheçam, idade não atrapalha, se ele puder te der satisfação na cama.
Verbena levou alguns segundos para internalizar o que ouviu e segurar a gargalhada que queria explodir de sua garganta.
— Isso é muito lisonjeiro, principalmente vindo de você... — ela tentou dizer.
— Não! Não! Não! Não quero que me dispense, eu prometi arrumar um marido para você, então vou arrumar, um gentil e que dê status. Não conheço bem o major Saturno, mas nunca ouvi falar mal dele, e ele ainda foi nomeado para o segundo batalhão mais importante daqui. Eu preferia indicar o Adam, ele é uma gracinha, mais jovem, mais bonito, bem mais condizente com a sua idade, e é tenente-coronel, uma posição melhor para ser um bom exemplar de marido, e vocês já se conhecem, mas ele só pensa em cachorros.
Não pareceu à Verbena que Adam só pensasse em cachorros, pois ele nunca falou com ela sobre animais, porém, não contrariaria Ilde naquele momento de devaneio ébrio.
— Por outro lado a Verbena teria bastante paz porque ele não fala muito com seres humanos — acrescentou Sônia.
Verbena franziu as sobrancelhas, Adam talvez fosse uma charada inesperada, visto que ele podia ser tudo com ela, menos silencioso.
— Eu ia dizer que estou lisonjeada por você pensar que sou tão jovem assim — falou Verbena.
— Quantos anos você tem?
— Trinta e oito.
Pela primeira vez, Ilde analisou Verbena desde os pés até a cabeça, ela supôs que a moça tivesse vinte e seis ou vinte e sete anos, sob nenhuma circunstância que tivesse mais de trinta. — Não sabia que os ares do campo faziam tão bem às pessoas — comentou.
Verbena sorriu. — Fazem maravilhas.
A professora evitou mencionar que seus genes também influenciavam, mas Ilde estava ciente disso e, apesar do álcool enuviando os pensamentos, também não quis mencionar, uma vez que ela leu sobre a lentidão do envelhecimento de povos com pele mais escura em um livro proibido antes de ele ter sido considerado perigoso.
— Melhor ainda. Que homem, nesse mundo, não iria querer uma mulher como você?
— Mas vamos deixar o Saturno fora, ele é nojento — falou Sônia.
— Bem... ele não é bonito. Acho que podemos deixá-lo na reserva.
— Não na reserva, Ilde, fora da lista — insistiu Sônia. — Além disso, a professora tem status próprio, um major ou tenente-coronel que se beneficiaria da posição dela, não o contrário.
Dessa vez foi Ilde quem arregalou os olhos, cintilando com uma ideia que não sabia como não teve antes.
— O marechal é solteiro e o tempo parece não ter passado para ele. Não sei por que um espetáculo de homem daquele continua solto até hoje, mas talvez tenha sido porque não encontrou uma candidata à altura.
— Ilde, o que você acha de mudarmos de assunto? — pediu Verbena.
Ilde agarrou uma das mãos de Verbena. — Por favor, querida, me deixe tentar...
— Verbena! — chamou Sônia. — Já conheceu a Danielle?
— Sim, hoje de manhã. E onde ela está?
— Eu não sei, não a encontrei ainda. Ilde, você sabe onde está a Danielle?
Ilde observou Sônia, indecisa se aceitava a mudança de assunto ou insistia no que a agradava mais, por fim cedeu e olhou em volta, tinha deixado a amiga fazia poucos minutos com Monique. Em geral quando Ilde não estava com Danielle, estava com Sônia, quando não estava com uma delas, estava com as duas, suas companheiras mais próximas. Ao que tudo indicava, Verbena estava inclusa naquele seleto grupo.
— Ali! — apontou Ilde. — Acho que a Monique está tentando convencê-la a trabalhar aqui e espero que tenha conseguido.
— Então vamos lá dar um empurrãozinho — propôs Sônia.
Não era sobre isso que falavam, mas Monique apontava os benefícios que a empresa oferecia às funcionárias. A pressão das quatro resultou num “talvez” de Danielle e depois elas mergulharam na diversão prometida. Ilde não fez nada além de consumir cada bebida ofertada, conversar e impedir que as recém-chegadas cumprissem o próprio cronograma.