Caos
A primeira explosão foi ouvida quando Adam já estava com os animais no pátio, seguindo em marcha para a entrada, e Verbena assistia a marcha rítmica dos jovens militares em frente ao prédio administrativo, ao lado de Zunik e sob os olhares lascivos de Saturno. Um tremor agitou o chão e Zunik tomou a frente, puxando a sua arma particular, iria se equipar depois que supervisionasse o preparo dos rapazes, mas não houve tempo nem de entrar no prédio.
— Vocês! — ele gritou, sinalizando para o grupo alinhado à sua esquerda. — Comigo, para o portal principal. Vocês e vocês! — E ele sinalizou para o grupamento do meio e à direita. — Com o major, achem a fonte dessas explosões.
Em deslocamento sincronizado, exaustivamente treinado, eles foram cumprir as ordens. O portão tinha sido coberto por espessa fumaça branca, uma das laterais estava no chão e os soldados dali atiravam a esmo no meio da névoa.
— Protejam a entrada e abatam quem tentar passar! — berrou Zunik.
Mal o marechal terminou de falar e um estouro, abafado, próximo chamou sua atenção. Ele se afastou, respirou com cautela e olhou em volta. Não sentiu nenhum odor adocicado; os rapazes tossiam, mas estavam firmes. Era apenas fumaça, ele percebeu, densa e sufocante, mas nada além disso.
— É uma distração — murmurou e se virou, indeciso. Mas, era uma distração para quê?
Os tiros cessaram repentinamente. Zunik voltou-se ao confronto, para perceber que só os seus militares dispararam, agora eles voltavam, correndo, em busca de proteção das granadas lançadas em resposta.
— Preparem-se para atirar em qualquer coisa que se mexa, ninguém sai vivo dali. Entenderam? — reforçou Zunik.
Tão rápido como o pensamento estavam todos em posição. Os soldados, sobretudo os mais novos, ansiavam por dar mais alguns tiros. Nunca precisaram fazer isso, o batalhão ficava em uma zona onde a população era dócil e submissa até aos praças menos graduados.
Mas ninguém veio e a ansiedade tomou conta do lugar, a única coisa que se movia era a fumaça se dispersando. De repente, um tiro sobressaltou o grupo, outro foi disparado em seguida e todos os rapazes atiraram, e atiraram, e continuaram atirando, até que a munição acabou.
Zunik percebeu que o primeiro partiu de um deles, um nervoso demais para manter o dedo fora do gatilho, o restante o seguiu, ignorante. Era notório que nem sabiam por que estavam fazendo aquilo, não houve movimentação que justificasse, não houve aproximação, não tinha ninguém mais ali, mas ele não queria perder tempo em uma reprimenda, nem em uma conversa sequer e voltou-se ao soldado à sua frente.
— Garoto! — chamou. O jovem virou-se e Zunik apontou para o fuzil que ele carregava. — Me dê isso!
O soldado entregou, de imediato.
— Mantenham a formação e protejam este portão a qualquer custo! — ele disse e correu para o prédio administrativo, acreditava que era lá que descobriria qualquer que fosse a motivação daquele ataque.
Adam parou para ouvir e entender que explosão era aquela. Duas outras se sobrepuseram a ela, mais perto, e ele abaixou-se em alerta.
— Voltem agora! — Adam gritou. — Levem os cães para os canis e protejam também os estábulos.
Prevenido, Adam optou por se armar e se equipar antes de ir aos canis. Assim estava preparado para correr na direção das bombas quando as escutou. Encontrou outros soldados no caminho e os ordenou para o auxílio, era óbvio que a guarda do portão de veículos estava com problemas.
De longe viram a bruma ganhando espaço, alguns soldados no chão e outros atirando para o que não viam. Diferente do marechal, Adam não pensou na composição da fumaça e se lançou nela.
A primeira bomba que jogou foi longe. Ele só viu a luz no centro da névoa quando ela explodiu, parecia não haver ninguém lá, mas podia ouvi-los e parou por alguns segundos para interpretar os sons.
