Crise no cais Ás de Paus · Capítulo 3 de 33
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Crise no cais

Verbena deixou a sala que pertenceu ao seu pai, levantou a cabeça e ajeitou a postura, doeu mantê-la curvada durante toda a entrevista, até o pescoço estava enrijecido por ter ficado com a cabeça baixa, não era acostumada a mantê-la assim. Todos os olhares, variando de curiosos a chocados, a seguiram enquanto andava até o elevador, ela sabia que os motivos deles eram os mesmos de Dimitri, preparou-se para aquilo e pensou que odiaria essa parte de seu serviço, mas estava amando ver os soldados a encararem daquela maneira, sabendo que em breve teriam que prestar todos os tipos de honras em sua passagem, querendo ou não.

Ela esperava ser escoltada para a saída como foi para a entrada, mas entrou sozinha no elevador, ninguém quis compartilhar o pequeno espaço com uma impura, e sorriu para si quando a porta fechou, seria divertido ver as expressões dos militares desavisados quando as portas abrissem em cada andar.

No térreo, porém, não lhe deram muita atenção, os funcionários dali estavam nervosos em um agito incomum, e Verbena seguiu para seu caminho despreocupada com o estado emocional deles, seu carro a esperava em frente.

— Senhora! — Verbena escutou chamar e virou-se, era o rapaz que havia acabado de passar por ela. Ela o olhou quando ele cruzou o seu caminho, para uma breve análise, mas ele não pareceu percebê-la em seu percurso apressado.

— Sim? — respondeu Verbena.

O jovem militar voltou e, por um instante, Verbena pensou que ele questionaria a sua presença no local.

— Você é a professora, não é? Filha do general Koch.

— Sim, sou eu.

O rapaz sorriu e ofereceu sua mão à Verbena. — É um grande prazer conhecê-la, fui eu quem fez a pesquisa sobre você. Que sorte a minha, ter chegado bem agora.

Embora soubesse quem era aquele rapaz, a atitude surpreendeu Verbena, todos os movimentos dela naquele dia foram minuciosamente treinados, todos os comportamentos que viu foram repetidamente imaginados, no entanto, aquele tratamento ela não esperava, não no primeiro contato com o governo do país.

Verbena apertou a mão estendida.

— Eu sou o major Edmund Zinekolski

— E eu sou Verbena Koch. O prazer é meu em finalmente conhecê-lo, major, já ouvi falar muito do senhor.

O peito de Edmund inflou e seus olhos brilharam como o de uma criança orgulhosa por seu feito.

— Verdade? Eu achava que o general Koch nem sabia da minha existência.

— Mas ele sabia, e muito bem.

— Eu nem sei dizer o quanto fico feliz por saber disso.

— Senhor! — Um soldado chamou, de longe, e Edmund olhou para ele. — Estamos com um problema, é urgente.

O major voltou-se a Verbena. — Sinto muito, professora, o dever chama.

— Teremos outras oportunidades.

E ela o observou correr para a recepção do prédio, depois foi para o carro, em silêncio, apenas levantou o olhar para o céu quando ouviu o som de uma explosão ao longe. A chuva tinha se tornado uma fina garoa e os sons ainda eram audíveis mesmo no interior do veículo..

Não havia mais o que fazer quando Dimitri chegou ao cais, três embarcações foram comprometidas, as únicas de guerra atracadas ali. Um dos navios estava coberto de chamas uivantes, o coronel nunca ouviu um incêndio e não sabia que as chamas faziam aquele som de gritos ferozes. Ao mesmo tempo ele se perguntou como os navios podiam pegar fogo, se tudo era feito de metal. O que ficava logo à frente estava quase encoberto pela água, arrebentado e chamuscado, e o terceiro seguia pelo mesmo caminho, submergindo rápido com um cone incandescente subindo da popa esquerda. Claramente o combustível rugia em chamas.

Toda destruição levava parte do cais consigo, e o barulho era ensurdecedor, assim como o calor insuportável mesmo a cem metros de distância, o odor cáustico o atingiu como uma bala penetrando impiedosa nas narinas quando se aproximou, descuidado, e foi obrigado a se afastar como os espectadores ao redor. Houve muita correria quando as explosões começaram, mas quando os trabalhadores perceberam que eram impotentes contra o ocorrido, procuraram se proteger a uma distância segura. E Dimitri esquadrinhou o local com um olhar afiado na tentativa de encontrar conhecidos ou um homem fardado ao menos, mas não havia ninguém.

— Não é possível que fui o único a vir — reclamou. — Quem é o responsável aqui? — ele gritou, mas não foi ouvido e se dirigiu ao homem mais próximo.