Aquela granada era um dos muitos projetos de Edmund, ela debilitava por tempo suficiente para que os inimigos fossem capturados. Ali o intuito de Adam era ganhar tempo para retirar os feridos e agrupar os soldados que vieram com ele.
Com as vias aéreas ardendo e os olhos queimando, ele voltou-se aos outros.
— Rápido! — disse e sinalizou para os caídos, em seguida para os encarregados do portão.
Adam observou os rapazes, enquanto cumpriam as ordens. Ninguém, além dele, estava abastecido para um confronto, então teria de protegê-los.
— Em formação! — gritou, enquanto puxava o rádio de um dos bolsos, girou alguns botões, às pressas, não tinha certeza de qual era a frequência daquele batalhão, não teve oportunidade para verificar isso. — Alguém na escuta? — perguntou.
Não houve resposta, mas outra bomba explodiu, bem na frente deles, era um contragolpe. Logo a fumaça subiu ainda mais densa.
— Recuem!
Os rapazes se afastaram em organização inviolável, e Adam voltou ao rádio. Aquilo estava saindo muito diferente do planejado.
— Aqui é o tenente-coronel Adam Serquit Molls, número de identificação: zero, quatro, quinhentos e nove, cento e um. Preciso de auxílio no portão oeste; estamos sob ataque.
Ele nem tinha concluído o pedido e o som de passos atingiu seus ouvidos. Os invasores não se preocupavam com discrição, apenas avançavam e os homens não tinham conseguido afastar os inconscientes nem cinco metros para trás dele.
— Protejam-se! — avisou e pegou mais duas granadas, arrancou os lacres e as segurou por alguns segundos, longos milésimos em que os presentes prenderam as respirações, na perspectiva de que estourariam ali, depois ele jogou, rolando pelo chão e agachou, de costas, com as mãos sobre os ouvidos.
As bombas explodiram antes de alcançar a parede de fumaça e o silêncio veio como resposta.
— Recuem! — Adam levantou ordenando.
E, novamente os rapazes se afastaram, dessa vez vários metros. Estavam com os olhos vermelhos, lacrimejavam, alguns tinhas gargantas irritadas, mas prosseguiam alertas. Adam verificou seus bolsos. Não conseguiria manter a defesa por muito tempo, e explorou sua mente a procura de uma solução para o problema, só precisava segurar o combate mais um pouco, não era possível que ninguém ouviu o que estava acontecendo ali, que ninguém tenha escutado o seu pedido de ajuda no rádio.
— Senhor! — Adam ouviu e se virou. Era um dos responsáveis pelos canis, com quem tinha acabado de falar. Ele trouxe um pequeno grupo de soldados, presenteando o tenente-coronel com um leve alívio.
— E os animais? — perguntou.
— Estão seguros.
— Você tem alguma granada?
— Sim, senhor. Carregamos o que pudemos.
— Então usem, agora.
Adam não queria que usassem as armas de fogo convencionais, visto que havia barracos dentro do raio de alcance das balas. As bombas manteriam os moradores em alerta para a autoproteção e os próprios homens atentos.
— Não estão atirando — constatou um cadete ao seu lado. Adam tinha percebido também. — As primeiras explosões foram potentes para derrubar os portões, agora só estão usando bombas de curto alcance e baixo impacto. Devemos nos preocupar?
— Sempre devemos nos preocupar — respondeu Adam, puxando as últimas bombas que trazia. — Granadas! — disse aos seus e arremessou.
Os demais seguiram o exemplo, depois se agacharam e protegeram os ouvidos com os olhares grudados no lugar onde a entrada estava oculta. Quando o último eco se dissipou, o silêncio se propagou.
— Avancem, com cuidado.
Não houve reação ao avanço deles, nenhuma defesa, nenhum movimento, nenhum murmúrio, e avançaram mais um pouco. O silêncio persistiu. Silêncio demais, repentino demais, notou Adam. Era esperado, ao menos, gemidos. As granadas sônicas que usaram raramente provocavam inconsciência total, ainda mais em todos os atingidos, e ele sabia que havia um número considerável de pessoas por trás da cortina de fumaça.
Sua linha de raciocínio foi interrompida pelo tropel de homens que desciam a rua principal, um destacamento capaz de conter a invasão que se desenrolava ali. Porém, não houve tempo de relaxarem e uma nova explosão veio do interior do batalhão.
Verbena não perdeu um segundo sequer, correu para o Centro de Controle e entrou no prédio sem qualquer impedimento, os guardas não estavam lá, mas havia alguns do lado de dentro, que a viram, ameaçaram interceptá-la e pararam. Verbena registrou o ato, mas não tinha tempo para deduções, e seguiu. Se deparou com um galpão quando atravessou a primeira porta, sua imensa entrada estava escancarada para o tráfego de veículos de grande porte e Verbena olhou por ela rapidamente para ver se alguma parte do conflito era visível dali.
— Senhorita Koch! — alguém chamou. E ela parou, virando-se um tanto irritada.
— Major Saturno? O senhor não deveria estar liderando uma equipe de busca para a origem destas explosões?
Ele continuou o seu percurso rápido até ela.
— Antes, tenho que mostrar uma coisa à senhorita — respondeu Saturno.
— Não tenho tempo agora, preciso ir ao Centro de Controle.
— Como sabe que o Centro de Controle é aqui?
— Com licença, major — falou Verbena na intenção de sair, e Saturno deu mais um passo para perto dela.
— É rápido, fica logo ali.
Saturno mostrou uma porta marrom, pouco ao lado da que ela entrou, destoante do cinza escuro das demais. Ele transmitia tanta seriedade que parecia um assunto oficial, urgente, talvez que coubesse no que estavam enfrentando. Verbena acreditaria nisso se fosse um pouco mais ingênua e se não visse os sorrisos imorais nos rostos dos dois soldados de guarda quando passou o olhar por eles na direção da porta apontada por Saturno.
— Eu já falei que não tenho tempo, e você também não tem.
Verbena retomou o seu caminho. Entretanto, não foi capaz de andar mais que dois passos, pois a mão de Saturno agarrou o seu braço, logo abaixo do ombro, e a puxou para perto dele. — O que você está fazendo?
— O que quero desde o primeiro dia em que a vi — ele respondeu, pegando o outro braço de Verbena e a trazendo para ainda mais perto. A visão, a tão curta distância, do rosto esburacado por cicatrizes de acne fez revirar o estômago dela.
— Solta agora, ou você vai se arrepender.
Saturno aspirou o cheiro dos cabelos de Verbena. — Não vou me arrepender — falou. — O marechal não está aqui, nem o tenente-coronel, eles não vão se lembrar de você agora e situações do tipo que está acontecendo demoram para terminar... Eu terei tempo. Jamais uma chance como essa aparecerá de novo. — Saturno observava cada centímetro do rosto e pescoço de Verbena enquanto falava, e ela deixou o nojo que sentia transparecer em sua expressão.
— Você vai se arrepender de qualquer maneira, resta saber quanto.
Ele sorriu, um sorriso que Verbena achou mais repugnante, mais hediondo, mais abominável. — De jeito nenhum — respondeu. — Eu adoro mulheres do seu tipo, impuras, mas são tão raras hoje em dia e nunca tive uma como você, especialmente bela, bem cuidada, cheirosa, tem uma pele... Ah... Que pele linda! É um manjar dos deuses, senhorita Koch. Não posso esperar até que o marechal termine e me dê o que sobrar.
— Sua ordem é me proteger.
— Ah, mas eu vou. Não se preocupe, você vai gostar, vai até agradecer quando eu terminar.
Saturno a arrastou na direção da porta marrom. Verbena se deixou conduzir, enquanto esquadrinhava o galpão a procura de câmeras ativas ou testemunhas além daqueles dois guardas. Depois encarou os seus rostos enfeitados pelos risos que se alargaram pela antecipação do destino dela e entendeu porque eles desistiram de interceptar seu caminho quando a viram, Saturno estava vindo atrás e eles sabiam o motivo.