— Quem é a droga do responsável aqui? — berrou.

Três homens se viraram para ele, mas nenhum o respondeu, os três fixaram seus olhares atônitos na alta parede do galpão atrás do coronel.

Irritado, Dimitri se virou apenas para sentir sua irritação se transformar no ódio mais intenso. O que capturou a atenção dos trabalhadores foi um tecido esvoaçante, que tomava a maior parte da parede do galpão, com a gravura tão bem conhecida da letra A atrás do símbolo de paus alado. Dessa vez, porém, as asas eram incandescentes, uma óbvia bandeira, uma nítida provocação.

— Vão já ver quem colocou aquilo!

Os trabalhadores se entreolharam, incertos do que exatamente fazer.

— Andem! — berrou Dimitri. — Quando eu cheguei aquilo não estava lá, quem a colocou ainda deve estar dentro do prédio e não deixem que escapem!

Alguns correram para o galpão, outros hesitaram, indecisos, depois os seguiram, e a maioria nem ouviu a ordem, continuavam olhando hipnotizados para a destruição, que estava longe de terminar. Mais uma parte do cais cedeu, em seguida uma nova explosão ecoou do interior do único navio que permanecia flutuando.

Dimitri não tinha paciência para ficar contemplando o feito do Ás de Paus e puxou bruscamente um rapaz que assistia. O garoto se virou com a cara feia, mas baixou a cabeça quando viu quem era.

— Me conte o que aconteceu! — exigiu Dimitri.

— Não sei, não senhor. Eu trabalho na carga e descarga dos outros navios, nunca chegamos perto desses...

— Eu não perguntei onde você trabalha, quero que me diga o que aconteceu aqui!

— Estávamos descarregando os navios que trouxeram tecelagem e começamos a ouvir um barulho estranho, parecia um maçarico enorme fechado em algum lugar, não dava para saber onde, logo depois uma parte do navio da frente explodiu, por sorte foi para o lado do mar, então não machucou ninguém. E depois disso tudo virou um caos, conseguimos afastar os navios de carga antes de serem atingidos, mas os do exército, não tinha ninguém dentro para apagar os incêndios, e não teve como salvar.

— Alguém tem que ter visto quem colocou fogo nos navios, eles não podem ter entrado em autocombustão.

— Nosso turno começa seis horas, e ninguém chegou perto deles desde que chegamos, trabalhadores não se aproximam dos navios do exército.

Dimitri esbravejou baixinho e voltou para o carro, queria mandar arrancar aquela monstruosidade da parede, mas não podia fazer nada antes de os peritos chegarem, por isso quis agilizar o trabalho e puxou o rádio com brutalidade, digitou o código da sede do governo e não esperou pelo sinal.

— Coronel Dimitri Novakohut chamando — falou apressado e não houve resposta. — Coronel Dimitri Novakohut chamando! — ele gritou, então.

— Identifique-se! — foi a resposta.

— Será possível que agora não reconhece o seu coronel? Chame o major Zinekolski imediatamente!

— Dimitri. Onde você está? — inquiriu, de repente, a voz conhecida do marechal.

— Senhor — Dimitri respondeu, três tons mais baixo — estou no cais. O Ás de Paus afundou os nossos navios de guerra, que estavam atracados aqui.

— Não é possível! Esses navios são a última geração em embarcações de combate, não podem afundar.

— Eram. Acho que não sobrou nada aproveitável neles.

— Tem certeza que foi o Ás de Paus?

— Tenho, ele deixou isso bem claro. O senhor pode enviar o Zinekolski com a perícia e uma equipe para fazer o interrogatório dos estivadores?

— Farei isso agora e não saia daí — falou Zunik e desligou.

Edmund optou por ignorar o aviso do recepcionista de que havia acontecido algo no cais, não era problema dele e não pretendia agregar mais um aos acumulados em suas mãos, no entanto parecia que os problemas gostavam de persegui-lo e aquele chegou ao antepenúltimo andar antes dele. A sua incumbência urgente naquele dia devia ser única: colocar os arquivos de imagens dos drones em um programa de verificação detalhado, mas o setor já havia rompido em alvoroço quando ele saiu do elevador.

— O que aconteceu? — o major chegou perguntando.

— Três dos novos navios de guerra foram destruídos e estão descendo para o fundo do porto exatamente agora. Os maiores e mais caros da frota — respondeu o rapaz.

— Como destruídos? Compramos como impenetráveis.

— Há uma suspeita de que foi coisa do Ás de Paus, parece que não eram à prova de terroristas.

— Isso não tem lógica, não teria como ele entrar no coração da nossa cidade, sem ser visto.