Para a sala, Verbena concedeu o mesmo olhar panorâmico e não precisou de muito esforço para compreender onde estava. Se os pôsteres de mulheres presas e amordaçadas, nuas, nas paredes não desse a ideia, as algemas, cordas e objetos sexuais dariam: era a área de abate de Saturno.
Contudo, Verbena não tinha interesse pelo ambiente; só tinha pelo som da porta se fechando. Ao ouvi-lo, ela girou, enlaçando o braço dele sob o dela, e, num movimento rápido, golpeou a laringe do homem com a mão rígida como madeira maciça.
Ele despencou, desesperado por ar, com as mãos amparando a garganta, como se elas, de alguma maneira, pudessem ajudá-lo. Verbena o deixou cair, perdeu o interesse pelo braço de seu algoz assim que sentiu a mão atingir o pescoço dele. Sua atenção já estava nas algemas que escolheu para prender os punhos do nada honrado major.
Andou alguns passos para pegá-las, sorriu ao ver que havia uma ao lado com corrente e o mesmo tipo de mordaça bola que apertava a boca de uma mulher fotografada, aos prantos, em um dos pôsteres. As apanhou também e voltou em seguida, chutou o estômago de Saturno, fazendo o pouco ar que seus pulmões conseguiram capturar saltar para fora e o corpo amolecer. O prendeu e retornou à porta pela qual entrou.
— Você tinha razão — Verbena falou, removendo a chave da fechadura —, eu gostei disso.
E ela saiu, trancou a porta e guardou a chave no bolso, foi a segunda vez que viu olhares tão atônitos ao vê-la sair ilesa de uma sala. Mas, com o mordomo de Zunik, precisou fingir não ver, com os soldados, agora flanqueando justamente aquela porta, não precisava.
— Vocês dois, venham comigo! — E ela andou alguns metros, mas logo percebeu que não a obedeceram e se virou, triplamente exasperada, estava perdendo um tempo que não tinha e não havia como deixá-los ali, onde encontrariam uma forma de libertar Saturno. — Vocês têm duas opções: virem comigo ou ficarem e dividirem a punição com ele. — E Verbena mostrou a porta trancada. — O ex-major não ouviu o meu aviso de que iria se arrepender, vocês ainda têm a chance de ouvir.
Os rapazes hesitaram por um instante, e Verbena desejou reduzi-los ao que era Saturno naquele momento. Talvez deixar os três abraçados e acorrentados juntos dentro daquela sala, visto que obviamente idolatravam o homem que a transformou em um templo ao aniquilamento de mulheres.
Mas já preferiu entrar nela para que os dois não vissem suas habilidades, não podia mostrá-las a eles sem necessidade, sobretudo porque ainda nem sabia como explicar o que fez com o major de uma forma que não desiludisse o marechal acerca de sua fragilidade feminina. Não teria como explicar a derrota também daqueles dois.
Por fim, os soldados escolheram acompanhá-la pacificamente até o Centro de Operações, onde ela providenciou suas detenções o mais longe possível da atual prisão do major Saturno até que pudesse lidar com aquele assunto.
O marechal encontrou Verbena no setor de segurança, falando com dois oficiais, enquanto olhava atenta para o monitor do computador no qual um rapaz digitava freneticamente.
— Senhorita Koch, o que faz aqui? — perguntou Zunik. Ele tinha se esquecido dela.
Excetuando a moça, todos se puseram em reverência rígida.
— Descansar! — Zunik disse, irritado por ter que pausar a sua linha de raciocínio para aquilo.
— Pensei que seria mais útil aqui — respondeu Verbena —, estamos verificando a localização das explosões, para tentar determinar o objetivo da invasão.
— Algum êxito?
— Ainda não.
Zunik olhou para um dos oficiais que acompanhavam Verbena. — Onde estão os monitores de vigilância? — perguntou.
— Ficam na outra sala, vossa excelência, mas estão inativos desde que recebemos a ordem de retirar as câmeras.
Zunik balançou a cabeça de um lado a outro, se esqueceu também que deu aquela ordem, viver sem o monitoramento vinha custando alto.
— Senhor — chamou Verbena. — Veja isso, por favor.
Foi só naquele instante que Zunik percebeu o quanto as pessoas ali estavam calmas, nem parecia que havia um bombardeio do lado de fora, cada um fazia o seu trabalho, em silêncio, compenetrados, sequer o estouro que ouviu assim que parou ao lado de Verbena os desestabilizou.
— O que é isso? — ele quis saber.
— É a planta do batalhão — respondeu Verbena —, o tenente estava me contando que, na ausência das câmeras, a equipe daqui colocou sensores em toda a área militar, isso nos ajudou a determinar de onde estão vindo as explosões. Percebemos que é só em dois lugares, na entrada principal e na entrada de veículos, que é onde eu acho que acontece a invasão real.
— Ele quer roubar mais veículos?
— Ele quem, vossa excelência? — perguntou o homem do lado oposto de Verbena.
— O Ás de Paus! Quem mais nos atacaria de maneira tão escancarada? — respondeu Zunik.
O tenente ofegou, com um arrepio gélido percorrendo o abdômen e, pela primeira vez, os outros também demonstraram nervosismo. Parte deles se moveram desconfortáveis nas cadeiras, outros olharam, de relance, para o tenente, e ninguém mais trabalhou com calma. Não havia ali quem não soubesse que o Ás de Paus gostava de incêndios, implosões e destruição, e que ele pouco se importava com as vidas de quem estivesse dentro dos lugares que derrubava.
— Não acho que estão atrás de veículos — falou Verbena.
— De que, então?
— O arsenal fica na lateral das garagens. — Zunik olhou, de súbito, para ela. — Acho que procuram as armas, senhor, apenas escolheram o dia errado para fazer isso, um dia em que estamos preparados.
— Tenente, me acompanhe! — chamou Zunik e o homem obedeceu.
O tenente saiu, pedindo auxílio pelo rádio, precisou mudar de frequência e repetir a mensagem várias vezes, por isso foi falando no carro que os levava, à toda velocidade, para o arsenal. O daquele batalhão era um dos maiores, pois a instalação fazia a segurança mais indispensável da cidade, já que bloqueava a passagem de moradores do quarto anel.
— Use um canal só, rapaz! — impacientou-se Zunik. — Para que ficar repetindo mil vezes a mesma coisa?
— Aqui usamos um para cada setor, assim, se alguém tentar captar a frequência, não terá todas as informações.
— Hum... Interessante.
Era mais que interessante, era a melhor ideia que ouviu desde que perderam as comunicações tradicionais, só não entendia por que o método não foi implantado no país inteiro.
O pátio da frente do arsenal tinha virado um pandemônio. Adam já estava lá, com os soldados que o ajudaram a defender o portão, os que ficaram no galpão de armas, mais os trazidos por um primeiro-tenente que os socorreu.
Zunik ouviu muitos tiros no caminho até ali, agora ninguém mais atirava, um indício de que estavam com pouca, ou nenhuma, munição, e ele fez um lembrete mental de que precisava revisar o treinamento dos militares daquele batalhão, talvez de todos. Eles eram ansiosos demais, nervosos também, e quem segura uma arma precisa ser frio, racional e calmo. Mas, ao menos, lhe pareceu que os invasores não tinham ultrapassado os limites da calçada.
Agora Zunik podia vê-los, não eram tantos quanto imaginou. Estavam vestidos de branco, dos pés à cabeça, com máscaras de gás tão brancas quanto, e munidos de inconfundível habilidade militar.
— Engenhoso — ele pensou. O grupo se camuflava na névoa; como jamais pensou em fumaça como camuflagem, jamais pensou em branco como uniforme.