— Ele implodiu um Centro de Cura inteiro e transformou as ruas em um inferno de gargalhadas através dos nossos próprios alto-falantes durante dias, chefe. Acho que é capaz de tudo.

— Nunca mais repita isso em voz alta, o próximo a escutar pode não ser eu e não poderei defendê-lo se tiver problemas.

— O marechal mandou levar as Andorinhas para lá.

— Pode encaminhar, nem precisava me avisar.

— Ele mandou você levar.

Os ombros de Edmund esmoreceram, desapontados.

— Está bem — respondeu oferecendo o seu computador portátil para o garoto. — Vocês verificam as novas imagens dos drones, para mim?

— Sim, pode deixar.

Desanimado, Edmund saiu a passos rápidos, não podia acreditar que teria de largar tudo para resolver um contratempo da marinha. Começava a prever o dia em que teria que resolver os do mundo inteiro e nunca os de sua responsabilidade. Para piorar, aquela era mais uma das muitas situações previsíveis, afinal com mais soldados nas ruas, menos soldados patrulhavam o porto, ficou ridiculamente fácil destruir e afundar as embarcações.

Os cientistas forenses e peritos em geral, o esperavam quase prontos para o serviço. A segunda equipe sob seu comando, ganhou o apelido de “Andorinhas” após adotarem um método de investigação ao ar livre em bandos e com movimentos organizados. No decorrer do tempo, eles expandiram esse comportamento para todo o período de trabalho, até se alimentavam em movimentos constantes como os pássaros. E, como tal, seguiram num comboio para o cais.

Foi só quando chegaram lá que tiveram a verdadeira noção da extensão dos estragos, foi quase inacreditável ver que parte da frota, recentemente adquirida com pompa e orgulho, havia sido perdida de maneira irrecuperável. Edmund olhava para a destruição equilibrando-se entre terror e alívio, por um lado sua missão com os soldados desaparecidos não era mais o foco de Dimitri, por outro, o acontecimento teria altos custos para a população.

Alguns soldados já estavam lá, envolvidos no interrogatório dos trabalhadores e ele dispersou os peritos, com o cuidado de não se aproximar de Dimitri, que berrava ordens vazias para ninguém, uma vez que nenhuma alma viva lhe dava atenção.

Edmund entrou no galpão, esquadrinhando cada canto com um olhar entusiasmado. Nunca esteve em um lugar onde o Ás de Paus havia atuado, ele sempre recebeu os dados das atuações e seu departamento investigava, depois entregava relatórios aos superiores.

Era diferente observar a obra, pisar onde os terroristas pisaram, não devia se sentir empolgado, mas estava empolgado e andou pelo vasto depósito, estava vazio, não parecia abrigar nada fazia tempo. Em seguida subiu as escadas de metal até a passarela que rodeava o alto do edifício, estavam retirando o tecido com a arte desenhada primorosamente.

Edmund não devia se referir à pintura como “arte” também, sabia disso, mas gostava de ser um transgressor na proteção de seus pensamentos, e a tela era bonita realmente, além de impressionante, duvidava alguém ter como negar. Não havia dúvidas de que deu trabalho e levou muito tempo para ser feita, o que indicava premeditação, perfeccionismo e altas habilidades. Então o Ás de Paus esperava que aqueles navios atracassem em um local vulnerável, senão eles, outros de igual importância militar, ou ainda estava monitorando as embarcações. Mas, se estava fazendo isso, como era a questão mais importante. E o que mais ele estaria monitorando?

— Procurem, por dispositivos de rastreamento e monitoramento clandestinos aqui e no restante do cais, por favor — disse a um perito. — Vou pedir reforços para ajudar nisso.

O rapaz assentiu, Edmund assentiu de volta e saiu, andando devagar para que sua visão perdesse o mínimo possível da leitura do ambiente tomado pelo odor de poeira úmida, e diminuiu ainda mais a velocidade dos passos após olhar pelas janelas, que ladeavam o seu trajeto de retorno, e constatar que Dimitri continuava lá fora.

— Parece uma mosca louca e sem rumo — pensou.

Para não esbarrar com o coronel, então, pediu reforços dali mesmo e ficou na companhia de seus homens, poderia deduzir mais sobre o Ás de Paus se não tivesse Dimitri distraindo a ele e aos peritos com trivialidades de pouca, ou nenhuma, serventia. Além do mais novas perguntas surgiam a cada metro que andava. O que aquele depósito devia armazenar? Por que estava vazio? Quantos mais estariam vazios em uma região onde havia fluxo intenso de entrada e saída de produtos? Quem era o proprietário? Por que ninguém notificou um galpão inativo por tanto tempo que acumulou poeira grossa no chão?