No entanto, Zunik afastou a observação vaga: saltou do carro, atravessou o pátio, posicionou-se e atirou. O tiro acertou um alvo e atraiu atenções, tanto de inimigos, quanto de aliados, a pessoa atingida se curvou, mas não caiu. Zunik esperava que estivessem usando trajes à prova de balas, ouviu relatos de que os homens do Ás de Paus usavam o material, mas conhecia o baque de um fuzil, ele costumava derrubar.
A pessoa olhou para ele, puxou objetos da cintura, pareciam armas, e ele apostava que eram, porém, não conseguiu distinguir; mesmo rala como estava, a fumaça ainda ocultava parte dos inimigos. E o adversário veio na direção dele. Zunik sorriu, quanto mais perto, mais fácil seria de atingir, ele queria ver quantos tiros aquela pessoa aguentaria.
— Marechal! — ele ouviu chamar, era Verbena e foi a única coisa que Zunik teve chance de perceber, ela jogou-se sobre ele e, antes que pudesse entender, uma explosão o desorientou. Essa perto, muito perto, não foi como as outras, teve estilhaços, poeira e um barulho ensurdecedor. A cabeça de Zunik ficou atordoada de imediato, os sons pareciam distantes, sua visão ficou turva, mas ele sentiu alguém em cima dele e se remexeu, impaciente, para tirá-la, depois olhou novamente para o grupo de invasores. Permaneciam longe, em combate, contudo, a pessoa que ele acertou continuava vindo na sua direção.
— Saia de cima de mim! — ele mandou, sua voz pareceu abafada por metros de vidro maciço, as vozes que chegaram aos seus ouvidos eram ainda mais abafadas, não entendia nada e o combatente inimigo ganhava terreno, rápido.
De repente ele parou, perto o bastante para que Zunik pudesse ver com clareza, abaixou-se e tirou a máscara. O marechal congelou, aquela pessoa, sorrindo medonha para ele, era a sua irmã caçula, desaparecida há mais de trinta anos, ele tinha aceitado a morte dela assim que seus pais lhe contaram e nunca questionou.
Verbena puxou o rosto do marechal, ela tinha saído de cima dele e perguntava se estava bem. Zunik entendeu mais pela leitura labial do que pela audição comprometida, assentiu uma resposta curta e tentou olhar para a irmã novamente, outros o rodeavam, alguém levantou Verbena e imediatamente o puxaram também, queriam tirá-lo dali, mas ele já recobrava o controle do próprio corpo e se desvencilhou com brusquidão.
— Onde ela está? — berrou.
Como não escutou respostas, Zunik empurrou os homens que o cercavam, todavia só o que viu foi os invasores recuando, os soldados que vieram atrás dele tentavam perseguir o grupo, era explícito até para a sua cabeça zonza que não conseguiriam, ele não ouviu bombas explodirem, mas a fumaça subia para encobrir a fuga e nenhum dos perseguidores se arriscou a entrar nela.
Adam passou direto por Zunik e parou na frente de Verbena, capturou o seu olhar e perguntou como ela estava.
— Bem! — Verbena respondeu em volume tão alto que ela própria percebeu que estava gritando.
Adam fez um gesto positivo e se aproximou mais.
— Com licença — pediu antes de colocar as mãos no rosto dela e puxar uma das pálpebras. Examinou, depois puxou a outra e virou-se para um dos rapazes que veio com ele. — Leve a senhorita Koch para o centro médico.
— Eu estou bem, não preciso de médico.
Eles não lhe deram atenção e a carregaram para um dos carros recém-chegados. Zunik sequer notou Adam, seu olhar estava cravado nos invasores, o coração batia forte e o corpo permanecia gelado, nem sentia mais a dor na cabeça ou a intoxicação ardente da fumaça: tudo se resumia à irmã, e calculava a melhor forma de segui-la.
Se a sensação nauseante da tontura não o tivesse impedido ao levantar, já estaria correndo. Queria ficar e alvejar os soldados covardes, com medo de uma mera nuvem de fumaça, mas ainda podia divisar os vultos dos inimigos e disparou atrás deles.