— Zinekolski! — Edmund ouviu e fechou os olhos com os lábios apertados, em desgosto.

Dimitri se lembrou do barracão onde o major se escondia dele, não queria levantar de onde o perito mostrava uma pista promissora de indícios de que artefatos explosivos tinham sido manuseados em um canto limpo do galpão, mas o dever obrigava e ele se pôs em pé, virando-se demoradamente para o coronel que vinha mais agitado do que apressado.

— Senhor?

— Excelência.

— Como?

— De agora em diante se refira a mim como “Excelência” e não mais como “Senhor”. O que tem para informar? Quero algo que preste.

Edmund engoliu dolorosamente a correção de que a forma de tratamento não era gramaticalmente correta.

— Estamos iniciando o processo de coleta — respondeu. — Antes de terminarmos e a equipe estudar o que coletar, não há nada que possa ser informado.

— Você tem a mania de responder o que não perguntei. Eu quero saber se tem informações relevantes.

— Não, senhor.

— Não, excelência — corrigiu Dimitri.

— Não, excelência — repetiu Edmund. Se Dimitri queria bancar o analfabeto, que fosse; seria mais um motivo para rir dele pelas costas.

— Inútil, como sempre.

— Coronel, vossa excelência pode me tirar uma dúvida? O que os nossos navios estavam fazendo nesse porto?

— Brincando de ciranda! O que navios fazem em um porto, moleque? Estou começando a achar que o seu intelecto não é o suprassumo que tanto falam.

— Eu quis dizer: O que os nossos navios de guerra estavam fazendo em um porto de carga e descarga comum e não em um da marinha como deveriam?

Dimitri travou por um instante. — Não é da sua conta — respondeu de supetão.

— Me desculpe, senhor, mas é da minha conta. Sou o responsável pelas investigações e essa é uma informação relevante para que tenhamos uma resolução que preste.

Uma sobrancelha de Dimitri se elevou em reação ao tom de Edmund, entretanto, seu cérebro havia entrado em tamanho frenesi a procura da melhor resposta à questão que esqueceu de retaliar o ultrage. Pois jamais admitiria, justamente para Edmund, que não sabia.

— Precisava de higienização do sistema de drenagem antes de seguir para os portos aos quais são destinados — inventou.

As sobrancelhas de Edmund também reagiram à mentira. Os navios eram novos, mais que isso, eram recém-construídos, não havia necessidade alguma de higienizar nada.

— Tem certeza de que não estavam aqui para abastecer ou algo assim?

Dimitri quase bateu na própria cabeça, aquela era uma desculpa bem melhor do que higienização.

— Isso também — disse.

— E o senhor não acha estranho que...

— Eu sou o suspeito aqui? — cortou Dimitri.

— Não, essa não era a minha intenção.

— Então vá fazer o seu serviço e pare de me importunar com perguntas idiotas.

— Era o que eu queria estar fazendo! — rebateu Edmund, mentalmente.

— O marechal quer um plano de contenção de danos para a existência do Ás de Paus — falou Dimitri.

Edmund o encarou, confuso. Era óbvio que o marechal queria o Ás de Paus morto, todos queriam, mas também era uma certeza que o coronel não estava se referindo a isso.

— Que tipo de plano?

— Eu tenho que explicar tudo, garoto?

— Se quiser um serviço satisfatório.

Dimitri fixou o olhar duro em Edmund, os lábios viraram uma linha apertada, mas precisava do major para a investigação e também para aquela tarefa, pois fazia alguns dias que Zunik tinha dado a ordem para que o coronel fizesse isso.

— A população precisa pensar que o Ás de Paus é um agitador eliminado e que tudo o que atribuem a ele é mito, aumentado cada vez que alguém fala.

— Ah, isso. Faço quando voltar e deixo na sua sala.

— Faça e execute, não quero ter que me preocupar com isso também.

Edmund assentiu, cansado. O planejamento era fácil, levaria poucos minutos para concluir, mas executar custaria um tempo de que ele, e sua equipe, não dispunham. Porém, mais uma vez, a ordem não estava aberta a discussões.

— Posso ajudar em mais alguma coisa? — ele perguntou, então.

— Não se enrole — respondeu Dimitri e saiu.

Edmund voltou a sua tarefa, lutando contra a vontade de ignorar o coronel. Não podia fazer isso, mas podia passar o restante do dia ali, longe da sede do governo e longe de cumprir a nova ordem, trabalhando livre agora que a presença tóxica de seu chefe direto não atrasava mais o serviço. O dia seguinte seria um bom dia para pensar nele outra vez.

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